Sufragista, negra, alagoana… filme resgata incrível história de Almerinda

 

Mulher negra, nordestina, confrontada pelo preconceito e opressão sexista. Invisibilizada pela história, Almerinda Farias Gama (nascida em 1901) foi uma das primeiras mulheres a votar no Brasil, em 1932. Morreu em um bairro periférico do Rio de Janeiro, em 1992. Hoje, 76.6 milhões de mulheres estão aptas ao sufrágio obrigatório constitucional, 52% do eleitorado brasileiro, o bastante para eleger o próximo presidente. Ela foi uma das pioneiras deste ideal. O documentário de arquivo “Almerinda: a luta continua!”, dirigido por Cibele Tenório, exibido neste mês na Mostra Competitiva do 12º Festival Taguatinga de Cinema, ajuda a resgatar uma história silenciada sobre representação política feminina.

A diretora do filme, Cibele Tenório, também alagoana, como a personagem, radicou-se em Brasília para trabalhar como repórter. Formou-se na Universidade Federal de Alagoas e lamenta que conheceu Almerinda apenas muito tempo depois. Quando já trabalhava em Brasília, foi convidada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) a desenvolver um trabalho audiovisual no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), setor da Escola de Ciência Sociais da fundação com a proposta de abrigar documentos importantes à historiografia brasileira. O fruto desta pesquisa foi o trabalho conjunto com outras mulheres e a equipe não remunerada organizada para resgatar a história de Almerinda.

“Ela que chegou em mim primeiro, antes que chegasse até ela”, diz Cibele Tenório quanto à descoberta. “Apaixonada”, encontrou a personagem com base em uma seleção de arquivos por gênero, a fim de “garimpar” quais seriam as mulheres no meio de infinitos nomes masculinos que preenchiam o acervo da Fundação. Almerinda se destacava em fotos preto e branco, datadas de 1936, no meio de um salão repleto de homens.

Assista ao filme “Almerinda: a luta continua!”

Alagoana, Almerinda mudou-se para Belém do Pará ainda criança. Já adulta, em 1929, foi morar no Rio de Janeiro, onde morreu em 1992. “Mulher, negra, jornalista, advogada e feminista. Quis votar e conseguiu! “, diz a locução forte da documentarista que mescla-se ao discurso engajado da personagem.

Confira entrevista com a diretora Cibele Tenório


Outras obras sobre Almerinda

Os recortes audiovisuais do documentário foram retirados de outras pesquisas a respeito da sufragista. A produtora de um documentário feminista datado de 1991, Maria Angélica Lemos, cedeu uma das últimas imagens feitas de Almerinda. Além de participar do documentário. Relembra a imagem da militante e arrepia-se ao ver o vídeo com a personagem feito na época da gravação do seu filme. “Almerinda: uma mulher de trinta”, também de 1991, é outra produção utilizada para figurar o ícone da militância feminina. Com direção de Joel Zito Araújo e Ângela Freitas, as imagens do filme trazem uma conversa com Almerinda na qual ela discursa sobre a postura  de algumas mulheres na política. Na obra, Almerinda diz ter ouvido de advogadas da classe alta do Rio de Janeiro que o voto feminino não era necessário.

Junto a Mariana Leal, que assina as imagens do documentário, Cibele Tenório define a produção como um “cinema de guerrilha”, visto que não tiveram patrocínio para reunir o material ou produzir entrevistas. Ela acrescenta que a figura de Almerinda aprofunda o debate do movimento feminista, negro, principalmente, que vive um momento de resgate dessas mulheres que “foram invisibilizadas durante todos esses anos”.

Ecos de Almerinda

Somente com o decreto Nº 21.076, instituído por Getúlio Vargas em 1932 e consolidado na constituição de 1934, as mulheres tiveram direito ao voto no Brasil. Mas a história de luta para consagração da representatividade política feminina começou bem antes.

Inspiradas pelas sufragistas inglesas, o livro “Direitos das mulheres e injustiças dos homens” (domínio público) foi publicado no Brasil em 1832, com a autoria de Nísia Floresta. O texto reivindicava direitos elementares para todas as mulheres, como o de ser alfabetizada, poder frequentar escolas, ou simplesmente ser considerada dotada de inteligência. Diziam as autoras que o quadro de ignorância imposto às mulheres foi responsável pelas dificuldades que enfrentavam.

A professora de história Maria Inês Castro ressalta que, apesar da conquista, houve atraso na medida. “É tardio, mas relativamente recente. Na França, foi durante o pós-guerra (1945)”. Na África do Sul, em 1993, e Arábia Saudita, 2011. Países nórdicos, porém, tomaram a iniciativa nos primeiros anos do século 20.

Após a expansão urbana com a industrialização do Estado Novo, mulheres sem instrução e impedidas de participar da vida pública, enfileiram-se diante de máquinas em condições insalubres, com carga de trabalho que chegava a 12 horas por dia. A porta-voz destas dificuldades na época foi Patrícia Galvão, famosa pelo pseudônimo Pagu. “A mão de obra feminina era requisitada nos trabalhos de tecelaria e até mesmo indústrias queriam as mãos delicadas para o serviço”, lembra a professora Inês.

Almerinda acrescenta a essa cronologia o sindicato formado somente por mulheres, presidido por Bertha Lutz. No documentário de Joel Zito Araújo e Ângela Freitas, “Almerinda: uma mulher de trinta”, fica claro que o interesse das operárias em participar das discussões promovidas pelo Sindicato, encabeçado pelas militantes do movimento feminista brasileiro, era nulo. Colhiam assinaturas nas fábricas para aumentar o contingente do sindicato. Já foi apelidada de “Sindicato do eu sozinho”, porém não desistiu da luta.

Festival

Desde 1998, o Festival Taguatinga de Cinema acontece na região administrativa. Com o tema, “A nossa porção mulher”, a edição de 2017 foi direcionada para películas que abordassem valores femininos. “Narrativas criadas por afetos, amorosidade e sentimentos como compaixão, confiança, cuidado, desejo de comunhão e cooperação, além do senso de sagrado e o respeito à alteridade e à Natureza”, diz em nota a organização do Festival.

Os filmes que estiveram em cartaz estão disponíveis no portal do Festival (http://festivaltaguatinga.com.br/) ou no YouTube. Não é exigido aos filmes exclusividade ao festival. Por isso, histórias como a de Almerinda, publicado na rede em 2009, são projetados na tela do Teatro, na Biblioteca de Taguatinga, e alcança mulheres que ainda estão lutando pela emancipação feminina na sociedade que resiste a libertação.

Por Cezar A. Camilo

*Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Foto: Arquivo / FGV

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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