Jornalista revela cangaço sob olhar feminino

Jornalista Adriana Negreiros é autora da obra

A história do cangaço no Nordeste brasileiro tem várias versões. Há quem acredite que Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, e o seu bando foram os heróis do sertão entre os anos 1912 e 1940. Há quem denomine de bandidos os cabras e as moças que pela seca nordestina perambulavam. Após 79 anos que Maria Bonita e Lampião morreram na Grota de Angicos, em Sergipe em um tiroteio com os “macacos” – forma como a polícia era chamada na época – a história ainda pode despertar curiosidade, admiração, repúdio, entre outros sentimentos, e virar até objeto de estudos.

A jornalista Adriana Negreiros , autora do livro “Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço” (2018), pesquisou e escreveu uma versão dessa história pela visão feminista em um livro reportagem. De acordo com ela, em entrevista à Agência de Notícias do UniCEUB, o fascínio pela narrativa dos cangaceiros despertou o interesse em escrever um livro sobre o aspecto de um ângulo novo e foi assim que  Maria Bonita se tornou protagonista da história que por outros autores, era relatada apenas pela perspectiva masculina.

Ao escutar as memórias da  esposa do Rei do Cangaço, que o acompanhava na vida de bandoleiro, é comum que as referências a ela sejam feitas como uma mulher autoritária ou a Rainha do Cangaço. Mas, a história de Maria de Déia, desfaz a ideia de que no Cangaço as mulheres tinham a mesma autonomia masculina.

Maria Bonita morreu com 28 anos de idade. Foto: Wikipedia


Após abandonar a infelicidade em um casamento com Zé Neném, em uma época em que as mulheres eram obrigadas a aceitarem o desrespeito e a infidelidade nos lares, Maria Bonita seguiu caminho com Lampião, passou fome, frio, correu perigo nas guerrilhas, foi perseguida pela polícia,  e precisou abandonar os filhos ainda recém nascidos nas casas de famílias de confiança para seguir as trilhas nordestinas. Mas, jamais imaginou que um dia se tornaria um ícone popular.

Diferente de Maria Bonita, outras mulheres foram obrigadas a seguir esse caminho, sofrendo abusos sexuais e sendo desrespeitadas em seus direitos fundamentais. Os homens do bando de Lampião chegaram a tirar crianças de apenas 11 anos de idade  de dentro de casa para obrigar a seguir os caminhos do Cangaço. Foi o que aconteceu com Dadá, esposa de Corisco, vulgo Diabo Louro, que foi retirada de casa a força e brutalmente abusada sexualmente por ele até seus órgãos genitais ficarem feridos.

Sila, Nenê, Maria Jovina e Inacinha, também foram algumas das mulheres que sofreram os abusos masculinos do momento. A última cangaceira a falecer, Sila, chegou a contar em entrevistas que quando foi escolhida por Zé Sereno, para seguir as diretrizes do Cangaço sofria com o medo do futuro no Cangaço e pensou até em fugir para escapar do sofrimento. Mas sem alternativas precisou amadurecer mais cedo e perambular pelo Nordeste com os bandoleiros. Já outras moças foram assassinadas pelos companheiros por desconfiança de adultério, uma delas foi morta nua e apedrejada.

O cabelo curto era proibido para as moças, se o cangaceiro José  Baiano encontrasse uma mulher com a aparência das madeixas que ele repudiava, o ferro com as suas iniciais era esquentado e o rosto, as nádegas ou a virilha da mulher ficava marcado com a queimadura. A  história que se passa em Sergipe, Pernambuco e na Bahia, também mostra como a região Nordeste era abandonada pelo poder público. A polícia e os militares da época se alinharam ao jogo dos cangaceiros e colaboraram com o cenário de crueldade da fase.  Confira entrevista com a autora do livro

O que te levou a escrever o livro sobre o assunto do Cangaço e pela visão feminina?

Sou nordestina e, como tal, sempre tive muito interesse pelas chamadas histórias de cangaceiros. Cresci ouvindo minha avó materna contar o episódio em que Lampião tentou invadir a cidade de Mossoró (onde ela vivia), sendo escorraçado de lá, junto com seu bando. Quando decidi escrever um livro, pensei que seria uma boa debruçar-me sobre um tema que tanto me fascinava (e sobre o qual eu ainda não tivera oportunidade de escrever). Mas era preciso encontrar um ângulo novo, e foi como surgiu Maria Bonita – de forma geral, as histórias são narradas sob a perspectiva masculina. Optei, então, até como uma postura política e feminista, contar como foi o cangaço a partir do ponto de vista das mulheres.

Como foi o processo de produção? A pesquisa demorou quanto tempo? Foi com recursos próprios?

Em um primeiro momento, li todos, ou quase todos, os livros que já foram escritos sobre o tema. Depois, parti para as pesquisas em jornais, revistas, gravações em áudio e vídeo, documentários e qualquer outra fonte que pudesse me fornecer pistas sobre a participação das mulheres no cangaço (como elas foram silenciadas e negligenciadas, não foi fácil encontrar informações a respeito do assunto). Simultaneamente a essas duas fases fiz entrevistas com memorialistas e pesquisadores e viajei para os locais retratados no livro. Ao todo, foram três anos de trabalho. No que se refere aos recursos, recebi um adiantamento de direitos autorais e uma verba para pesquisa da Editora Objetiva.

Qual era a sua visão de antes sobre as mulheres do Cangaço?

Era uma visão próxima do retrato romanceado que se produziu das mulheres – que elas eram bravas combatentes e até um pouco feministas. Com a pesquisa, essa imagem ruiu.

De que forma escrever esse livro mudou a sua vida?
Antes de publicar o livro, eu estava bastante preocupada quanto aos rumos da minha vida profissional. Fiz quase toda a minha carreira na Editora Abril, trabalhando em revistas, e naquele momento o mercado já dava sinais eloquentes de colapso. Numa idade em que meus colegas de outras profissões estavam no auge de suas carreiras, eu estava completamente perdida. Para o bem e para o mal, sou uma repórter bastante entusiasmada com o ofício – e não conseguia me imaginar fazendo qualquer outra coisa da vida que não apurar, escrever e publicar histórias. A minha impressão era a de que, com a crise, eu nunca mais teria condições de fazer isso. No auge do tormento, eu me arrependia de ter feito faculdade de jornalismo. Imaginava que tudo teria sido mais fácil se eu tivesse estudado Ciências Sociais, Direito ou Psicologia. A Maria Bonita me mostrou que, sim, eu poderia continuar sendo repórter, apesar de tudo, e de um jeito ainda melhor – com tempo para apurar a história, escrever do meu jeito (sem um editor me pedindo para esquecer minhas origens nordestinas e trocar as palavras que uso no meu cotidiano por aquelas que os paulistanos entendem). No fim das contas, a Maria Bonita me fez reatar meu namoro (quente) com o jornalismo.

 

Tem alguma história curiosa do processo de apuração? O que mais te chamou a atenção?

Sim. Certa vez, enquanto conversava com um pesquisador do cangaço em uma pequena cidade do sertão, ouvi que as mulheres, ao serem estupradas pelos cangaceiros, gostavam daquilo. Esse mesmo homem – que foi ao meu encontro banhado de perfume, de forma que eu mal podia respirar durante nossa conversa – defendia que Dadá, por exemplo, raptada e estuprada por Corisco aos 12 anos, devia agradecer a ele por tudo aquilo. Afinal, dizia o tal homem, fora Corisco quem ensinou Dadá a ler e escrever. Aquele foi um momento de grande tensão. Fiquei com um pouco de medo do sujeito, pelo seu discurso misógino, agressivo e comportamento pretensamente sensual, e percebi que eu deveria ser muito firme na defesa das mulheres que participaram do cangaço. Além de terem suas trajetórias silenciadas, essas mulheres continuam, ainda hoje, depois de tudo o que enfrentaram, a terem suas histórias contadas dessa forma, por gente que pensa isso delas e ainda as chama de mentirosas, dramáticas, exageradas, safadas. De forma geral, o que mais me marcou foi isso de ver opressão, misoginia e machismo em tudo que se relacionava ao tema. Sabe quando dizem que nós, feministas, vimos machismo em tudo? Pois é, o problema é que, quase sempre, há machismo em tudo.


Qual é a diferença do livro-reportagem para a produção de uma reportagem que você faz no dia a dia?

Sinceramente, a diferença é o tempo. O processo é o mesmo – apurar, entrevistar, checar, confrontar diferentes versões, escrever, lidar com o editor, escolher as imagens, publicar. Mas se tem mais tempo para cada uma das etapas. O desafio é não confiar na fartura de tempo e deixar tudo para a última hora. Organização e gerenciamento da rotina são fundamentais.


Por quantas mãos passaram a edição do seu livro?

O livro foi maravilhosamente editado pela Daniela Duarte, da Objetiva. Além dela, também trabalharam no processo de produção do livro muitos outros profissionais: preparadores de texto, revisores, checadores e designers gráficos.

Por Marília Sena

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção