Prevenção ao HIV: hospital-dia atende 5.800 pessoas por mês e distribui 14 mil camisinhas

Especialistas defendem que prevenção e testagem são fundamentais para saúde pública. Foto: Ministério da Saúde / Divulgação

O Distrito Federal conta oito unidades de atendimento para pessoas com vírus HIV e infecções sexualmente transmissíveis (IST). Somente o Hospital-Dia, na Asa Sul (quadra 508/509), recebe cerca de 5.800 pessoas por mês, de acordo com o gerente da unidade de saúde, o bioquímico José Abílio Fagundes. As unidades distribuem medicamentos, preservativos, orientam sobre a transmissão das doenças e contam com médicos infectologistas para atendimento dos pacientes. Em todas as unidades de atendimento para pacientes de IST e Aids, o paciente passa pela triagem de enfermagem e recebe orientação sobre como é transmitida a doença. Pode fazer testes rápidos para HIV (carga viral) e VRL (teste para sífilis), com previsão de resultado no mesmo dia. Se não for um caso grave, é agendada uma primeira consulta. Caso seja necessário, é atendido pelo infectologista. No próximo dia 1º, é lembrado o Dia Mundial contra Aids.

Segundo o gerente da unidade, muitas vezes a pessoa não apresenta sintomas e não desenvolve a Aids. Para que o paciente não desenvolva a Aids, é necessário que ele tome os remédios continuamente. Caso haja descontinuidade na medicação, a carga viral pode ficar elevada e haver a infecção dos linfócitos. Nesse caso, o paciente fará exames para a confirmação da carga viral e o tratamento será iniciado se ele estiver com uma carga viral muito elevada.

O Hospital Dia realiza 12 consultas por turno – matutino e vespertino. Destas, três são para novas consultas. Este centro de referência atende 85% dos pacientes de IST e AIDS. São atendidos 5.800 usuários por mês. “Vem gente de fora de Brasília para pegar medicamento nessa unidade. Elas querem ficar no anonimato. Há uma forte ênfase no sigilo do paciente”, diz o bioquímico Fagundes. “Três doenças tratadas na unidade da 508/509 Sul – Aids, Tuberculose e Hanseníase (também chamada popularmente de lepra), despertam preconceito nas pessoas e, por isso, os pacientes não querem ser conhecidos”, conta o gerente da Unidade.     

O gerente do Hospital Dia, José Abílio Fagundes, explica que unidade é o centro de referência para atendimento no DF. Foto: Claudia Sigilião

“O preservativo é protetor, mas nada é 100%. A eficácia do uso é associada à técnica da colocação, ao momento da retirada e à qualidade do preservativo. É um método de barreira que tem resultado,  por isso é recomendado, esclarece a médica Maria Inês Hernandez Lopez. Segundo a  especialista esclarece, “deveria haver oficinas nas escolas sobre este assunto – os ginecologistas e clínicos deveriam ensinar sobre o  preservativo masculino e feminino.”

Testagem e aconselhamento

O causador da Aids é o HIV – sigla em inglês para o vírus da imunodeficiência humana. Ele ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+. O DNA dessa célula é alterado e o HIV faz cópias de si mesmo. Depois que o vírus se multiplica, ele rompe os linfócitos para que a infecção continue a se proliferar no organismo.

O Núcleo de Testagem e Aconselhamento é uma unidade subordinada ao Hospital Dia, localizado no mezanino da Rodoviária do Plano Piloto e realiza testes laboratoriais de  hepatite B, hepatite C, sífilis e HIV. Nesta unidade, o usuário também é orientado sobre as formas de se precaver da IST e IST/AIDS. Caso os exames sejam positivos, a pessoa é encaminhada ao Hospital Dia para tratamento. Pessoas com dúvidas ou encaminhadas por outras unidades também recebem atendimento.

A rigor, todas as unidades de saúde fazem o primeiro atendimento e o teste rápido para HIV. “Na prática, o teste rápido não tem sido realizado em todas as unidades”, de acordo com o farmacêutico José Abílio Fagundes.

O Ministério da Saúde publicou um protocolo no qual lançou campanha de prevenção e promoveu a   incorporação do medicamento  do HIV no Sistema Único de Saúde (SUS) a partir do dia 29 de Maio de 2017 para a PrEP (Profilaxia Pré-exposição). A implantação no SUS será em até 180 dias a partir desta data para as populações indicadas. O medicamento é de uso contínuo. “Não basta tomar os medicamentos. É necessário seguir a orientação e fazer o acompanhamento médico”, alerta José Abílio Fagundes.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda desde 2012 a oferta do remédio  para o grupo da pré-exposição em casais soro divergentes (um cônjuge é soropositivo, o outro não), gays; homens que fazem sexo com homens; profissionais do sexo e pessoas transgêneros (travestis e transexuais), consideradas populações-chaves. O investimento do Ministério da Saúde será de U$ 1,9 milhão na aquisição de 2,5 milhões de comprimidos. O cálculo foi feito para que  essa medicação atenda a demanda por aproximadamente um ano.

“A infecção pode se dar pela transmissão vertical (de mãe para filho), pelo compartilhamento de seringa, por acidente com alto risco biológico (sangue contaminado) e pelo sexo desprotegido”, esclarece a especialista em HIV/Aids Maria Inês Lopez.

A PEP (Profilaxia Pós-exposição) prevê o primeiro atendimento após exposição ao HIV. É  considerada uma emergência médica. Se a pessoa desse grupo se encontra em situação de risco (pessoa que sofreu violência sexual, que teve relação sexual desprotegida ou que teve acidente ocupacional com instrumentos perfurocortantes ou em contato direto com material biológico) , deve procurar a unidade para tomar os antirretrovirais. Ela vai tomar um comprimido por dia durante 30 dias para não desenvolver a doença.

Público

A população abaixo de 20 anos e acima de 50 anos é a que é mais acometida com HIV. “As pessoas estão mais displicentes em relação às doenças como sífilis, gonorréia. A AIDS diminuiu, o HIV não. As pessoas têm vida saudável, mas se tiver acompanhamento médico para tratar dos efeitos colaterais que aparecem com o tratamento, como transtornos hepáticos, renais e problemas psicológicos ”, afirma Fagundes.

A pesquisa é incessante. Não pára tanto no conhecimento do ciclo biológico do vírus quanto na busca de medicação para erradicar o vírus. “A questão é o alto poder replicativo desse vírus. Ele entra no corpo, se acopla ao genoma do hospedeiro e fica adormecido. A medicação não tem acesso ao vírus. A qualquer momento ele pode replicar e voltar”, explica a médica Maria Inês Lopez.

O Ministério da Saúde faz a distribuição conforme as informações que são prestadas mensalmente pelas Unidades. No Hospital Dia, são distribuídos 14 mil preservativos masculinos, 300 preservativos femininos e 2 mil géis lubrificantes, que funciona como um agente de prevenção.

“O HIV está relacionado a uma interface que é extremamente trabalhada na sociedade – que é a sexualidade. Esta, caminha independente da educação e da religião. Se você não abordar de frente os tipos de sexualidade e comportamentos como bissexualidade, infidelidade e múltiplos parceiros, não vai adiantar. A educação é a chave. O exame de HIV deveria ser rotina, salienta a médica Maria Inês.

O Conselho federal de Medicina publicou uma recomendação no dia 15 de março do ano passado na qual orienta os médicos a que peçam testes de HIV, sífilis e hepatites B e C nas consultas comuns. A ideia é derrubar o tabu sobre o tema e antecipar o diagnóstico dessas infecções. O paciente não é obrigado a aceitar o procedimento e os médicos não são obrigados a pedirem sempre os exames, mas o Conselho espera a adesão dos médicos nessa recomendação.

Nova denominação: de doença para infecção

O Ministério da Saúde atualizou a estrutura regimental por meio do Decreto nº 8.901/2016 publicado no Diário Oficial da União em 11 de Novembro de 2016, Seção 01, páginas 03 a 17. Por causa dessa modificação, o Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/AIDS e das Hepatites Virais passa a usar a nomenclatura IST (infecções sexualmente transmissíveis) no lugar de DST (doenças sexualmente transmissíveis). A explicação para isso é que “D” vem de doença, que implica em sintomas e sinais visíveis no organismo do indivíduo, enquanto que “I” de infecção pressupõe períodos assintomáticos de sífilis, herpes genital, condiloma, dentre outras doenças. Pode acontecer do paciente se manter assintomático durante toda a vida. Por isso, o termo IST é considerado mais adequado.

Por Claudia Sigilião

Supervisão: Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção