No coração do Boi do Teodoro

No ano que marcaria o centenário do mestre de Bumba-meu-boi, Teodoro Freire, mais conhecido como Seu Teodoro, não houve a festa que todos poderiam imaginar. O maranhense nasceu em 9 de novembro de 1920 e morreu em janeiro de 2012, aos 91 anos de idade, deixando 11 filhos. A pandemia impediu as comemorações, mas a crise não apagou as lembranças e legado deixados pelo homem que trouxe a manifestação cultural para a capital do país. Maranhense e flamenguista fanático, mudou-se para Brasília em 1962. Criou o famoso Boi do Seu Teodoro e conseguiu voltar no tempo e se sentir em casa mesmo tão longe. A tradição é mantida intacta mesmo após oito anos de sua morte.

 

O encantamento pelo Bumba-meu-boi começou ainda na infância de Teodoro, na pequena cidade de São Vicente Férrer, a cerca de 150 km de São Luís. Aos oito anos de idade, o maranhense tinha o costume de assistir às apresentações mesmo com a proibição da família, que se preocupava com as possíveis brigas nas ruas causadas pela cachaça em abundância. Uma noite, porém, a mãe Alexandrina notou que o menino havia saído às escondidas. Pior: ele deixou uma mão de pilão (instrumento para amassar alimentos) para simular que havia alguém na rede dormindo. Assim que percebeu a ousadia, quis bater no filho para lhe dar uma lição, mas a avó interveio e a convenceu do contrário.

 

A paixão pelo folclore nordestino do pai continuou durante toda sua juventude. Quando se mudou para o Rio de Janeiro, Teodoro criou a festa do Bumba-meu-boi com a ajuda de outros maranhenses que moravam lá. Devido ao sucesso da iniciativa, o grupo recebeu o convite para participar do primeiro aniversário de Brasília. Em 21 abril de 1961, o Boi de Seu Teodoro, como ficou conhecido posteriormente, apresentou-se pela primeira vez na Rodoviária do Plano Piloto.

 

No ano seguinte, Seu Teodoro buscou sua família e fixou residência na capital do país. Conciliou o trabalho como contínuo na Universidade de Brasília (UnB), até 1990, com a implementação do projeto do Bumba-meu-boi na cidade. Em 1963, liderou a criação da Fundação da Sociedade Brasiliense de Folclore, atualmente Centro de Tradições Populares de Sobradinho, para difundir a festa do Bumba-meu-boi. O filho Guarapiranga é o presidente do espaço desde 2009.

Mais de 50 anos depois, o Boi de Seu Teodoro continua sendo uma das manifestações culturais nordestinas mais identificadas no Distrito Federal. Mesmo com a morte do mestre em 2012, o “São João do Boi de Seu Teodoro” ocorre todos os anos nos dias 23 e 24 de junho, agora sob o comando do caçula, que concilia o trabalho de motorista de aplicativo com os cargos de Presidente e Coordenador de atividades Culturais do centro.

 

O filho considera que a história do Mestre está intimamente associada à da região administrativa. “Ele recebeu o título de cidadão Honorário de Brasília não só por trazer a cultura do Maranhão, mas por mantê-la. Porque não é fácil você levar a cultura de um estado para uma cidade nova, com gente que migra de todas as outras cidades atrás de emprego e de uma situação de vida melhor”.

 

Mas nem tudo são flores nessa história. Guará ressalta que atualmente é muito difícil estimular a valorização do folclore e da arte popular típicos do Nordeste. Além da desvalorização, os custos para a realização da festa são altos. Por exemplo, os chapéus que compõem a indumentária são de penas de ema, cujo quilo custa em torno de R$ 3 mil. “Tudo é muito caro, mas mesmo assim o boi continua vivo”, declara.

 

Apesar das adversidades, ele e o grupo esforçam-se para continuar o legado de Seu Teodoro. “A gente faz o que é possível, porque está dentro da gente, no sangue, no coração. A gente trabalha para não deixar a peteca cair. É uma história de 57 anos”, observa.

 

Guará conta que o pai sempre lhe pedia que, quando morresse, não deixasse o boi sumir. “A gente vem lutando com muita dificuldade, mas com muito amor no coração. Ele sempre dizia que as dificuldades a gente supera. A gente fica muito feliz por realizar esse trabalho e mostrar também fora de Brasília. Principalmente quando a gente vai no Maranhão, que é o berço da cultura do Bumba-meu-boi”.

 

 

Centro de Tradições Populares de Sobradinho

Durante a pandemia, o Centro de Tradições Populares de Sobradinho está vazio. Na entrada do local, o monumento do boi está sem couro. Os brincantes explicam que todo ano o boi é coberto e enfeitado, este ano porém os pedaços de tecido que restam estão gastos pelo tempo.

 
 
Monumento do boi Centro Cultural de Sobradinho. Foto: Brenna Costa

As fotos das festas penduradas nas paredes enfeitam o local. A última reforma foi feita por Seu Teodoro. O filho explica que o fato de ser reconhecido como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Distrito Federal, não garante muita coisa. O local é fornecido pelo governo, o resto eles se viram. “Tudo depende das condições financeiras… A gente vai se virando, a família, os amigos. Comemoração, rifa”, completa Guará.

 

Em nota, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) diz que declaração de uma manifestação cultural como “bem imaterial” é um ato de reconhecimento por sua relevância para o processo cultural, formação de identidade, entre outras contribuições. Essa declaração não implica obrigação do Estado em apoiar aqueles que atuam para manter a tradição. Mas explica que a Secretaria defende o patrimônio cultural, e trabalha regularmente para incentivar a cultura popular, por meio de seus instrumentos como o Fundo de Apoio à Cultura (FAC), Lei de Incentivo à Cultura e Termos de fomento (com recursos de emendas parlamentares)

 

Graça Maria, 66 anos, mais conhecida como Dona Graça, é uma das brincantes do boi. Ela conta que chegou a acompanhar Seu Teodoro nas buscas por patrocínio. Apesar da idade, nas palavras de Graça, o mestre “levava muito chá de banco”. Após a morte de Seu Teodoro, as coisas ficaram ainda mais difíceis. “Guará corre atrás, mas também, se para Seu Teodoro era ruim, para ele é pior ainda. Porque seu Teodoro era conhecido, Guará não é tão conhecido assim”, explica Graça Maria.

 

Premiações e lembranças de Seu Teodoro estão por todo o galpão onde acontecem os ensaios. Em uma sala fechada, ficam os instrumentos, alguns trajes e decorações usadas nas celebrações. Os bois são atração principal, cada um com um bordado diferente. Em homenagem, muitos deles estampam o rosto do mestre.

 
 
Os bordados dos bois prestam homenagem ao Mestre. Foto: Brenna Costa
 

Do lado de fora do galpão, entre algumas árvores, dois bancos de madeira improvisados e um placa chamam atenção “Escritório do Teodoro”. Era ali que o mestre sentava durante suas diárias visitas ao centro. A placa foi colocada após sua morte.

Além do bumba-meu-boi, no centro brinca-se tambor de crioula, celebrações com música e tambores esquentados no fogo. O local já recebeu centenas de alunos de escolas públicas do Distrito Federal.

 
 
“Escritório do Teodoro” no Centro Cultural de Sobradinho. Foto: Brenna Costa
 

Brincantes

Quem visita o Centro de Tradições Populares de Sobradinho conhece dona Graça. Ela explica, com paciência e sorriso no rosto, que as festas e a cultura maranhense são tratadas com carinho pela comunidade. Há 25 anos, dona Graça e a família moram em Sobradinho. Assim como outros brincantes, a família veio de São Luís, no Maranhão, à convite de Seu Teodoro. Desde então, residem no centro. Todos são brincantes do boi. Com orgulho, ela mostra os figurinos e as fotos da filha Silvia Regina nas paredes do local.

 

Silvia Regina chegou a Brasília aos 11 anos de idade. Segundo a mãe, brincou o boi pela primeira vez na festa do Seu Teodoro. Hoje aos 37 anos, sai de índia nas festas. Raimundo João, esposo de Dona Graça, tem 75 anos e é conhecido como Doca. Ele é amo do boi, que é a função de quem escreve e canta os cânticos conhecidos como toadas.

 

O neto Erick Rafael Ferreira, de 15 anos, sai de miolo, a pessoa que fica dentro do boi. A avó explica que o menino foi diagnosticado com DI (déficit de inteligência) e, por isso, têm dificuldades com aprendizado, mas se encontrou no bumba- meu- boi. “Para a escola, ele tem dificuldade em tudo, só não tem dificuldade pro boi”, diz a avó. Erick Rafael brinca na festa do boi desde os 2 anos de idade. “Primeiro saía de vaqueiro, ano passado começou a sair de miolo. Toca todos os instrumentos.” Aos 15 anos, o menino dá uma verdadeira aula sobre os instrumentos usados nas celebrações. A mãe brinca que a aula de Erick deveria ser no ritmo do boi.

 

 

 

A família relata que ele já acorda com um fone de ouvido escutando toadas e de tarde vai para o salão dançar o boi. “Eu acho bonito, acho legal, nunca vou largar o boi, eu gosto muito do boi”, diz Erick. É dele também, o figurino colorido usado em exposições. Bem embalado e guardado com carinho pela avó, leva a etiqueta “Seu Teodoro Figurino”.

 

Assim como a família de Dona Graça, Gilvan do Vale, 50 anos, veio para a capital federal a convite do Mestre Teodoro. Ele saiu de São Luís em 1991 e, desde então, dedica-se à festa. Além de puxar as toadas, o motorista de ônibus e artesão ainda usa o seu talento artístico para compor as toadas da festa.

 
 

O interesse de Gilvan pelo bumba-meu-boi começou ainda na infância e só foi aumentando ao longo dos anos a partir do contato com Seu Teodoro. E mesmo com todas as dificuldades enfrentadas, ele demonstra otimismo e esperança. “A gente faz aqui a brincadeira mesmo aos trancos e barrancos, porque muitas vezes não tem apoio para botar a brincadeira na rua. Mesmo assim a gente luta, batalha, corre atrás para conseguir botar o boi para brincar”.

 

Larissa Freire, neta de Seu Teodoro, conta que a sua relação afetiva com o bumba-meu-boi aconteceu antes mesmo de seu nascimento. “Me lembro muito nova ali no Centro de Tradições, naquele ambiente, querendo tocar, pegando os bandeirões, brincando. Isso fez muita diferença na minha vida, principalmente na minha forma de me expressar artisticamente”.

 
 

O disco

Hoje percussionista, Larissa reviveu suas memórias de infância durante a gravação do disco em homenagem ao centenário de seu avô. No ano passado, foi convidada pelo Instituto Rosa dos Ventos para assumir a direção musical de “O legado do sonho de uma criança”.

 

Lançado no dia 16 de novembro, o CD contou com a participação de membros do Centro de Tradições Populares e foi gravado no local. “Eu queria que as pessoas tivessem essa experiência de ouvir o disco como se estivessem em uma grande festa, ouvindo aquele aquele som, aquele trabalho. Então gravamos no Bumba, com as pessoas do grupo para trazer essa verdade nua e crua para quem vai ouvir.”

 

Larissa confessa estar orgulhosa por divulgar o legado de seu avô na formação da cultura candanga. “Eu quis valorizar o trabalho das pessoas que fazem parte desse grupo e trazer esse trabalho como uma referência cultural de Sobradinho. Também quis deixar registrado na história a primeira obra voltada para esse lado artístico musical do bumba-meu-boi do Seu Teodoro”, afirma.

 

No álbum, títulos como: Paixão de Teodoro, Centenário e Despedida. O filho Guará, Doca e Gilvan participam do CD. O lançamento está disponível nas principais plataformas digitais.

 

A Secec, Secretaria de Cultura e Economia Criativa, programou para esta sexta-feira, dia 20, uma cerimônia em homenagem aos 100 anos de Seu Teodoro, como reconhecimento de sua contribuição à cultura popular do DF. Uma matéria especial com um perfil de Seu Teodoro, será publicada no mesmo dia.

 

“Potência do DF fazendo seu arrastão

Contrário sai da frente do meu batalhão

Que lá vem paixão de Teodoro

Representando Folclore do Estado do Maranhão.”


Música Paixão de Teodoro

Álbum O Legado do Sonho de uma Criança

 

 

 

 

“O boi de Sobradinho com sua estrela na testa

Vai brilhando no terreiro

O boi de Sobradinho com sua estrela na testa

Vai brilhando no terreiro

Viva São João, nosso santo padroeiro

Viva minha turma, junto com os meus guerreiros

Ou viva Teodoro Freire, em 2020, no seu centenário

Grande mestre brasileiro”

Música Centenário

Álbum O Legado do Sonho de uma Criança

Por Brenna Costa e Débora Milhomem

Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção