Sociólogo português diz que europeus deveriam aprender com refugiados

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Sociólogo lamenta que meios de informação não colaboram. Imagem: Creative Commons

A preocupação com a crise dos refugiados no mundo só passou a ganhar notoriedade quando atingiu os interesses da Europa e dos Estados Unidos. A tese é defendida pelo sociólogo e pensador português Boaventura de Sousa Santos, que esteve em Brasília em outubro. Para ele, as rotas de migrações estão cada vez mais complexas, porém é na África que se vê o maior número de deslocados, cerca de 4,9 milhões de pessoas, e “ninguém” aborda o assunto, por ser um continente menos desenvolvido economicamente. “Assistimos a uma crise que não tem precedentes. Essa crise é a crise de milhões de pessoas que estão sendo forçadas a sair de suas terras e de seus lugares para outros países”, alerta. O professor da Universidade de Coimbra afirma que os europeus teriam uma grande oportunidade de aprender com os imigrantes.

“Por que esse preconceito colonialista da Europa, de pensar que não temos nada a aprender com os outros países, por serem menos desenvolvidos? Não seria essa, a grande oportunidade de conhecimento e de enriquecimento da cultura europeia?”. Segundo o professor, o avanço nos meios de mídia e o surgimento das redes sociais não evitaram a desinformação acerca dos problemas vividos pelos países considerados menos desenvolvidos. Ele também explica que os refugiados observados na Europa são apenas uma pequena parcela dos deslocamentos populacionais vividos atualmente, no entanto é o “grande drama” europeu. “A África, por exemplo, tem 4,9 milhões de refugiados, enquanto a Europa atinge 1.3 milhões”.

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“Nos meus últimos trabalhos de sociologia eu tenho pensado na teoria da ‘escuta profunda’, conta o educador. Não é o simples fato de ouvir, mas de “escutar”, sentir o silêncio, a história”. Ao fazer o exercício da escuta profunda, o professor lembrar do século 17 ao 19, quando cerca de 3 milhões de escravos morreram no caminho da África à caminho das Américas, e questiona. “Onde está o progresso nisso?”, questiona.

A reflexão continua ao olhar para a sociedade atual e não ver “mudanças profundas”, afirma o professor. “Continuo a ver pessoas que não são pessoas. Continua a haver um sistema capitalista e patriarcal, que para poder mandar, tem declarado a não humanidade de muitas pessoas que são tidas como animais ou paisagem”, lamenta.

Boaventura de Sousa Santos também questiona o receio com os imigrantes sírios por parte dos europeus, que não são pobres, mas são engenheiros, sociólogos, médicos, entre outras profissões. O professor esclarece ser um desperdício de conhecimento já que o continente vai precisar de 20 milhões de pessoas nos próximos anos.

Por Lucas Valença

Post Author: Lucas Valença