Na capital do país, eles vivem rotina de fome; assista a documentário

Helena dos Santos, de 68 anos, vive cotidiano de luta por comida. Fotos: Arthur Menescal

Mais um caminhão chega ao Aterro da Estrutural. Dessa vez, a linha vem do mercado. A espera é grande e a competição pelo que pode ser aproveitado também. Uma mulher vai apressada em busca de comida, afinal, em meio ao lixo vem “muita coisa” boa. “A comida ainda está boa e na validade. A gente aproveita mesmo”. A caçamba se eleva para despejar o carregamento, de riquezas e oportunidades aos que mais precisam. Junto de tantos outros, a mulher corre, se espreme, e, colada à pilha que se forma, tenta selecionar aquilo que mais se parece com uma refeição, como um pouco de arroz, um pedaço de mortadela ainda no pacote. Faz parte do cotidiano, mas as dificuldades e perigos, com o tempo, vão se escondendo atrás rostos de seus filhos. São seis. De repente, um grito, e o que antes parecia claro vira um borrão. No meio do lixo, também tinha uma lâmpada, que se quebra. A visão, agora, está embaçada pelo sangue, pela imprudência, pela necessidade.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta (dia 15 de dezembro) que 24,8 milhões de pessoas no Brasil viviam na miséria e com um quarto de salário-mínimo no final de 2016 (há um ano), o que representou um aumento de 53% em relação aos dados de 2014.

Assista abaixo ao filme “Precisamos de doações”

No centro da Brasília, são seis horas da manhã e está “tudo pronto”. A cidade começa a se movimentar, o cheiro de pão que vem das padarias da comercial embala o início de mais um dia. Cuidar dos carros na frente do supermercado é uma das estratégias para conseguir almoçar. O ponto, hoje, é de Ana. A comida, na verdade, não será servida. Ela tenta pegar nem que seja um pacote de biscoito antes que o container  saia dali. No dia anterior, ela conseguiu levar para mãe, de 68 anos e diabética, algo para comer. Mas hoje tem que enfrentar o gerente do mercado que não autoriza a competição entre ela, moscas e pombos que rodeiam o fundo do estabelecimento às margens da L2 na Asa Norte, uma das áreas nobres de Brasília. Ela se indigna: “por que não pode pegar algo que está no lixo?”. Ainda está bom e ela precisa comer.

Fome não mora só às margens do mercado

Daniel tem 23 anos e hoje é quem separa o que chega na cooperativa em que trabalha. Vem de tudo, desde fraldas sujas e lâmpadas queimadas até pacotes de biscoito e sacos de arroz. Tenta recolher o que pode, afinal, mesmo tendo renda, mais da metade do que ele consome vem do lixo. Todo dia encontra algo que mais tarde pode comer, às vezes algumas coisas duram apenas uma refeição, um lanche e outras conseguem render o mês. “É doído de se ver”, mas ele sabe que aquilo pode fazer a diferença em sua alimentação.

Solimar Lima dos Reis teve o primeiro filho com 13 anos. Hoje, são 38 anos de vida e seis filhos para cuidar

O Distrito Federal é uma das unidades da federação de maior desigualdade extrema que evidencia a situação da fome humana. A privação alimentar é uma das vertentes no estudo sobre segurança alimentar. A má distribuição, consumo irregular e inadequação nutricional agravam um problema que volta a preocupar o país.

Em uma cooperativa de catadores na Estrutural são descarregados cerca de oito mil toneladas de lixo todo dia. Não é difícil encontrar alimentos lacrados em meio a todos os dejetos. “Ei, olha aqui, vocês não estavam procurando? Acabei de encontrar”. Solimar quis ajudar ao perceber que os dois repórteres que estavam na Cooperativa não paravam de perguntar sobre a comida que era descartada. Ela tira do lixo cinco pacotes de comida que estavam no último caminhão que chegou. Lacrados. Marcas conhecidas. Para Solimar é uma dor, mas também um alívio. Parte da alimentação dos filhos já está garantida. “Você já levou alimentos do Lixão para casa?”, perguntam os repórteres. “Já”, diz meio tímida, “Conseguia lacrado”, a resposta é enfática.

Solimar Lima dos Reis teve o primeiro filho com 13 anos. Hoje, são 38 anos de vida e seis filhos para cuidar. Mãe solteira e moradora da Estrutural, ela experimenta a vida de quem deve buscar a sobrevivência diariamente. Uma vez ela foi salva pela comida pega no lixão em uma quarta produtiva onde conseguiu levar para casa dois sacos de arroz, dois de açúcar, duas mortadelas, quatro caixas de leite e alguns ovos. No dia seguinte, ela sofreria um acidente que a deixaria sem enxergar por dois meses. Foram dois meses perdidos na busca por uma maior qualidade de vida para seus filhos. Solimar diz que esse foi o momento de maior risco em sua vida, em nenhum outro período ela passou tão perto da fome. Se não fosse pela comida do lixão, ela e seus filhos teriam vivido esse mal.”

Helena tem pedido doações para fazer  ao menos uma refeição por dia.

“Faça Nosso Dia Feliz”

O barraco em que Helena dos Santos, de 68 anos, mora com a filha e o enteado, no centro de Brasília, já tem 25 anos de história. Metade da idade de uma instituição de ensino privado que está a alguns metros dali. Os alunos que passam por ali podem se deparar com uma um pedaço de papelão preso às árvores e com  Helena sentada à beira da pista. No pedaço de papelão, um pedido que acaba soando mais como um questionamento. “Faça nosso dia feliz”, foi o que ela e sua filha Ana Paula, de 29 anos, escreveram para tentar evitar o maior de seus medos: ficar sem comer. A falta de comida é o principal problema enfrentado pela família ultimamente.

Elas não têm estoque. Todo dia é dia de luta. As doações ajudam bastante, mas diariamente existe o medo de não ter o que comer. “No dia que não conseguimos nada, a gente tem que tomar chá e comer pão seco”, Ana Paula diz isso como se contasse uma história pela décima vez. É horrível pensar que ela pode ter se acostumado com a ideia de não conseguir se alimentar e alimentar a mãe diabética, sabendo que essa família não precisaria passar por isso. Existe comida em excesso na capital, o suficiente para suprir 86,74% dos domicílios, de acordo com o relatório divulgado em 2013 pelo Ministério de Desenvolvimento Social, mas não é o suficiente.

Na Estrutural, trabalhadores coletam produtos desprezados e jogados no lixo, alguns com validade vencida

O acesso a essa comida é dificultado. Quantas vezes Ana Paula já teve que correr para pegar comida que seria descartada por supermercado? Enfrentar um gerente que tenta tirar o saco de arroz dela? “Eu sou barraqueira”, Ana Paula sabe que tem que se impor. Se não ela, quem vai intervir e impedir que um alimento vá para o lixo ao invés de sua barriga?

Privação

 

Para entender um pouco mais, o professor de economia da Universidade de Brasília, especializado em segurança alimentar, Newton Narciso, indica os dois lados da situação da fome pela restrição de renda no Brasil. Um deles com base na escala brasileira de insegurança alimentar (EBIA), publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), derivada da última amostra de 2013,  que categoriza  em condição alimentar grave, ou seja, que pelo menos uma pessoa dentro da família ou do grupo residente privado não tem o que comer, de fato. “Aumentou algo em torno de 7,2 milhões de pessoas, o que vai dar cerca de 3,6% dos moradores em domicílios particulares no Brasil”.

Outro dado é a porcentagem de pessoas com privação total de alimentos, trazendo os dados levantados pela FAO (Organização das Nações Unidas para a alimentação e agricultura), em recente relatório. “Por nível de restrição real de acesso, no biênio 2014-16 estava na casa dos 2,5% do total da população, havendo uma diminuição, uma vez que em 2004 era 4,6%da população.”, lembra.

A situação do Distrito Federal

Segundo Newton, a fome pode ser um desdobramento dos altos índices de desemprego que estão sendo percebidos no Brasil. O Distrito Federal tem hoje cerca de 305 mil desempregados, 18,7% da população, segundo dados da Codeplan (Companhia de Planejamento do Distrito Federal). A análise do especialista gira em torno do custo de vida e do perfil populacional no Distrito Federal.

Insegurança alimentar se agravou na capital e no país. Foto: Giovanna Pereira

Cerca de 40% dos empregos na capital vem do serviço público e isso pode representar um aumento no preço de produtos básicos. Parte da população não sofre com isso, pois continua tendo a garantia de um salário no fim do mês, mas para a outra parcela, que não pode contar com esse luxo, a dificuldade em manter um padrão de vida se torna elevado. O maior perigo é ficar sem renda. É o que se observa no Brasil todo, com o aumento do desemprego a situação daqueles que vivem sem estabilidade tem se agravado. “(Sem renda) você começa mudando o que você come, piorando a qualidade da sua alimentação, avança a direção da redução do consumo, portanto você começa a criar fome, passar fome”.

“A medida que nós temos no DF é que mais da metade da população convive com algum grau de insegurança alimentar por inadequação de consumo”.

 

Por outro lado, dados da Codeplan revelam ainda que houve uma diminuição das taxas de desemprego nas áreas mais ricas do DF (Plano Piloto, Lago Norte e Lago Sul), cerca de 8% em relação ao mês anterior. Já em lugares como Estrutural, Fercal e Varjão, houve um crescimento de 0,6%. A população vulnerável do DF ficou estagnada na crise.   “Porque nós temos altos níveis de desemprego e uma possibilidade, de perspectiva de recuperação desse emprego muito ruim, então nós temos fome.”, salienta Newton.

Ouça podcast sobre desperdício de comida

Escondeu os filhos

Certo dia, perto do centro cultural de Brasília, perto de uma das principais entradas à área nobre da cidade, esconder os filhos no mato não foi o suficiente. O Conselho Tutelar do Centro levou quatro dos seis filhos de Daiane. A dor da separação foi imensa dadas as circunstâncias, ela e seu marido estavam tendo dificuldade para alimentar todos eles.

Hoje lhe restam apenas dois filhos, mas antes, quando vivia com os seis, a doação era a sua única forma de conseguir comida. A “catação” não dava lucros para a família, por isso ela teve que apelar para a boa vontade das pessoas. “Era mais difícil porque eram seis bocas pra alimentar, era mais complicado e na época que eles viviam comigo eu não recebia Bolsa Família. Eu vivia de doação e o abrigo também me auxiliava com uma cesta uma vez no mês, ai eu vivia de doação”.

A questão agora é sentir fome. “Aqui mesmo, já chegou em uma época de eu não ter nada para botar no fogo pra comer (suspiro), aqui mesmo”. Daiane sofria no papel de mãe quando não tinha o que dar de comida aos filhos que pediam. Muitas vezes, dormir era o melhor remédio para esquecer os pedidos vindos do estômago.

Sem conseguir uma ocupação, por ser analfabeta, ou apoio para a criação do filhos, ela se sente abandonada. Deixou de fazer parte da sociedade, é obrigada a viver como um bicho. “A gente vive uma vida desumana”, lamenta. Em seu barraco a família é obrigada a conviver com pulgas que dão alergias aos seus filhos, ratos que vão atrás de comida e cobras que vem para dificultar ainda mais, principalmente na época de chuvas.

“Eles falam que a culpa é da mãe que deixou os filhos vulneráveis, eles tomaram meus filhos nesse caso, mas não estendem a mão para me ajudar ou dar um auxílio pra você poder sair dessa situação, simplesmente veio e tomou meus filhos, disseram que eu estava botando a vida deles em risco.”

Os últimos dados do Ministério de Desenvolvimento Social, de 2013, traz a situação de insegurança alimentar no Distrito Federal em redução. Daiane, como muitos outros, faz parte da porcentagem de risco, que ficam sem a garantia do programa de aquisição de alimento.

Situação piora

Na América Latina, os níveis permanecem baixos, mas há indícios de que a situação pode piorar especialmente nos países da América do Sul, onde a prevalência da subnutrição aumentou de 5% em 2015 para 5,6% em 2016. No Brasil, apesar do alerta de entidades nacionais de que o país está sob ameaça de retornar ao mapa da fome, o número registrado entre 2013-16 ficou abaixo de 2,5% (em 2004-06 era de 4,5%).

O País ainda mantém sua população com níveis abaixo do índice de insegurança alimentar. Isso vem se mantendo pelos últimos cinco anos e configura que o Brasil ainda consegue chegar ao objetivo de sustentabilidade ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) número 2: a erradicação total da fome. No entanto, para que isso ocorra não é fácil. O representante da FAO Brasil, Gustavo Chianca, em entrevista à Revista Esquina, alerta que é preciso reforçar as ações de combate.”É preciso políticas públicas cada vez maiores para populações mais vulneráveis, e manter as políticas que foram exitosas no Brasil quanto à segurança alimentar”. Chianca aponta que essas medidas são de extrema importância e que, sem elas, é complicado atingir os ODS até 2030.

A Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura (FAO) insiste que acabar com a fome é uma questão de vontade política. Os alimentos produzidos no Planeta são mais que suficientes para que os 7,5 bilhões de habitantes comam o que necessitam para ter uma vida plena. O problema maior é quase sempre de distribuição. Há regiões em que não chega comida suficiente. Há também pessoas (ou comunidades inteiras) sem dinheiro suficiente para comprar os alimentos que chegam até elas. [por mim a matéria terminaria aqui]

O que os autores do relatório oferecem passa por atender com rapidez as situações de emergência alimentar provocadas por diversos fatores. Propondo fomentar e proteger a paz. Mas também, e, sobretudo — e aí é onde entra em jogo a vontade política — por investir e apoiar o desenvolvimento e a capacidade dos mais vulneráveis para resistir a esses contratempos, como determinam os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável aprovados em 2015 pelos 193 países membros das Nações Unidas. (eu cortaria)

Uma preocupação mundial

Onze por cento da população mundial passa fome. Em um momento de grandes tensões, o Brasil aparece positivo no combate à fome. Com índices inferiores a 2,5% nos mais recentes relatórios divulgados pela FAO, o País é referência na América Latina (info repetida). Mas o que isso significa para aqueles que sofrem? Nada. Eles fazem parte da estatística. São números confusos e que enganam. Cercados de clichês, fazem parecer que vai ficar tudo bem.

Publicado no dia 15 de setembro deste ano, o relatório apresenta questões relevantes sobre o estado de segurança alimentar e nutricional em todo o mundo. A visão transformadora da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável instiga a todos os países e regiões interessadas a trabalhar conjuntamente com o objetivo de erradicar a fome e prevenir qualquer forma de má nutrição para 2030. Este objetivo só será cumprido se a agricultura e os sistemas alimentares se desenvolverem de forma sustentável, de modo que os estoques de alimentos sejam estáveis e todas as pessoas tenham acesso a uma alimentação e saneamento adequados.

A incapacidade de reduzir a fome no mundo está diretamente relacionada com o aumento de conflitos e violência. Durante a última década, os conflitos aumentaram de forma alarmante e voltaram mais complexos e difíceis de solucionar. Algumas das porcentagens mais elevadas de crianças que sofrem com insegurança alimentar e má nutrição estão em países afetados por conflitos prolongados e com fragilidades em suas instituições sociais.

O representante da Organização Gustavo Chianca reforça o alerta do relatório: “É importante o dado da fome no mundo. Ela (a fome) vinha caindo, há mais de dez anos ela tem caído. Os dados diminuem em número e ainda mais em porcentagem. Mas nesse ano, agora em 2016, se constatou pela primeira vez em dez anos um aumento.” Mesmo assim, a FAO não detectou até 2016 a possibilidade de um retorno do Brasil ao mapa da fome, mas é preciso dar continuidade aos programas sociais de combate à fome.

Ainda assim, no começo de novembro o diretor-geral da organização, José Graziano da Silva,  apontou preocupação sobre a possibilidade do Brasil voltar ao mapa da fome. Uma vez que o País enfrenta problemas estruturais, como o aumento dos níveis de desemprego.

Reportagem: Arthur Menescal e Giovanna Pereira, da Revista Esquina

O filme foi produzido por Arthur Menescal, Frederico Beck, Gabriel Lima, Giovanna Pereira e Marcela Martini

Supervisão: Luiz Claudio Ferreira, Carolina Assunção, Isa Stacciarini e Katrine Boaventura

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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