Olhar estrangeiro: refugiados que fizeram de Brasília a nova casa

Os idiomas são diferentes, os sotaques ainda se arrastam, mas a esperança de recomeçar na expectativa de novas oportunidades fez com que eles mudassem o endereço a milhares de quilômetros. A professora Aisha*, 35 anos, refugiada política sudanesa, veio para o Brasil sozinha, em setembro de 2015. Desde 1956, o país de origem enfrenta uma guerra civil envolvendo o governo muçulmano e guerrilheiros cristãos.

 

Haitiano criou um curso de idioma no Areal, em Águas Claras

Já o haitiano Jean Fenel Auguste, 36 anos, fez amizades que o incentivaram a desembarcar em terras brasileiras e também deixar o país na América Central que passa há décadas por profunda crise econômica. O intérprete de português, inglês e francês em Missão de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU) chegou ao Brasil há oito anos e veio em busca de novas oportunidades e desafios. Jean conquistou boas experiências no novo país. Graduado nos cursos de rede de computadores e jornalismo, fundou uma escola de línguas, no Areal, na região administrativa de Águas Claras, onde é professor de inglês e francês.

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Também em fuga de crise econômica,  o venezuelano Luís Pariche, 32, residente no Riacho Fundo II (DF) veio para o Brasil em 2016, por motivos bem diferentes dos de Auguste. A crise política e econômica que assola o país natal, motivou o professor de matemática a cruzar a fronteira. “Cheguei aqui sem muitas expectativas. Decidi vir apenas 10 dias antes da viagem. Eu precisava ajudar minha família”.

Venezuelano havia pensado que ficaria apenas 10 dias

 

Pelo menos 60% dos estrangeiros consideram ruim a estrutura de deslocamento. Sobre os serviços de saúde, o Brasil aparece em 61º lugar. Apenas 35% não consideram elevados os custos com saúde e 36% estão descontentes com a qualidade.

 

“Custo está alto” e há excessiva “burocracia”

 

A incerteza do atual cenário político é ressaltada, apenas 16% dos imigrantes, consultados pela pesquisa da Expat Insider, consideram que há estabilidade política no Brasil, em escala mundial esse item alcançou 61%.

O venezuelano Luís Pariche pontuou que existem aspectos a aperfeiçoar. “A educação pode melhorar e não deviam dar tanta libertinagem às pessoas. O salário mínimo também deveria aumentar, pois o custo de vida aqui está muito alto”.

A sudanesa procura se informar sobre os últimos acontecimentos do lugar de onde veio, principalmente pela internet. Com relação ao governo brasileiro, Aisha se queixa da burocracia e observa que as pessoas não têm muito conhecimento sobre a política do próprio país.

“Pior do que no Sudão”

Mesmo com a prosperidade na graduação e nos empreendimentos, o haitiano considera que a crise política e econômica do Brasil torna o mercado de trabalho cada vez menos propício aos imigrantes, principalmente os vindos de países subdesenvolvidos. “Muito disso se deve ao preconceito que sofremos. Acredito que o emprego deve estar de acordo com a capacidade e qualificação da pessoa e não com a nacionalidade”, comentou Jean Fenel Auguste.

A sudanesa Aisha reafirma que existe muito preconceito contra estrangeiros. Ela  comenta que a discriminação é pior no Brasil do que no Sudão. “Desde cedo, desenvolvi autoconfiança e aprendi a lidar bem com isso”, rebate.

O especialista da FGV destacou que imigrantes da áfrica, síria, venezuelanos e haiti tem muito mais casos de xenofobia. “O discurso é de que “vão roubar” nossos empregos” e isso é um problema em potencial, relativamente grande, se pegar o experimento social do que aconteceu em Roraima, com os venezuelanos”. O especialista explica que nesta situação, além dos problemas naturais do choque cultural, a ação governamental não foi tão rápida.

O venezuelano Luís conta que a principal dificuldade que enfrenta é o idioma, mas considera o acolhimento no novo país um ponto positivo. “Eu aprendi a gostar muito do Brasil, as pessoas que conheço desde que cheguei aqui são muito boas”, comentou.

 

“Falam muito mal daqui”

 

Para ele, o Brasil tem condições de ser melhor, mas os brasileiros não têm boas expectativas. “O brasileiro lança muitas maldições para o país, falam como se não vivessem aqui: ‘o Brasil não presta’, ‘este é o Brasil’. Para mim, o país é tão bonito e, mesmo assim, algumas pessoas daqui falam muito mal dele”, afirmou.  

 

Já o haitiano Jean Auguste não sentiu dificuldades em se adaptar ao novo idioma e se considera um autodidata. “Quando cheguei ao Brasil, eu sabia o básico do português, pois na ONU tinha contato com muitos brasileiros. Li alguns livros de gramática e aprendi assim.” A diversidade da cultura brasileira e alguns estilos musicais fazem o gosto do haitiano. “Apesar de estar adaptado ao Brasil, sinto saudade da minha família, mantenho contato com parentes via internet”, contou.

 

Aisha se interessa pela enorme diferença entre a cultura do Sudão e a brasileira e, também, elogia o jeito brasileiro de ser. “Vocês são um povo muito feliz, eu admiro isso”, comenta.

Por Carolina Morais e Natália Ferreira

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção