Reinivaldo: o catador no Sol Nascente que sonha em voltar para a Bahia

Localizada a 30 km de Brasília, a segunda maior favela do Brasil, Sol Nascente, reúne, segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, cerca de 56,4 mil habitantes. Perde apenas para a Rocinha, com aproximadamente 69 mil moradores na época. O mais recente levantamento feito pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) em 2013, mostra um crescimento de 40% na população da cidade nestes três anos. Cerca de 22,5 mil pessoas passaram a morar no setor habitacional. Um dos moradores da comunidade, o catador Reinivaldo de Oliveira, 75 anos, veio do município de Jacobina, Bahia, há 15 anos. Antes de chegar no Distrito Federal, à época com 60 anos, trabalhava com motor de sisal, mas depois trocou o serviço pela lavoura. O terreno de um cunhado era local de plantio de alho, tomate, cenoura, mandioca e vários outros cultivos.

“Era muito bom, rapá. Dava pra viver tranquilo, tranquilo. Naquela época [o dinheiro conseguido com as plantações] cobria as despesas todas e todo mês sobrava dinheiro. Não faltava nada, tinha tudo, tudo”.

Segundo ele, a razão pela qual o fez vir ao DF foi a construção de uma barragem próxima à nascente de onde buscava a irrigação para seus cultivos. A terra secou, as plantações morreram e o sonho de viver da vida rural também pôs-se a esmaecer. Todo o verde produzido tomou os tons áridos da despedida.

“Se não tivesse a barragem, eu não tava aqui não. Tava era bem demais, bem mesmo”.

A Reinivaldo, no entanto, não alfabetizado, coube se mobilizar para arranjar um sustento. A realidade passou a ser bastante diferente daquela que vivia na Bahia.

“Cheguei aqui e comecei a trabalhar com alho, descascando e separando eles lá para as bandas de Ceilândia, perto de um mercado. Fiquei lá um ano e oito meses, mas o negócio fechou. Aí vim pra cá [Sol Nascente] e comecei a catar”.

Ele, como muitos outros moradores do local, trouxe consigo a esperança de conseguir algo melhor para manter a vida. Dentro de uma espécie de cortiço, moram ele, a ex-mulher, filhos e netos. Cada qual em uma pequena casa improvisada de alvenaria ainda à mostra.

A moradia de Reinivaldo se resume a um cômodo de aproximadamente 4 metros de largura por 5 de comprimento. Num mesmo espaço, os 20 m² estão divididos entre as funções de cozinha, sala de tv e quarto para dormir. Um fogão com duas panelas matam a fome, uma televisão analógica em cima de uma mesa de ferro mata o tédio e a cama simples com duas cobertas mata o cansaço dos dias exaustivos de coleta.

Do lado de fora, dois tanques fazem as vias de pia e lavadora. O banheiro, também externo, é cercado por madeirites que abrigam o chuveiro e o vaso sanitário, lado a lado.

“O banheiro é ruim, mas tem um chuveirinho que dá pra tomar o banho. A descarga aqui a gente joga água com o balde”.

Do lado de dentro, na televisão, o noticiário policial expõe as principais reportagens do dia até então. São 9h30. O catador lembra que só pôde voltar à cidade natal três vezes após a mudança. A quarta viagem já está planejada e poderá visitar a irmã que ainda tem terreno em Jacobina.

“Ela telefonou pra cá, disse que tá chovendo, disse que as fruta maduro, aí eu vou lá”.

Apesar da saudade, ele afirma que gosta de Sol Nascente. “Oxe, é bom demais aqui. Cada lugar tem sua riqueza”. Mas alerta. “Aqui é muito bom, só o que falta aqui é ter uma pessoa que se interesse pelo lugar. Se tivesse uma pessoa que se interessasse, botasse um asfalto, uma rede de esgoto, uma rua, era bom demais”.

O problema mesmo é quando chove. “Quando chove aqui é uma calamidade. O caba não sai de casa não em tempo de chuva. Trevessá ali não trevessa, pra cá também não trevessa, a água carrega até carro”.

Em algumas ruas da comunidade, há literais crateras no chão de barro, formadas pela correnteza da chuva. A posição geográfica não favorece o escoamento da água para outros lugares. Localizada atrás da maior e mais populosa região administrativa do DF, Ceilândia, Sol Nascente “recebe” a água que cai na cidade vizinha. 

Dos mais fracos pingos caídos na região acima, córregos de água são formados, poças criadas, e cada rua de barro parece manter uma lama insecável. Carros atolam, rodas de bicicleta buscam os canteiros estreitos e rotas de fuga para não sujar a “magrela” e quem a dirige, e os pés dançam escorregadios no intento de manter o corpo erguido e endireitado.

Na rua de Reinivaldo, por exemplo, o asfalto que havia sido construído, com a força da correnteza da chuva, foi levado pedaço por pedaço, restou um trecho estreito, cuja lateral beira um desnível de quase 20 centímetros. Sobre a falta de estrutura, o baiano entende que Sol Nascente “largado”, mas divide a culpa. Para ele, o serviço de fiscalização tem grande relevância.

“Eu não coloco a culpa toda no governo não, eu culpo mais são as pessoas. Todo brasileiro tem a chance de mudar na urna, mas quando chega lá faz é brigar. Briga pra colocar o homi lá em cima, depois o cara esquece”, afirma.

Toda forma de mudança enxergada por ele depende da disposição em trazê-la, inclusive na própria vida.

“O cara que fala mal de Brasília eu digo que ele não presta; não tem coragem pra nada. De tudo que a pessoa quiser inventar, consegue viver aqui em Brasília. Todo negócio que a pessoa pensar, é aqui. Aqui dá”.

Sem medo de colocar a mão na massa, ele faz o que pode para conseguir uma renda extra. Pela aposentadoria, Reinivaldo recebe um salário mínimo por mês há 10 anos.

“Rapaz, não é todo mês [que consegue uma boa renda no trabalho], mas tem uns mês mió, que é mais forte e a gente arruma mais coisa, mas nessa época de chuva não dá pra fazer muita coisa. Mas tem vez, quando o tempo estiado, que acha mais coisa e tá mió, até mais que meu salário eu consigo”.

Mas não costuma tirar tempo para descanso. “Eu trabalho porque eu gosto de trabalhar; se eu ficar quieto eu adoeço”.

A rotina de acordar todos os dias entre as 4 e 5 horas da manhã mantém a disposição do baiano. Levanta, dá uma volta, arruma as coisas para começar o serviço, toma um café e segue pro trabalho.

“Hoje eu já carreguei o carro, já descarreguei e já ensaquei ali o papelão que tinha deixado ontem por conta da chuva. Quando foi agora, já passei pela cidade e os mercados para ver o que conseguia”.

Orgulhoso, Reinivaldo sai à procura da identidade em uma mochila como quem tenta achar um certificado valioso, e comenta: “tem gente que não acredita que eu tenho essa idade, mas eu tenho 75 mesmo. Só sou meio lerdo, não sei ler”.

No entanto, está bem educado no que se refere à gramática da segurança dentro de Sol Nascente. “Eu guardo tudo muito bem, ando com uma chave, e pra todo canto que vou eu levo ela. Se eu vou tomar um banho no banheiro, deixo tudo trancado”.

Dentro da casa, sentado em uma das três cadeiras, ele faz uma reflexão e deixa um ensinamento. “A felicidade depende de muitas coisas… Saúde eu não tenho muita, mas não sou doente demais porque eu trabalho, né”.

“Eu tenho reumatismo no joelho direito, daí tem um tempo que eu fico sem poder andar. Olha aí como ele é”. Um inchaço surge no local indicado conforme o homem puxa a calça para mostrar o problema. “O joelho inchado, mas não doendo. Eu tomo remédio direto e não deixo acabar, não deixo faltar. Se eu parar de tomar ele, eu não ando não”.

O homem não se deixa desanimar por quase nada. Logo oferece o produto de um de seus hobbies favoritos: goiabada. Com uma faca, corta um pedaço generoso do doce.

“Eu compro é meia caixa de goiaba no mercadinho ali em baixo. Daí faço o doce nesse tacho aqui de fora. […] É bom demais. Se eu pudesse, juntava umas quatro pessoa aqui e viveria disso, mas não tenho como registrar pra virar produto. É muita exigência”.

O gosto doce, o aroma suave e a textura “não grudenta”, envaidecem o sorriso de Reinivaldo. É assim que se despede o baiano. Um aperto de mão, um “prazer em te conhecer”. Vira-se e aguarda a próxima saída para o trabalho.

Por Vitor Mendonça

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção