Conscientização do autismo: como artes marciais são usadas no tratamento de crianças

No Centro Olímpico de Samambaia, a 30 km do centro de Brasília, Isaac, de 9 anos, está matriculado em “luta”, frequenta as aulas de karatê duas vezes por semana, às terças e às quintas. As limitações diárias e o conjunto de tratamentos (incluindo fonoaudiólogo e terapia) fazem com que o dia dele seja bastante ocupado. Mesmo assim, o sonho dele é “ser um samurai”. Diagnosticado com autismo, o garoto frequenta as aulas do Centro Olímpico e Paralímpico de Samambaia há 4 anos. “Quando a gente começa (a lutar), a gente faz ‘Oss’ (cumprimento entre os lutadores na entrada ou saída do tatame)”, explica Isaac, que já está vestindo o quimono branco. Ele tem bochechas fofas, semblante calmo e, além do traje, usa touca azul. O espaço esportivo de Samambaia é um dos 12 Centros Olímpicos e Paralímpicos que funcionam para assegurar o atendimento socioeducativo por meio da prática esportiva. Em conjunto, atendem gratuitamente 189 alunos com autismo. Quatro deles praticam lutas marciais, segundo a Secretaria de Esportes do DF.

A professora dele, Vêronica da Silva Oliveira, 43, conta que é muito especial estar com a turma do Centro Olímpico. “Pelos obstáculos e contexto que eles vivem. Têm uma dificuldade de relacionamento e socialização geral”. “O Isaac tem muita vontade e isso ajuda muito. Ele tem dificuldades com coordenação motora e dispersão, mas estou sempre chamando atenção ‘olha o pé’, ‘olha a mão'”, explica.

Além dos cuidados durante a aula, a professora demonstra respeito pelo humor de cada dia da criança. “Tem dias que ele está mais colaborativo, outros menos. Tem dias em que ele não quer nada com nada, mas mesmo assim ele faz (a aula). Depende muito do dia. Cabe a gente identificar esses comportamentos e levar porque não adianta cobrar demais”, explica.

Aprendizados

Não é só Isaac que está aprendendo com as aulas. “Ele é o meu primeiro aluno com autismo (…)Me ensina muito e ensina a turma porque eles (os colegas) precisam ter uma paciência e ritmo diferente. Treinamos em dupla e os colegas tem que entender as dificuldade. O interessante é que são todos mega colaborativos”, explica. “Aqui o limite é sempre respeitado”. Verônica, com os pés descalços, completa o raciocínio. “O professor que não se coloca na posição de aprendiz com seus alunos, está fadado a não dar mais aula, chega um tempo e ele fica limitado”.

De acordo com a mãe de Isaac, Antônia Eliana Alves, 37, o karatê ajudou o garoto a desenvolver o equilíbrio e até a paciência. “Ele não sabia esperar a vez dele, queria sempre ser o primeiro”. “Aqui ajudou bastante ele, foi onde fez ele interagir e melhorar a coordenação motora. Faz muito bem para ele. Nos grupos sempre recomendo o Centro Olímpico para os pais (de autistas)”, explica.

A mãe, que se mostra muito empenhada com o desenvolvimento do filho, dedica maior parte do dia a dia à saúde e tratamentos do mini samurai: “só cuido dele”. Ela espera a aula de luta acabar sentada na arquibancada, sorridente. “Ele interage mais aqui na vila olímpica do que na escola, lá ele costuma ficar sozinho no intervalo. Os meninos aqui sabem que ele é autista e até auxiliam ele”. Um dos motivos para tamanha aceitação e respeito dos colegas são as atividades transversais (temas voltados para a compreensão e construção das realidades sociais), trabalhados nos centros.

“Todos os meses nos é enviado um tema transversal, no qual a gente desenvolve. Fala sobre drogas, bullying, acessibilidade”, explica a Coordenadora da área de pessoas especiais do Gama, Jackeline Martins, 49. “Em setembro tivemos a Semana Paralímpica, com sete dias de atividades sobre deficiências. O aluno ‘regular’ vivenciou a dificuldade das pessoas com deficiência, ele faz esportes na cadeira de rodas, com vendas nos olhos. Eles nadam com olhos fechados, praticaram futebol com bola de guizo, a que direciona o deficiente visual, vôlei sentado, corrida com guia, igual no atletismo”, acrescenta.

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Saiba mais sobre tratamentos

Apesar de todas as melhoras, os Centros Olímpicos não conseguem atender a grande demanda de crianças com deficiência de imediato. O gerente pedagógico da unidade de Samambaia, Humberto Morais, 37, explica que, um dos motivos para isso é a pouca quantidade de professores no núcleo de pessoas com deficiência. “A gente tem só dois professores para o núcleo”. “Normalmente atendemos todos, a grande dificuldade são os autistas, por conta das especificidades. Em alguns horários atendemos só um aluno”, relata.

Os alunos com autismo, após a triagem e matrícula, fazem até dois anos de aula individual, tempo que é voltado para o desenvolvimento global e motor. Conforme evoluem, os professores passam a levá-los para aulas coletivas e, aos poucos, eles ficam por lá.  A partir dessa inclusão, novas vagas surgem para aqueles que estavam na lista de espera. “Para matricular um novo aluno, precisamos que ou um autista tenha autonomia, ou desistência, que não é o que a gente quer”, Humberto explica.

“A procura ficou muito grande”, relata o coordenador do núcleo de pessoas com deficiência de Samambaia, Heider Tavares, 27. Ele começou a carreira no centro como estagiário, hoje, acompanha as aulas e conta que as crianças tendem a ficar por no máximo meia hora no início do processo de inclusão, com o tempo, ficam até o fim. Por meio do esporte ele percebe que muitas crianças descobrem diferenças. “quando chegam não tem concentração, com o decorrer a gente consegue fazer testes em turmas”

De acordo com a Secretaria de Esportes, o programa é focado nas crianças e adolescentes, mas as unidades também oferecem atividades para adultos e idosos. Para participar “os interessados devem procurar a coordenação de pessoas com deficiência no Centro Olímpico e Paralímpico de seu interesse, no qual será agendada uma avaliação funcional e solicitada a documentação de acordo com a deficiência”.

  1. Brazlândia – Bairro Vila São José, Quadra 35, AE 22
  2. Ceilândia (Parque da Vaquejada) – QNP 21, P Norte
  3. Ceilândia (Setor O) – QNO 9, Conjunto 1, Lote 1
  4. Estrutural – Área Especial 2 – Setor Norte
  5. Gama – Área Especial, Setor Central (ao lado do Estádio Bezerrão)
  6. Planaltina – Área Especial, Setor Administrativo, Módulo Esportivo (ao lado do restaurante comunitário)
  7. Recanto das Emas – EQ 400/600
  8. Riacho Fundo I – QS 16, lote F
  9. Samambaia – QS 119, Área Especial, Samambaia Sul
  10. Santa Maria – Quadra Central 3, AE 4
  11. São Sebastião – Quadra 2, Bairro São Bartolomeu
  12. Sobradinho – Quadra 2, Setor Esportivo, Área Especial

A força do jiu jitsu: confiança e o ideal de um mestre 

Com os fios do cabelo encaracolado, pele e olhos claros, semblante alegre de criança, Henrique, de 6 anos, entra na sala com “bom dia” para todos. Ele corre para lá e para cá. Em pouco tempo se mostra confortável com o tatame, como quem brinca no tapete de casa. Os pés descalços e a roupa de luta lhe caem bem. Quem o vê assim não imagina que a partir de um ano e oito meses de vida passou por um trauma que desencadeou num temperamento mais introspectivo e olhar cabisbaixo. Ele luta, brinca, vive o jiu jitsu, uma prática que nesse caso gerou autoconfiança. Henrique é uma das crianças com características autistas que, por meio da luta marcial, está encontrando um caminho diferente para inclusão.

No caso do garoto, passou a treinar com um professor que trabalha essencialmente com crianças que apresentam esse tipo de “problema”. O mestre, Fabbio Façanha, fez da prática uma rotina especial de servir o próximo. Ele lida com histórias como essa de Henrique, que apresentou desenvolvimento normal, até o internamento do pai, que teve pneumonia. Acostumado com o convívio cotidiano, a criança sentiu “na pele” a falta daquela figura, segundo a mãe, Marta Rodrigues, de 38 anos. “Como a gente trabalha em casa, temos marcenaria, ele sentiu muito. Parou de falar. Antes, cantava 20 músicas, “Asa Branca” (Luiz Gonzaga), outras do Jorge Ben Jor Não eram músicas infantis… e ele não queria

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Por Giovana Marques (texto e fotos)

Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção