Sertanejos explicam amor à Capital e dificuldades

O sonho de vir pra capital do Brasil acompanhou muitos nordestinos até sua instalação completa em terras brasilienses. A meta de mudar os caminhos de vida e tentar melhores condições de trabalho ou acompanhar a família em na busca por uma vida melhor. Esses motivos trouxeram nordestinos como Fábio Afonso, Suderlan Sabino e Maria Lúcia Menezes até o Distrito Federal. A mudança não deixou para trás toda bagagem de cultura que nasceu com eles. A vida após a mudança veio acompanhada de muitas provações mesmo na 4ª maior capital com população nordestina. São 51,1% da população da capital, segundo dados da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan).

 
 

A 400km do sonho

 

“Eu sou nordestino, eu vim pra lutar. A gente pega uma faca, bota na boca, e vamo pra guerra.” A guerra, nesse caso, é a vontade de melhorar de vida. Fábio Afonso de Sousa, de 52 anos, sempre teve o sonho de vir para Brasília, mas os 5 anos de seca na cidade de Sousa, no interior da Paraíba e a 450 km da capital de João Pessoa, retardaram o objetivo do homem que trabalhava no campo para botar comida na mesa para os irmãos.

“Consegui, depois de 5 anos de seca. Tivemos um inverno bom e eu consegui colher milho, feijão, arroz, e coloquei na minha casa para os meus irmãos mais novos, e vim para o Distrito Federal”, explica o paraibano com um sorriso simpático no rosto. Simpatia típica do sangue nordestino que Fábio tanto se orgulha de ter. “O nordestino, o próprio nordestino, nato, ele é hospitaleiro né? O coração dele é gigantesco. Principalmente o meu”, ressalta Fábio.

Foi a convite de um primo, proprietário de um restaurante na cidade, que Fábio decidiu, como ele mesmo descreve, “pegar sua bolsinha”, e enfrentar 29 horas de viagem até Brasília. Eram mais de 2 mil quilômetros que separavam o paraibano do sonho de construir uma vida na Capital Federal. “Eu fui acolhido por esse primo, devo muito o favor. Então eu vim já com uma luz. Você tendo uma luz fica mais fácil. Mas eu vim foi pra lutar”, relembra, sem perder o carisma.

Hoje, dono de uma auto escola em Brasília, Fábio recorda que depois de muitos anos trabalhando “com o braço”, hoje ele deixa a parte mais pesada do serviço na responsabilidade do filho, Fabiano, de 28 anos, formado em administração. “Depois de uns anos, a gente já amadurece. Já tô com 52, então você já pensa mais no dia de amanhã, já trabalha menos, trabalha mais com a cabeça”, explica o empresário, orgulhoso do que construiu. “Eu fico mais na retaguarda. Trabalho mais só na fiscalização, dando uma observada onde eu posso melhorar alguma coisa”, completou o empresário.

Contando já ter passado por outras cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e Patos de Minas (MG), onde trabalhou por quase 15 anos, Fábio é enfático ao afirmar que não há lugar como o Distrito Federal. “Eu amo Brasília”, repetiu o empresário, mas fez questão de esclarecer que nunca deixará de visitar a cidade natal. Ao ser questionado se sente vontade de voltar à Paraíba, Fábio é rápido na resposta: “Penso! Eu enterrei meu imbigo lá! Eu tenho vontade de voltar pra minha terrinha natal”, brinca.

 

Suderlan, do sotaque forte

 
 

“Os estudantes às vezes estranham o sotaque, a abordagem e o jeito de falar”, afirma o professor e enfermeiro de 40 anos, também paraibano de Sousa, sobre a experiência na capital do país. Saído há 12 anos da cidade natal, Suderlan, assim como outros milhares, veio para Brasília em busca de novas oportunidades e melhores condições de vida.

Ele, que deu aulas por três anos em Goiás, completa que por vezes sentiu essa diferença. “Eu ministrei aulas na cidade de Formosa (GO) Lá eu sentia muito mais essa questão da diferenciação, do choque de culturas, até mesmo o jeito do pessoal de Goiás falar. Eles estranhavam o meu jeito, eu estranhava o jeito deles, mas de forma muito tranquila, a gente convivia”, sorri. “Acredito que pelo fato de Brasília ser uma cidade muito plural, tem gente de tudo que é lugar do país. Isso facilita.” explica Suderlan. Ainda assim, o enfermeiro entende que sua aceitação pode ter tido relação com seu status social. “Até mesmo pela questão da condição social, de ser servidor público, já ter uma formação com mestrado, eu não senti diferença nos tipos de atendimento.”

Suderlan nunca abandonou a cidade natal. Ele pensa em retornar após a aposentadoria. “Gosto muito da minha terra e, sempre que possível, eu lá.”

 

“Maria Lúcia, mas pode chamar de só de Lúcia”

 
 

Abril de 1980. Após três dias em um ônibus, Maria Lúcia e seus dois filhos finalmente chegam à capital. Ela, José Luis e Juciléia, de 20, 2 anos e 40 dias respectivamente, chegaram em uma manhã fria e foram direto para o Clube do Congresso, onde o marido e pai das crianças estava trabalhando com serviços gerais e limpeza, havia pouco mais de seis meses.

Vinda sem avisar, Lúcia, como gosta de ser chamada, chegou ao clube com apenas uma mala de madeira velha e as duas crianças. “Quando eu cheguei (no clube), um amigo do meu marido foi falar com ele: ‘Domingos, sua mulher tá aí’. Ele riu e virou pro outro lado.” A senhora de olhos azuis conta com humor. “Eu fiquei esperando na recepção, aquele monte de gente chique passando e eu com dois meninos sujos no colo. O chão era tão limpo que você se enxergava no chão.” Ela ri novamente.

Mas José Domingos, o marido, realmente não acreditou que Lúcia estava ali e demorou para aparecer. “O amigo dele pegou minha mala feia de madeira e mostrou pro Domingos a etiqueta ‘transbrasiliana’. Quando ele mostrou, o homem chega tremeu na base.” Ela gargalha com olhos brilhando.

Nascida em Codó (MA), Lúcia morava com o marido e os filhos na casa da sogra quando a filha da vizinha, que já morava em Brasília e havia ido visitar a mãe, falou das oportunidades de emprego na capital. José Domingos trabalhava como ajudante de pedreiro e não pensou duas vezes em vir atrás de melhores condições para sua família. “Eu sempre fui criada na pobreza total”, relembra Lúcia.

Durante uma semana, Lúcia conta ter morado em um quartinho no Clube do Congresso, sem poder sair e recebendo comida do clube. Até que Domingos conseguiu um novo emprego como zelador de um prédio no bairro do Cruzeiro e eles passaram a morar em um quarto debaixo das escadas do bloco. “Nós sofremos muito aqui, porque ele não ganhava muito bem e eu tinha que ficar cuidando dos meninos”. Nessa época, Lúcia se lembra que os moradores do prédio chegaram a fazer uma arrecadação de roupas para seus filhos, já que eles não tinham. As coisas só começaram a mudar quando José Domingos entrou para o Corpo de Bombeiros e a família se mudou para a cidade de Valparaíso de Goiás (GO).

Não bastando toda essa luta, a jovem senhora conta que anos depois estava indo viajar para visitar seus três irmãos que ficaram em Codó, quando, ao chegar ao guichê de atendimento da rodoviária e falar o nome da cidade, todos que estavam ao redor se afastaram. “As pessoas que estavam atrás de mim saíram dizendo que as pessoas do Codó só em olhar pra outra pessoa ela caia, porque lá é conhecido como a terra da macumba”, completa Lúcia.

Hoje, aposentada e separada, com 60 anos, quatro filhos, nove netos e três bisnetos, Maria Lúcia Rufino de Menezes diz não ter vontade de voltar para sua terra. “Não penso em voltar para lá de jeito nenhum. Aqui eu já tenho minha vida feita.”

 

O preconceito

O episódio vivenciado por Lúcia na rodoviária pode ser caracterizado como xenofobia. Como explica o sociólogo Luís Otávio Assumpção, a xenofobia é uma reação de ódio por medo de alguém diferente do seu contexto social. “A xenofobia é sempre uma relação de hostilidade, de ódio, de rejeição, exclusão daquele povo que é considerado diferente, que não pertence ao seu universo social, cultural, político, socioeconômico.”

sociólogo explica que, quando um nordestino sai de sua terra e vai para outras regiões, principalmente a Sudeste, quase sempre sofre preconceito. “A população dali o vê como alguém que está tomando o seu emprego. A violência também está muito associada a uma população mais pobre, mais carente desses serviços básicos. Então muitas vezes a violência é atribuída a eles. A xenofobia está muito associada a grupos mais desfavorecidos, que aqueles mais favorecidos os encaram como inferiores.”

De acordo com a advogada civil Amanda Melo, é muito comum que nordestinos sofram esses tipos de ataques, principalmente na região Centro-sul do país. “Ao longo da colonização brasileira e de todo o processo histórico que resultou dela criou-se enormes barreiras sociais e culturais entre os brasileiros. Além disso, determinadas características físicas de certa forma foram naturalizadas. Viraram piada, chacota. É importante que seja levado ao conhecimento geral que tais condutas para além de moralmente incorretas, constituem crime”, explica a jurista.

A punição por xenofobia está prevista na lei nº 9459/97 que define os crimes resultantes de raça ou cor. “Além disso, há também a previsão do crime de Injúria no art. 140 do Código Penal, que é uma forma qualificada, em que pode ser enquadrada determinada ofensa dirigida a uma pessoa”, ressalta a advogada civil. Quanto a pena, Amanda acrescenta que esta pode variar. “As penas são diversas, pois cada tipo de conduta tem uma punição diferente. O crime de Injúria com a utilização de elementos como raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência é de um a três anos de detenção e multa”, afirma a especialista.

Por Evellyn Luchetta, Geovanna Bispo, Helena Dornelas e Mayra Christie

Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção