Surdo desde criança, advogado passa a ouvir e celebra recomeço

Paulo comemora com seus colegas após vencer em prova de resistência atletas do país todo / Foto: Arquivo pessoal

“Eu vim, eu vivi, eu conquistei” em latim “veni, vidi, vici”. A tatuagem no braço direito de Paulo Medeiros Sugai, hoje com 29 anos de idade, é mais do que a reunião de algumas letras ou frase feita. A escrita no braço direito tem marcas pelo corpo inteiro. Nem todas visíveis. Mãe enfermeira, pai médico ambos vivem hoje no Rio de Janeiro, Rogério e Suyan lembram que se viram em uma situação delicada de saúde. Em 1989, a mulher descobriu que estava grávida.

Durante as atividades de enfermagem no Hospital Universitário de Brasília, acabou contraindo rubéola. Naquela época, não havia tratamento para a doença, o que colocou a gravidez de Suyan em risco. O médico e a enfermeira resolveram continuar com a gravidez mesmo sabendo das possíveis consequências e, no dia 7 de abril de 1990, nasceu Paulo, uma criança com apenas uma limitação, a surdez.

Foi apenas 28 anos depois que ele ouviria a voz das pessoas (a primeira foi o próprio nome, dito pela mãe), os sons da vida que o cercava pela primeira vez, após um procedimento cirúrgico que permitiu com que Paulo recuperasse parte da audição, o transplante coclear, realizado no Hospital Brasília, no Lago Sul, em Brasília. Advogado e ex-jogador de futebol americano, ele tem uma história para contar em alto e bom som.

Desculpe, não ouvi!

Enquanto bebê, os pais começaram a desconfiar de problemas na saúde da criança , quando durante a noite ou dia, enquanto Paulo cochilava em seu berço, nenhum ruído na casa o acordava, fossem portas batendo, janelas ou até pratos ou copos caindo no chão. Paulo continuava dormindo profundamente. Preocupados, os pais o levaram para um médico, que após alguns exames, relatou a deficiência auditiva. Apenas em São Paulo, com um especialista na área, que Rogério e Suyan tiveram certeza que seu filho, de apenas 4 meses, tinha surdez profunda bilateral. Seus pais, então, iniciaram no mesmo mês consultas com uma fonoaudióloga. 

“Na infância, desde o diagnóstico aos 4 meses de idade, eu assumi o chamado muito forte, conscientemente, da responsabilidade amorosa de estar presente no seu desenvolvimento”. Suyan relembra como foi o chamado da maternidade quando descobrira da deficiência de Paulo.

“Tive com gratidão, o apoio de várias pessoas fundamentais”, afirma a enfermeira. Ela referia-se ao familiares, além da ajuda, desde o diagnóstico, de fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas, psicólogos e professores “e tantos outros que fomos conhecendo ao longo da jornada e trouxeram contribuições relevantes  , para o aprender a lidar profundamente com a realidade da deficiência auditiva e suas implicações na vida de uma pessoinha tão importante como meu primeiro filho”.

Paulo “Baú” e seus companheiros derrubam jogadores do time rival / Foto: Arquivo pessoal

Lá fora é muito barulhento

Encontrei Paulo Sugai duas vezes. A primeira foi numa cafeteria próxima ao escritório de advocacia. Com um sorriso no rosto, me perguntou se era preferível uma mesa lá fora ou do lado de dentro do estabelecimento. Mas o lado de fora estava muito barulhento, graças à hora do rush, e devido ao transplante, Paulo tem alta sensibilidade, então nos sentamos na parte interior. 

Ele contou sobre as descobertas, o apoio dos pais e como foi a novidade de uma prática de esportes que não é o mais tradicional no Brasil, as dificuldade de exercer a profissão de direito sendo deficiente auditivo. Na segunda vez, nos encontramos em uma praça de alimentação para conversarmos sobre sua infância, o bullying que Paulo sofria no Ensino Médio, e como foi que entrou para o Brasília V8, o time no qual jogou dos anos de 2012 até 2016.

As descobertas não surgiram apenas após a cirurgia. Paulo relembrou, entre sorrisos e risadas, momentos bons na infância, quando fazia consultas com uma fonoaudióloga, aos nove anos. Havia pedido para que ele me contasse a primeira história que lhe viesse à mente no momento, e entre avisos sonoros de fast-foods e pequenas conversas ao nosso redor, ele contou como tinha vergonha de usar aparelhos auditivos.

Na época, os aparelhos não eram tão modernos, logo, eram grandes, ainda mais para uma criança. Mas sua fonoaudióloga tinha um exercício, que ficou na sua memória para sempre. A mulher pegou um saco de lixo, fez com as mãos como se tivesse tirando de seu peito sua maior vergonha e, em seguida, jogou-a, simbolicamente, no saco de lixo preto. Chegara a vez do pequeno Paulo, então, que disse ter vergonha se ser surdo, de ter que usar aparelho auditivo, de falar de uma maneira diferente. Ela amarrou os sacos e jogou-os para que o caminhão de lixo os levassem embora. Naquele momento, Paulo realmente sentiu que havia se livrado de suas vergonhas, mas não é algo tão simples assim.

Mas descobertas não foram feitas só por Paulo. “Nós precisávamos estar muito atentos e conscientes quando em grupo para incluir o Paulo nas conversas à mesa, permitir a ele a leitura labial e falar um de cada vez. Não era uma tarefa fácil pra ninguém.” relembra a mãe sobre os familiares em reuniões, jantares e festas. Apesar da dificuldade de se comunicar com as pessoas ao seu redor, Paulo sempre mostrou-se compreensivo e paciente “Não se revoltava ou reclamava indignado. Nos lembrava quando ele achava necessário, e nós percebíamos na hora, pedindo desculpas pela desatenção.”

No ensino médio, Paulo contou que sempre tinha que sentar nas primeiras carteiras da sala, para que pudesse fazer a leitura labial dos professores. Mas eles não facilitavam, se viraram de costas, falavam enquanto escreviam no quadro. Isso tudo mesmo tendo o apoio de sua mãe, que fazia questão de todo início de ano ir até a coordenação da escola e explicar a situação de seu filho. O advogado lembra como os colegas, para irritá-lo, teciam comentários maldosos com as mãos em frente aos lábios, para que Paulo não pudesse entendê-los, jogavam bolinhas de papel nas costas dele enquanto ele estava sentado na sala, gritavam seu nome durante a aula. Isso tudo fazia com que o menino se sentisse isolado.

Paulo chegou a fingir-se de doente para os pais, mas devido à profissão dos dois, médico e enfermeira, seus planos para faltas aula não funcionavam. Mesmo com as dificuldades, Paulo superou o Ensino Médio, e tendo sempre certeza de que entraria para algum curso de humanas, seu sonho foi ir para o curso de História, mas após tentar o vestibular sem sucesso, acabou entrando para Direito em uma particular, onde pôde juntar áreas que sempre gostou: ler, escrever e ajudar o mundo a ser um lugar mais justo.

“(…)só aparece por lá!”

Em uma certa tarde, Paulo já na faculdade de Direito, foi a um fast-food próximo à sua universidade. Estampado em seu peito o símbolo de um time de futebol americano. Na fila, Paulo é abordado por dois homens que diziam ser da diretoria do Brasília V8 e lhe perguntaram se queria fazer parte da seletiva para o time.  Ele fica meio sem reação, compra sua comida e vai embora, mas no estacionamento se depara com o homem de novo, então resolve contar pra ele o que acontecia em sua vida.

“Cara, eu me interessei muito, mas eu tenho uma coisa pra contar… eu tenho deficiência auditiva, como é que faz?”, para o que recebeu simplesmente um “Não se preocupa, não, só aparece por lá!”. No dia, Paulo participou da seletiva e entrou para o time. Entre vitórias e derrotas, Paulo conta que viveu o melhor dia de sua vida com o Brasília V8, lá no Rio de Janeiro, quando encontrou seus ídolos do esporte, jogadores profissionais da NFL (National Football League, a liga nacional de futebol americano dos Estados Unidos) e ainda pôde fazer um teste de força e velocidade no qual superou todos os seus colegas brasileiros, se assemelhando à performance dos atletas americanos do norte.

O seu tempo no esporte o ajudou a ver como a inclusão é possível para essas pessoas, independente do meio em que elas se insiram ou sentem vontade de entrar. Veja bem, Paulo jamais pensara que poderia fazer um esporte como esse, que exige ao mesmo tempo habilidades motoras e comunicativas, ainda mais considerando as distâncias nos campos de futebol americano e no fato do uniforme cobrir grande parte do rosto, então a leitura labial torna-se impossível. Mas os colegas e o próprio Paulo se adaptaram para melhor atender as necessidades um do outro. Gritos das jogadas? Não há necessidade, o time de Paulo e ele construíram sinais para as jogadas, que tradicionalmente já são organizadas por números arábicos e gregos, e utilizaram da Linguagem Brasileira de Sinais para identificá-las. A comunicação fluiu e o time cresceu, como amizade, e como esportistas. 

Por João Pedro Rinehart 

Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção