“Me questiono se não sou ouvida por ser mulher”, diz profissional de TI

por Catarina Angelini 

O espaço da mulher no mercado de trabalho tem crescido. Entretanto, ainda é muito escasso na área da computação. O programa YouthSpark, da Microsoft, divulgou que apenas no Brasil 18% dos graduados em ciência da computação e 25% dos empregados em áreas técnicas de tecnologia da informação (TI) são do sexo feminino. Em companhias como Facebook, Google, Twitter e Apple, as mulheres representam apenas 30% dos funcionários. O número está em crescimento, mas ainda aquém de gerar equilíbrio entre homens e mulheres

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a evolução no mercado de TI prevê um crescimento de 3% até 2022, porém o Brasil pode chegar em 2020 com um déficit de mão de obra qualificada em TI de 408 mil profissionais, de acordo com a Associação para a Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex).

A desenvolvedora de softwares Daniella Angelos comenta que as mulheres ainda são minoria nas empresas de tecnologia. “Infelizmente, em todas as minhas experiências profissionais, eu fui a única mulher desenvolvedora e nunca vi essa proporção ultrapassar os 30%. Inclusive, há alguns projetos para integração de mulheres na área”, comenta Daniella. 

A profissional ressalta a iniciativa de uma professora da Universidade de Brasília (UnB), Aletéia Araújo, em parceria com outras professoras, chamado Meninas.comp. O projeto conta com garotas do Ensino Médio que estudam em 11 escolas do Distrito Federal e recebem aulas sobre computação semanalmente. “Nelas, as estudantes aprendem robótica, desenvolvimento para aplicativo de celular e programação. Com essas atividades, as meninas se sentem mais acolhidas e recebidas no mundo da tecnologia.”

 

Daniella Angelos em palestra

 

Daniella Angelos explica que já duvidou de si mesma no ambiente de trabalho. “Na empresa em que trabalho, sempre me convidam para palestrar e ministrar workshops. Mas, mesmo em uma empresa mais moderna, diversas vezes me pego questionando se minhas sugestões em alguma reunião ou a algum colega não são ouvidas porque sou mulher.”

Universidades no DF têm uma incidência de apenas 10% de alunas mulheres em cursos de computação, fazendo com que o pequeno número reflita no mercado de trabalho. A professora Aletéia Araújo ressalta que a falta de mulheres empregadas impacta o mercado de forma negativa. Elas são consumidoras de consumir tecnologia, mas não estão produzindo a tecnologia que elas consomem.”

Mercado em ascensão

Apesar de ainda ser minoria, o número de mulheres na área de computação tem crescido. “É um mercado que nunca será morto. Vivemos a tecnologia, sendo uma linguagem universal e bem aceita em qualquer lugar”, afirma a cientista da computação Sâmila Cunha. Ela percebe que há uma maior procura feminina na área de tecnologia devido à ascensão no mercado.

Atualmente, Sâmila trabalha com gestão de negócios e reflete sobre as dificuldades enfrentadas na área profissional. “Já me senti desafiada por não acreditarem que uma mulher executaria um trabalho tão bem igual a um homem. E claramente esse posicionamento inicial do preconceito foi tomado por uma pessoa do sexo masculino.”

 

Sâmila Cunha entre colegas de trabalho

 

A estudante Marília Malachias percebe que há uma maior abertura para mulheres no âmbito profissional da comutação e relembra como foi o seu processo de contratação. “No edital da vaga havia falas sobre o encorajamento de mulheres, negros, LGBTs. Assim, eu me senti incentivada para me inscrever no processo seletivo”.

Marília acrescenta sobre a falta de apoio da sociedade: “Já ouvi alguns comentários ruins de pessoas que eu convivo na própria UnB e coisas aleatórias de pessoas que eu não conheço, mas eu não vejo como um desestímulo, eu vejo que isso me motiva”.

Escute o áudio de Marília sobre o relatado:

 

Preconceito e assédio 

“Você tem que estar sempre se provando, tanto para o mercado quanto para os seus professores”, comenta Nayara Rossi, estudante de ciência da computação e estagiária na área. A jovem diz não sentir segurança para sugerir ideias para pessoas desconhecidas devido à pressão. “Se eu chego numa sala e meus amigos não estão, eu não tenho coragem de tirar dúvidas, de mostrar o que eu fiz ou até mesmo de sugerir uma mudança. Isso porque você sinto como se pessoas estivessem esperando que você errasse pra dizer que você não pertence àquele lugar.”

Além de preconceito, mulheres afirmam já ter sofrido assédio. “Durante a faculdade éramos poucas mulheres fazendo com que o assédio fosse grande. Assim, também era nos trabalhos, eu sempre recebida ao primeiro momento com grande preconceito”, relembra Sâmila com base em suas experiências.

 

 

Projetos como o https://www.programaria.org/ estão em ascensão com enfoque em contribuir para que mais meninas e mulheres sintam-se motivadas e confiantes a explorar os campos da tecnologia, da programação e do empreendedorismo, incentivar o debate sobre a falta de mulheres nesses campos e promover oportunidades e ferramentas para que elas deem os primeiros passos na aprendizagem da programação.

De acordo com dados da ONU estima-se que 90% dos empregos do futuro exigirão alguma forma de habilidade em tecnologias e dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) apontam que menos de um terço das estudantes do sexo feminino do mundo escolhe assuntos relacionados à ciência, à tecnologia, à engenharia e à matemática no ensino superior, enquanto apenas um terço escolhe assuntos ligados às novas tecnologias. No entanto, relatório recente do Fórum Econômico Mundial mostra que apenas 22% dos profissionais de inteligência artificial em todo o mundo são mulheres.

 

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção