Olhar estrangeiro: eles vieram de países desenvolvidos para Brasília

Assista à entrevista com professor alemão Michael Donath

 

À procura de realizar mestrado e doutorado em outro país, o linguista Thomas Petit, 33 anos, veio para o Brasil e se encontrou na nova terra. O graduado da Universidade de Poitiers, que fica na cidade com o mesmo nome na França (a 342 km de Paris), desembarcou no país e permaneceu por mais de seis anos. Ele voltou para a terra natal no ano passado, mas ainda guarda com felicidade as recordações nos tempos de Brasília. Ele morava na Asa Norte (zona nobre da capital). No Brasil estudou, ministrou aulas e construiu uma “família” ao se referir às  novas amizades. Sobre a nação que conheceu, ele ainda chama de lar.  “O Brasil é meu país e sempre será. É muita sorte se sentir em casa a 8 mil quilômetros de distância de onde a gente nasceu e cresceu”, enfatiza.

Morar tão longe do oeste europeu proporcionou experiências marcantes para Thomas. O linguista conta que se sentiu bem entre os brasileiros e que na Universidade de Brasília, onde estudou, tinha liberdade para se expressar. “O meio acadêmico para fazer doutorado na França é muito mais rígido”. Filho de operário, o francês disse que é grato pelas oportunidades proporcionadas pelo sistema educacional do país natal. Ele entende que a França preserva as garantias sociais para estudar fora. “A minha área (letras e linguística) é bem orientada para esse tipo de experiência”. 

Segundo a Organização Internacional para Migrações (OIM), em cinco anos (entre 2010 e 2015), o número de imigrantes que vivem no Brasil cresceu cerca de 20%. Atualmente, são mais de 713 mil pessoas de outras nacionalidades que escolheram o país como destino para tentar a vida. Mas os estrangeiros são apenas 1% da população brasileira total e, segundo o economista e pesquisador Wagner Oliveira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), esse número ainda é pequeno. “O Brasil é um país que mais emigra do que imigra, ou seja, tem mais pessoas que saem do que entram”, confirma. 

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“Ninho de coisas boas”

Quando estava no país, Thomas sempre contestava os brasileiros, que para ele, não acreditam muito no potencial que têm. Hoje, ele enxerga que muito talento é desperdiçado e lamenta que a falta de incentivo governamental é um dos influenciadores nesse fator. “O Brasil é um ninho de coisas boas e precisa ser valorizado pelos próprios brasileiros. O que eu vi nesse país eu não encontrei em nenhum lugar: uma concentração de talentos, criatividade e curiosidade”, testemunha o francês.

O funcionário público Wang Ying Ts, de 48 anos, nasceu no Taiwan (país que vive ritmo de prosperidade) e não pensa em voltar para o país de origem. Wang mora em Brasília desde que a família dele chegou ao Brasil em 1975, quando tinha apenas 4 anos. Ele conta que a vinda ao Brasil teve como motivo o temor de uma invasão dos chineses à ilha em que vivia. O problema é que a família de Wang chegou ao país no auge da ditadura militar. “Após a Segunda Guerra Mundial, houve a Revolução Comunista de Mao Tse Tung, e com a possibilidade de Taiwan ser invadida pela República Popular da China, minha família decidiu emigrar, vindo para o Brasil,” relembra Wang. 

O imigrante taiwanês afirma que as diferenças culturais são marcantes entre os dois países e cita um dos principais problemas estruturais da sociedade brasileira. “Lá em Taiwan, não há tanto essa mentalidade de ‘levar vantagem em tudo’, o senso de coletividade é mais forte; e a ocorrência de crimes e contravenções é bem menor”, afirma Wang.

Estudante de gestão de políticas públicas pela Universidade de Brasília, ele ainda comenta sobre o que mais sente saudade do seu país de origem, mas afirma que já se sente um brasileiro devido ao longo tempo que está estabelecido no maior país da América do Sul. “Hoje em dia, sinto que o meu país é o Brasil. O Taiwan de quando saí é completamente diferente atualmente”, complementa Wang Ying.

Família no Brasil 

Para o pesquisador da FGV, Wagner Oliveira, há uma variação de casos de quem vem para ficar ou não no país. Segundo ele, atualmente há mais limitantes do que atrativos para vir e permanecer, como a validação de diplomas, já que em grande parte do Brasil há autonomia universitária. Porém, Wagner enfatiza que um dos maiores motivos que fazem estrangeiros ficarem no país é a constituição de família. 

Lorenzo*, 42 anos, nasceu no sul da Itália, na cidade histórica de Brindisi, e vive há nove anos no Brasil. “Conheci minha atual esposa na Itália, quando ela estudava lá. Depois decidimos vir morar no Brasil e fui muito bem recepcionado pela família dela”, comentou. Segundo o italiano, quando chegou no país, não sofreu muitas diferenças culturais por ter vivido um período em Milão, cidade italiana que recebe pessoas do mundo inteiro. “Lá tive contato com outras culturas e isso ajudou na adaptação no Brasil”. Para ele, a miscigenação brasileira e a grande presença de italianos e pessoas de origem italiana no território também ajudaram nesse processo. 

O italiano é profissional de tecnologia da informação e já morou em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro para trabalhar em sua área. Lorenzo veio para o país transferido por uma empresa de consultoria internacional na área de tecnologia e atualmente vive e trabalha em Goiânia (GO). Com dupla nacionalidade, o imigrante diz que não se sente mais um estranho em um lugar tão longe de onde nasceu. Para ele, é possível se sentir bem independente de onde esteja e isso é uma adaptação interna e pessoal. “O lar independe do país de origem, lar é estar bem onde mora e estar integrado no território. Não me enxergo mais como estrangeiro no país, mas como brasileiro”.

Assim como Lorenzo, o professor alemão Michael Donath, 37 anos, conheceu uma brasileira no país de origem, casou-se e veio para o Brasil. Ele contou não ter muitas expectativas e planos antes de chegar e que o país latino-americano era um ‘pedaço em branco em seu mapa pessoal’. “Eu sabia que Brasil existia, mas eu não tinha nenhuma noção ou interesse no país”, relatou. Michael é professor de língua alemã, está no país há 14 anos e vive em Brasília com a família. Sobre a vida na América Latina, o alemão enfatizou que foi questionado por algumas pessoas o porquê saiu do país de origem. “A maioria das pessoas me falam que na verdade queriam sair do Brasil e ir para a Europa. Mas eu acho que assim como é possível ter uma boa vida lá, também posso ter uma boa vida aqui”. 

*Nome alterado para preservar entrevistado

Por  Gabriel Spies e Thais Batista

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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