Lembranças submersas: conheça a Vila Amaury

Sobraram mais do que tábuas vistas pelos mergulhadores que redescobrem o fundo do Lago Paranoá. Quem não mergulha (em nenhum dos sentidos) pouco conhece a história completa de um lugar que sobrevive apenas em raros registros históricos ou na memória de quem viveu ali. Durante a criação de Brasília, a Vila Amaury foi um dos conjuntos de acampamentos construídos para abrigar os trabalhadores que vieram de outras regiões do país, os candangos. A vila abrigou entre 15 a 16 mil operários. O local está submerso há 58 anos para dar lugar ao lago artificial da cidade. Mas imergir até lá, ainda hoje revela histórias de pessoas que ajudaram a formar a capital do país, em que nem o lago pode esconder.

A Vila Amaury, na verdade, foi fundada no final de 1957, durou menos de três anos durante a construção de Brasília, e foi inundada antes mesmo da inauguração (21 de abril). No local, viviam os operários que construíram as primeiras estruturas do aeroporto, Plano Piloto, o Congresso Nacional, Câmara dos Deputados e o Senado Federal; os centros comerciais da W3; além dos primeiros prédios das asas Norte e Sul. Houve quem desocupou a casa assim que teve o anúncio da Novacap. Outros esperaram até o começo da abertura das comportas. Histórias que são reveladas a partir da memória de quem integra a Associação dos Pioneiros Candangos de Brasília.

Trabalhadores na construção de Brasília. Foto: Museu Vivo da memória Candanga

A cidade habitada pelos candangos e pioneiros de Brasília foi construída com os restos das grandes construções da capital. Casas foram feitas de sacos de cimento e madeiras velhas que sobravam das obras. Aqueles que chegaram no centro eram acomodados nos acampamentos das empresas. Outros formaram vilas para morar com as famílias. A maioria dos trabalhadores era formado por homens jovens que vislumbravam a criação do que seria a futura capital do Brasil. Mulheres em Brasília era raridade.

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Brasília, após a fundação, recebeu mais de 60 mil trabalhadores que chegaram de diversos lugares do país, como explica o diretor de Pesquisa, Difusão e Acesso do Arquivo Público (ArPDF), Elias Manoel da Silva. “Em 1959 havia 64 mil pessoas morando dentro do território do Distrito Federal, do ponto de vista territorial, antigamente havia umas casinhas dentro de fazendas onde viviam centenas de pessoas, e depois de três anos já havia milhares de pessoas morando aqui. Desse número, 40 mil eram apenas operários trabalhando mesmo, e 24 mil eram as pessoas que vinham com eles, como as esposas, os parentes, os filhos. Esses operários chegavam e ficavam só ali no centro, dentro do eixão e das asas, onde eram os canteiros de obras”.

Grande parte dos pioneiros, que ali moravam, vieram do Nordeste, fugiam da seca que atacou a região, e principalmente, em busca de melhores condições de vida. A nova capital das oportunidades saltava aos olhos daqueles que procuravam por um novo começo. É o caso do pioneiro Cely Nogueira de 80 anos. À época, com 20, se arriscou em uma mudança para conhecer a então futura capital do Brasil. Saiu de Correntes, no interior do Piauí em um burro e mil cruzeiros emprestados de um amigo para se aventurar em Brasília. A viagem no lombo do animal durou cinco dias até chegar a Barreiras (BA), a 610 km de distância. Lá encontrou alguns familiares que vieram de caminhão para Planaltina até chegar à capital.

“Pegamos (carona em) dois caminhões no percurso. Como não havia lugar para carregar o combustível, a gente teve que levar cinco tambores cheios de óleo diesel. A gente sofria muito, era um cheiro muito forte. Como nesse tempo não tinha ponte, não tinha estrada, onde hoje é a BR 020, a gente andava uma parte e onde tinha que atravessar rio, a gente passava naquelas madeiras, e o caminhão passava só”.

Após uma longa jornada, ele veio para a capital por meio de uma carta do pai para conhecer a “Nova Brasília”, cidade idealizada por Juscelino Kubitschek. Assim como os demais, buscou melhores condições de vida trabalhando na cidade. “Eu vim trabalhar e ver o que tinha de novo. Aqui eu cheguei, e aqui eu trabalhei em todo o início da vida. Tinha um pessoal que andava com alto falante falando: pessoas que chegaram e tiveram tirado os documentos procura a Novacap, para falar aonde a gente podia empregar”.

Cely recorda que ofereceram a ele a posição de vigilante na Guarda Especial de Brasília (GEB), a primeira Polícia a administrar a região. Formada pelos cidadãos da época e ligada à Novacap, a guarda foi criada principalmente para proteger, gerenciar e fiscalizar as construções e os canteiros de obras dos prédios de Brasília. Pela falta de preparo desses vigilantes, no entanto, ações repercutiram de forma negativa para a corporação praticando dessa forma diversas atrocidades contra a população.

A história mais conhecida entre elas foi “o massacre da GEB”, em que centenas de operários morreram após uma discussão em um dos refeitórios da construtora Pacheco Fernandes Dantas, onde as pessoas reclamaram com os funcionários do local sobre a qualidade da comida que estava estragada. Diferentes versões foram contadas após esse episódio. Há quem tenha medo do que suas palavras possam causar com as revelações sobre essa tragédia que viveram. O que dizem sobre esse massacre é que, depois da briga no refeitório, os vigilantes, em busca de ‘’justiça’’, invadiram os acampamentos durante a noite e mataram covardemente muitos trabalhadores, e após disso foram enterrados em diferentes canteiros de obras do centro da capital.

Depois de recusar a oferta de trabalhar como guarda, Cely entrou na empresa Sondotécnica, responsável pela construção de alguns prédios do centro, como na quadra 208 sul. “Eu trabalhei uns oito meses nessa empresa. Eu e mais oito pessoas trabalhávamos abrindo buraco para colocar as colunas do prédio, não tinha máquina para fazer isso aí tinha que ser feito à mão. Era um rodízio. Cada um trabalhava por duas horas, parava porque a mão não aguentava mais. A gente carregava quase 50 kg carregando o cano, empurrando na terra. Cada batida ia entrando e tirando a terra até chegar na água”.

Cely teve a chance de se mudar para o estado do Paraná, mas optou por continuar nas obras da capital. Depois trabalhou na empresa IPASI, como servente e foi promovido para pedreiro. “Eu trabalhava por hora e não por dia, eu ganhava 21 cruzeiros por hora trabalhada”. Ele tinha muita força de vontade para os serviços braçais, por isso, foi chamado por uma construtora de grande porte. Mas, durante o serviço se acidentou. “Um rapaz buscou a mim e uns trabalhadores. Ele tinha bebido e quando chegou no local onde fazia o cimento e o ferro das lajes dos ministérios, ele capotou o carro. “Tive uma lesão no crânio e fiquei paraplégico”. Ele conta que, por causa do acidente, passou um mês em coma no Hospital IAPI, localizado onde hoje é o Núcleo Bandeirante; e após esse trauma, precisou fazer uma cirurgia no Rio de Janeiro. A família o acompanhou na viagem e também durante o tratamento, na volta para Brasília tentou recomeçar a rotina aos poucos.

Cely, ainda muito debilitado, foi viver com o pai na Vila Amaury voltando de viagem. O pioneiro não chegou a morar na região, mas passou grande parte do seu tempo lá. Ele afirma que a situação no acampamento era precária. “A Vila Amaury era tipo uma favela, não tinha uma coordenação de rua numerada, eram ruas estreitas, um comércio aqui outro alí, um mercado, não tem um lugar coordenado, cada um faz a casa do jeito que quer e não tinha casa de cimento, era só tábua”.

“Era provisório”

A cidade começou a crescer. Trabalhadores não tinham onde ficar e dependiam de alojamentos cedidos pelas empresas, improvisaram casas feitas de sacos de cimentos e madeiras velhas. Porém, a capital começou a se desenvolver e, para isso, o servidor da Novacap, Amaury Almeida, responsável pela organização dos trabalhadores que chegavam na capital; criou uma Vila para acolher a população candanga. De acordo com a Novacap o lugar era provisório. Após a inauguração de Brasília, os trabalhadores teriam que deixar seus barracos para serem realocados, ganhando lotes em regiões próximas ao Plano Piloto, como as primeiras cidades satélites: Sobradinho, Taguatinga e Gama.

Primórdios da Barragem do Lago Paranoá. Foto: Arquivo Público do Distrito Federal.

Um dos que aderiram à loucura de começar uma cidade do zero foi Miguel Machado, de 80 anos, nascido em Lagoa Formosa, no interior de Minas Gerais. Ele veio para Brasília ainda jovens, aos 18 anos atrás das maravilhas que a nova cidade prometia, deixando para trás os pais e seus 14 irmãos. “Eu trabalhava no interior, na roça, e quando eu vim para cá foi em busca de melhores condições de vida, porque no interior a gente tem uma vida muito limitada mesmo. Na época a gente estava em um período muito difícil, minha família era muito pobre e a gente não tinha propriedade rural, até mesmo porque o meu pai não tinha estabilidade, ele era um artesão nato. Meu pai era quase tudo, tinha múltiplas funções”. Miguel arranjou uma mala velha, colocou as poucas roupas que tinha e algumas ferramentas de carpinteiro e tomou o caminho para Brasília. Ele quer transformar a própria história em livro, ainda sem título, mas “toda escrita”. Nos relatos, ele explica o longo caminho que percorreu para chegar em Brasília. No dia 26 de dezembro de 1957, às 6 horas, estava em direção a capital, “onde tomaria outra condução para o então mundo daquelas rosadas esperanças, a sonhada Brasília”. A viagem durou 25 horas, a estrada era de terra, esburacada e enlameada condições agravadas pelo período chuvoso no centro do país.

Ao chegar ao local, o aposentado conta que encontrou um local para morar e logo começou o serviço na área de sua especialidade. “Eu comecei a trabalhar com serviços variados, logo quando eu consegui os documentos necessários. Fui admitido por uma empresa e eu trabalhei como carpinteiro durante três anos. Na quadra 107 Sul, eu trabalhei nos 11 prédios. Lá foi o meu primeiro trabalho fixo aqui em Brasília”.

As grandes empresas forneciam abrigos para os trabalhadores perto do local de trabalho. Miguel, antes da Vila Amaury, morou em um local fornecido pela Fundação Casa Popular, empresa encarregada da construção das casas na W3 Sul. Lá, ele trabalhou apenas dois dias como marceneiro, além de construir uma rampa para carregar caminhões destinados ao concreto das obras.

Uma barraquinha como casa

No ano seguinte, em 1958, o operário buscou a família para morar em Brasília. A procura de melhores condições de vida e novas oportunidades, mas no começo eles passaram dificuldade. “Quando nós viemos para cá, eu morava no alojamento, mas a minha família foi morar em uma barraquinha coberta de saco de cimento vazio, isso ficava do lado da construção. Nós construímos essas barraquinhas e a gente aproveitava o que sobrava das obras, então a gente pegava as madeiras e pregava os sacos de cimento, aí gente morou durante um ano desse jeito.”

O local onde a família construiu seu barraco era a então Vila Amaury. Ele lembra que o local era “bastante povoado” nos finais de semana. Mas, ao longo do dia, durante a jornada de trabalho não se via uma pessoa andando na rua se não fosse em direção às obras da cidade que estavam perto da inauguração da capital. “Resolveram tirar esses abrigos improvisados, para inaugurar Brasília, aí essa retirada toda criou a Vila Amaury. Então a remoção de todo esse pessoal foi assentado e a Vila foi construída com restos de madeira retiradas das construções. Eu continuei nos alojamentos, mas a minha família morou lá, então eu vivia naquele lugar”.

Depois disso, Miguel foi requisitado por outra grande construtora, junto com Cely Nogueira, mas sua função girava em torno da instalação de elevadores em prédios. Esse foi seu primeiro emprego oficial. No total, chegava a trabalhar 16 horas por dia. “É humanamente impossível imaginar ou descrever meu entusiasmo com o meu primeiro emprego oficial. A sensação foi de que uma nova vida estava começando para mim”.

Nas folgas, Miguel recorda que passeava nas ruas da Vila Amaury. O local atendia a população, composta por barracos em ruas estreitas, comércios, bares e até um pequeno cinema com poucas cadeiras, esse era o lugar em que o jovem levava suas ‘namoradinhas’ para se divertir. Com um sorriso no rosto e os olhos brilhantes, ele relembra um fato que viveu durante uma noite de descanso:

Mergulhadores visitam a Vila Amaury. Foto: Guilherme Bastos.

“Todos os dias à noite antes da refeição, reunia na base de oito a 10 colegas, companheiros de trabalho, a gente ia num barzinho na Vila Amaury tomar uma cerveja. Esse barzinho não tinha nome e não tinha piso, o chão era de terra batida. Aí estávamos sentados em uma mesa de madeira rústica, e a gente sempre disputava a cerveja no palito”. Mas o ambiente não era só de descontração. Havia tensão também e brigas entre operários. Para conter as brigas, a GEB sempre aparecia.  “Eram homens truculentos, mas não arbitrários, trabalhavam para fazer justiça”, afirma o aposentado.

Outro pioneiro que presenciou a criação da Vila Amaury foi o aposentado Jales Ramos de 72 anos. Ele veio ainda criança, fugido de casa aos 12 anos após brigar com o pai. Saiu de Monte Carmelo (MG), a 450 km de distância, para procurar refúgio e trabalho na futura capital. Chegou em 1958, trabalhou em uma mecânica. A especialidade era motonetas e lambretas.

Como ainda era uma criança, Jales afirma que não tinha muito o que fazer para se divertir na cidade. “Não tinha nada para fazer, eu era criança ainda, não lembro de muita coisa, era uma cidade em construção então as pessoas trabalhavam o dia inteiro e só paravam para descansar”. Sobre a Vila Amaury, o mineiro afirma que o pouco que se lembra é das casas feitas de madeira e as ruas desordenadas. “Uma das lembranças que tenho é ver as madeiras das casas coloridas. Quando eles colocavam a roupa para secar, a cor do tecido escorria e a madeira absorvia a cor da roupa. As casas todas eram coloridas, mas a vila era precária. Não tinha infraestrutura adequada para as pessoas, nem iluminação nem nada fazer”.

Abriram as comportas

Desde a criação, a Vila Amaury era efêmera, ou seja, temporária, passageira, assim como o trabalho árduo e precário dos trabalhadores, conhecidos como candangos, que “levantaram Brasília do pó”. A Novacap estava trabalhando na criação da barragem do Paranoá para enfim abrir as comportas e deixar com que as águas invadissem a capital. A promessa era que o lago traria lazer para a população e também grandes melhorias climáticas. Mas, de acordo com os primeiros moradores da capital, Brasília era uma cidade em que chovia bastante, a temperatura não era alta e o clima agradável, apresentando alto índice pluviométrico durante o ano. “Os 12 meses choviam”. Quando finalmente abriram as comportas e a água começou a invadir o espaço destinado ao lago, muitos dos que moraram na Vila Amaury só saíram quando a água entrou nas casas, obrigando a sair às pressas.  A Novacap auxiliou na mudança dos moradores para os lotes cedidos nas regiões administrativas do Distrito Federal que já estavam sendo demarcadas para recebê-los; em Sobradinho, Taguatinga e Gama.

Por meio da comunicação por alto falante, o órgão entrava de um lado ao outro da Vila Amaury avisando a população da retirada dos objetos que a água estava subindo e quem se interessava em receber um lote deveria se apresentar na Novacap e escolher a cidade em que desejava residir.  “Enquanto o lago enchia, muitos animais fugiam para o nosso lado tentando se salvar. Então às vezes a gente via uma madeira com várias cobras flutuando na água, era assustador, sem falar no tanto de inseto que entrava em casa”, afirma Miguel. Jales foi um dos que acompanhou de longe a retirada dos trabalhadores e de sua família da Vila Amaury para outras cidades. “Começaram a tirar as pessoas mais próximas da barragem porque a água ia encher rápido e depois tiraram as pessoas perto do Congresso, onde hoje é ali perto do Clube Cota Mil”.

Um dos que resistiram a sair de casa foi o pai de Cely Nogueira. Só depois que as águas do Lago Paranoá invadiram seu terreno que ele saiu rapidamente com as coisas que lhe restaram. “Meu pai teimoso não queria sair. Ele não acreditava que a água ia subir. De repente, a água estava entrando dentro de casa. Eu me mudei com ele com a água dentro da casa porque ele não queria sair. Aquele que não queria sair, teve que sair forçado”.

Remoção compulsória

Diferente da família de Cely, a remoção de Miguel da Vila Amaury foi tranquila. Ele conta que as cidades já se encontravam organizadas para receber a população de lá. “A gente sabia que tinha que sair, mas a gente não sabia para onde, até porque área já estava toda demarcada e o Lago estava enchendo, então a gente tinha certeza que deveria sair”. Taguatinga estava a sua espera. Foram para lá com terreno fixo e demarcado, com promessas de escrituração do lote.

A remoção compulsória aconteceu gradativamente de acordo com o fluxo em que o Lago Paranoá enchia, aqueles que resistiam acabaram cedendo, e às pressas retirando seus objetos de suas casas. A Vila com toda aquela história vivida por diversos trabalhadores, se destruindo aos poucos. A grandeza era diretamente proporcional: quanto mais a água do lago enchia para saciar as promessas climáticas de alguns, mais os pertences, as convivências e as histórias ficaram submersas no Lago Paranoá.

Turismo aquático

Após 58 anos desde a inauguração de Brasília, tudo isso está localizado a mais de oito metros de profundidade, próximo ao clube Cota Mil e a L4 Norte. Para reviver toda a história e observar os pertences e as estruturas dos últimos barracos deixados pela população, é necessário contratar uma escola de mergulho. Não será fácil. O local é muito escuro e o mergulhador amador precisa estar acompanhado por instrutor e um de resgate. Para isso, é necessário ar comprimido, composto de 21% de oxigênio e 79% de nitrogênio presente em um cilindro de mergulho. Para quem não mergulhar, conversar com esses pioneiros da Vila Amaury se constitui em uma aula de Brasília muito além da superfície da memória.

Por Victória Bastos

Matéria publicada em dezembro de 2018, na Revista Esquina.

 

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção