Selfie de mendigos: eles não nasceram na rua

A moradora de rua Juraci dos Santos, 27 anos, que não gosta de se ver no espelho, aceitou tirar uma selfie para a reportagem da Agência de Notícias UniCEUB. Além dos flashs, há histórias de pessoas que sofrem com preconceitos, humilhações e que atrapalham as belezas da cidade. Afinal, nos grandes centros urbanos, um “mendigo” incomoda muita gente.

Juraci desde os 17 anos vive na rua. “Tem 10 anos já. O tempo passa rápido”. Nesses anos, teve quatro filhas: duas meninas que vivem com o pai, uma que mora com avó e a mais nova, nascida em dezembro do ano passado, que, segundo ela, “viajou no mundo”.

Juraci tem 27 anos e, tem quatro filhos
Juraci tem 27 anos e, tem quatro filhos

Juraci contou que deixou a caçula na maternidade quando nasceu, mas ao retornar já não estava no hospital. “Os médicos não me deixaram pegar ela por causa da sujeira. Aí eu fui embora. Quando voltei, não estava mais lá”. Juraci acredita que a filha está em algum lugar melhor.

A sujeira e o odor desagradável viram estorvos no cotidiano das pessoas que vivem em condição de rua. “Eles fedem”, disse um comerciante ao justificar a tentativa de expulsão de Juraci de uma mesa em frente à lanchonete que comanda na Rodoviária do Plano Piloto. O proprietário alegou que a presença da moradora de rua atrapalha a clientela.

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Juraci é casada e vive com o marido nas ruas. Brigou com a mãe por motivos que não quis revelar. As duas não conversam mais. Ela se orgulha de não ter vícios. Quer dizer “só a cachacinha”, confessou.

Paulo comemora "liberdade"
Paulo comemora “liberdade”

 “Amo isso aqui”

Paulo Bento da Silva, de 60 anos, era um pescador de marisco em São Luís há 14 anos, onde ainda guarda um terreno. Após um sonho resolveu sair da capital maranhense para se aventurar pelo país.

Silva conta que nasceu em Maceió, mas já passou por Palmas, Natal, tem duas filhas e uma neta em Teresina. Mas guarda um carinho especial por Brasília. “Amo isso aqui. Uma capital linda”.

O alagoano perdeu a mãe cedo, foi quando decidiu ir para São Luís virar pescador. Ele não se arrepende de ter saído. Segundo o homem, pode desfrutar da liberdade e fazer o que quiser. “Hoje em dia, eu posso tudo. Sou livre”.

Papai Noel

Nilson Francisco dos Santos, de 64 anos, também conhecido como “Papai Noel de luto”, chama a atenção ao peregrinar pelo país em uma bicicleta com cabine e frases de protesto. Ele decidiu andar pelas estradas a princípio para cumprir uma promessa e continua após uma decepção com a política.

Nilson é um andarilho de bicicleta
Nilson é um andarilho de bicicleta

Seu Nilson largou a escola e começou a trabalhar quando o pai faleceu aos oito anos de idade. Ele trabalhava em derrubada de mato, em garimpo, isolado das cidades, quando, aos 60 anos, ao cortar uma árvore o vento virou o tronco contra ele, o que provocou ferimentos e o impediu de continuar a realizar trabalhos pesados.

Após o acidente, seu Nilson tentou se aposentar, mas foi impedido por não ter arcado com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ele disse que deve receber uma contribuição do governo, mas apenas aos 65 anos.

A partir deste dia, seu Nilson virou o Papai Noel de Luto. Decidido a protestar contra o que julgava errado, preparou uma bicicleta com cabine acoplada e frases que representam suas ideias sobre a política.

“Eu escrevo na minha carroça o que eu sinto, o que eu estou entalado na garganta, mas se eu fosse escrever tudo o que eu sinto, tudo o que eu penso, precisava escrever na muralha da China”.

Seu Nilson nunca deixou de ler mesmo parando de estudar e revela que admira as histórias de Marco Polo, mas se compara a outro herói da literatura. “O Marco Polo era aventureiro. E eu ando a procura de justiça. Então eu me identifico mais com o Robin Hood”.

O senhor não comenta sobre filhos ou sua vida pessoal antes de ser uma pessoa em condição de ruas. Ele se mantém com doações de roupas, comidas, aparelhos eletrônicos que ganha ao conhecer as pessoas na estrada. Durante sua estadia em Brasília, ficou em um bambuzal no Park Way – área nobre do Distrito Federal -, onde recebeu doações de celulares, cestas básicas e apoio dos moradores no local.

Paranaense da cidade de Londrina, seu Nilson tem como companhia a cadela Princesa que desde o início tem o acompanhado e protegido. O Papai Noel de Luto escreve sua história em vários cadernos que planeja transformar em dois livros – um antes e outro depois do acidente.

Os sonhos são muitos e o medo só um: o frio. O homem que nasceu na região mais fria do Brasil e vive nas ruas tem pavor das noites geladas e tenta se abrigar de forma confortável. Seu Nilson informa que vai parar esse ano de caminhar. Afinal, ao completar 65 anos, deve receber a contribuição do governo que deu origem a tudo. Segundo ele, esta foi a última vez que passou pela capital.

Juraci, Paulo e Nilson são, como tantas outras, pessoas que poucos conhecem ou mesmo querem conhecer. E assim eles têm suas histórias varridas para debaixo dos tapetes das cidades. Com os olhos para fora, fazem da rua a serventia da casa.

 

Por Jade Abreu

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

5 thoughts on “Selfie de mendigos: eles não nasceram na rua

  • Lara Monteiro

    (11 de outubro de 2014 - 19:44)

    Nossa!! Q vida triste!! A reportagem foi ótima. Me emocionei

    • Agencia de Noticias Uniceub

      (21 de outubro de 2014 - 16:06)

      Obrigado pela participação, Lara!

  • Heitor Dutra

    (10 de junho de 2015 - 02:57)

    Dia de greve; passa-se pela rodoviária quase vazia e, pôde-se hoje, ironicamente, observar bem mais coisas que o habitual.
    Porém, eu, nunca observei alguém entrevistando o senhor que engraxa os sapatos, e, tão harmoniosamente, ouvindo sua filosofia de vida; sua história.
    Achei estranhamente interessante, pois, normalmente, não se dá muito ouvidos a quem se paga para engraxar os sapatos que vestem nossos pés, e mais; achei belo, já que um engraxate tem tão, ou mais sabedoria, (e histórias), que um “importante” político ou homem de negócios, e mesmo assim não é tão escutado.
    Ou seja: fiquei maravilhado por observar esse momento, e conto com que as pessoas que mais viveram; que mais tem histórias para contar, sejam ouvidas e lidas por mais pessoas.

    E dai me deparo com esse maravilhoso texto, de mesma autora, que traz mais histórias, de mais pessoas que nunca paramos para ouvir.
    E isso, senhorita, é mais belo que muitas rosas vermelhas.

    Espero, ansiosamente, a reportagem do engraxate.
    Prazer conhecer-te, Jade.

    • Agencia de Noticias Uniceub

      (23 de junho de 2015 - 15:47)

      Muito obrigado pelo comentário! Esperamos sempre a sua participação.

      abraços

      Luiz Claudio Ferreira – professor de jornalismo

    • Agencia de Noticias Uniceub

      (19 de setembro de 2015 - 04:48)

      Muito obrigado pelo comentário! Esperamos sempre a sua participação.

      abraços

      Luiz Claudio Ferreira – professor de jornalismo

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