Músicos voluntários tocam para transformar vidas em área de lixão de Brasília

Por entre as ruas estreitas sem asfalto da Cidade Estrutural, a 20 quilômetros do centro de Brasília, um único caminho leva para o lixão aterro sanitário, em pleno processo de desmonte desativação, para  desassossego dos moradores do local.

É do lixo que os catadores retiram sustento e esperança. Os sons das latas, dos caminhões passando, dos entulhos que são revirados pelo  vento fazem com que os trabalhadores levem esse barulho para casa ecoando em seus ouvidos. Mas, nos arredores do lixão, outros sons foram percebidos. Eram notas que saíam do despertar dos instrumentos e das vozes de vinte e duas crianças. Vizinho ao  local, um projeto social, integrado por voluntários, passou a dar nova esperança para os moradores. Era um “barulho” diferente, com tradução em acordes e versos cantados.

 

Arthur Félix e Damon Éric Pacheco eram crianças da comunidade cujas  famílias lutavam com dificuldade no dia a dia. Acostumaram-se a conviver com o silêncio da falta de esperança. Todos se lembravam disso quando eles chegaram de Roma, Itália, como professores de música. No projeto “Reciclando Sons”, eles foram alunos tão aplicados que trocaram a falta de sonhos no futuro por violino e violoncelo.

O sucesso de Arthur e Damon criou expectativa nas outras crianças do projeto. O desejo é ter a mesma oportunidade dos dois alunos, agora professores e músicos da orquestra. Os pequenos que participam do projeto planejam chegar alto, pensando em uma escala de sons ascendentes.

É hora de ensaio. A música penetra as paredes do ambiente iluminado pelo sol poente. Toda a sala é inundada por mínimas, semínimas, colcheias e suas pausas contidas no compasso quaternário. O arco que toca as cordas faz com que todos fechem os olhos e sonhem com grandes concertos. As notas dançam ao som de um tempo futuro não muito distante, imaginado e sentido na adrenalina do palco.

A orquestra ensaia Ivan Lins – Novo Tempo. O ajuste do Lá do diapasãoestabelece a busca pela afinação em 440 vibrações por segundo. Os arcos provocam as cordas com vigor. A regente, Rejane Pacheco, 39 anos, senta-se em um banco alto e, conforme conduz a música, se levanta. Usa o banco mais como um apoio que como um descanso. Os participantes, atentos, seguem o comando da maestrina com seriedade. Várias peças musicais de estilos e gêneros diferentes são executadas.

O recinto amplo com um grande banner colorido com o nome da instituição fica atrás das cadeiras brancas de plástico que servem de assento para os alunos da orquestra durante os ensaios. Móveis usados e livros reciclados compõem uma estante acanhada no canto à esquerda.  Perto da estante, há um sofá pequeno onde se acomodam as visitas. À direita da sala um usado piano de armário dorme em um canto. Alguns fios e cabos de cor escura puxados para uma possível ligação elétrica improvisada atravessam a parede clara de lada a lado. Há quadros brancos à disposição das canetas de todas as cores e de todas as letras e símbolos musicais.

O lanche é servido em torno de 4h20 da tarde. Os alunos comem bolo de chocolate com cobertura e bebem suco de laranja natural enquanto confraternizam. A seriedade é deixada de lado. É a hora da descontração. Enquanto isso, Da. Islam Lourenço, 44 anos, responsável pela logística do lugar, trabalha na recepção e faz material para eventos, coordenando a parte de serviços gerais.

Da. Islam confidencia a quem está ao seu lado sua preocupação de anos atrás, com a filha de 15 anos, Ester Akilah, aluna de violino e canto que sofria bullying na escola. Conta que aos 11 a filha descobriu as aulas de música no Instituto e pediu para estudar lá. Da. Islam lembra que a partir dessa data toda a vida da família mudou. Ouça o que ela diz:

Início

O projeto nasceu em 2001 a partir dos sonhos de Rejane Pacheco, que percebeu a falta de perspectiva das crianças e jovens ao acompanhar a sua mãe em um projeto social, desenvolvido aos sábados, com 100 meninos do lixão da Estrutural. A maestrina – que além de violinista é cantora e pedagoga – conta que cursava Música, mas não estava satisfeita. Ela sentia que a educação musical do ensino formal não contemplava todas as crianças e as atividades de orquestra que ela participava não buscavam a inclusão de alunos com menor poder aquisitivo.

Após um processo de depressão, Rejane reavaliou sua vida. Ela estava insatisfeita com a carreira que havia idealizado, mas que, na realidade, não correspondia às suas expectativas. Então, tomou a decisão de mudar seu futuro e o das várias famílias da Estrutural por meio das crianças e dos jovens da comunidade.

Pensou em um projeto de ensino que utilizasse a música como ferramenta de educação e democratização cultural. Esse projeto iria propiciar a inclusão social das crianças do lixão, além de gerar renda para as famílias em médio prazo, interação com a comunidade, diminuição da evasão escolar e melhora do desempenho nos estudos. Ela conta como começou o projeto com 22 crianças.

Rejane Pacheco esclarece que a metodologia do Instituto Reciclando Sons é modular. O aluno só passa para a fase seguinte quando está completamente preparado. Conta que a formação cultural que é a inicial, realizada aos sábados, inclui a família da criança. Nessa etapa se dá o processo de seleção. O aluno pode fazer a matrícula a partir de nove anos e preencher um questionário, em que é exigida a comprovação da situação de vulnerabilidade social.

A fase educacional, de nível médio, oferece cinco vagas por meio de um edital interno do próprio instituto. Esses alunos selecionados passam a receber uma bolsa de subsídio social patrocinada pelo Banco do Brasil e o contato com a instituição fica mais próximo. Na fase profissionalizante, de nível técnico, o aluno concorre a dez vagas abertas por edital público com recursos do banco. Essas vagas são oferecidas para a os alunos do Instituto Reciclando Sons, bem como para outras comunidades. Os dez melhores classificados vão obter bolsas de subsídio social e, como professores, vão replicar o que aprenderam na primeira fase, o módulo dos iniciantes.

Assista ao vídeo

 

Método

O projeto de Rejane Pacheco inclui o método Suzuki no processo de ensino musical por ser de fácil aplicação, ter baixo custo e oferecer um sistema simples para aprendizagem, possibilitando que o aluno toque um instrumento no prazo de até um ano. A maestrina conta que o método usado tem como proposta pedagógica um processo similar à aquisição da língua materna, pois considera que as crianças aprendem a tocar os instrumentos como aprendem a falar, ou seja, por imitação. De início não há a codificação e a decodificação dos símbolos musicais. As crianças aprendem por meio do uso de cores, números e clichês de frases. Suzuki tinha como filosofia de ensino a inclusão, pois para ele o talento não era um acaso de nascimento, mas fruto do ambiente em que o indivíduo vivia.  Confira abaixo a música de Twinkle, Twinkle Little Star, usada para os alunos iniciantes do método Suzuki:

Peça executada por Ana Cândida Gobbi Arantes

Parcerias

Rejane Pacheco afirma que o plano de atuação do Instituto tem como prioridade o compromisso com a inclusão social. Portanto, noventa por cento dos educadores que atuam na organização foram formados na própria escola. Isso não exclui que pessoas vindas de fora possam atuar em palestras e workshops por meio de convênios e parcerias.  Rejane explica como funcionam as parcerias.

Histórias de sucesso

Arthur Félix, 25 anos, dá aulas de violino, canto coral e toca na orquestra. Conta que começou a estudar no Instituto com 15 anos. Seus pais estavam separados à época e a mãe cuidava sozinha dos filhos. Antes, Arthur trabalhou no quiosque de uma tia aos 13 anos e depois conseguiu vaga de jovem aprendiz no depósito de uma grande loja de eletrodomésticos. Hoje é professor do Instituto, passou no vestibular para o curso de Música da Universidade de Brasília – UnB e foi aprovado na Ordem dos Músicos do Brasil.

Damon Éric, 20 anos, coordena a parte instrumental do curso do Reciclando Sons, dá aulas de violoncelo e toca na orquestra. Começou seus estudos de música no instituto aos 14 anos. A mãe, costureira, sustentava três filhos sozinha.

Arthur Félix e Damon Éric foram selecionados e obtiveram uma bolsa de dois meses na Accademia Nazionale di Santa Cecilia, em Roma, na Itália. Aperfeiçoaram-se como músicos e hoje são multiplicadores para alunos iniciantes e de nível médio.

Bruno Araújo, 33 anos, é professor de Teoria Musical do Reciclando Sons, toca viola e canta com o grupo. Ele afirma que paga todas as suas contas sobrevivendo apenas de música, pois além das atividades que exerce no Instituto, ele é um empreendedor individual e produtor musical.

“Não consigo imaginar minha vida sem a música. Não consigo imaginar minha vida sem o Instituto Reciclando Sons que foi quem proporcionou todas essas mudanças”, diz Bruno que começou a estudar música na organização aos 22 anos. Ele conta que percebe que os alunos desenvolvem organização, compromisso, responsabilidade e disciplina ao participarem de um grupo musical ou orquestra, convivendo bem com os outros músicos.

 

 

Resultados

O Instituto Reciclando Sons é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) que possui um trabalho relevante para a comunidade da Cidade Estrutural do DF. As mudanças sociais e educacionais realizadas pela organização foram notícia na imprensa nacional e em diversas revistas acadêmicas. O projeto conta atualmente com oito voluntários, 25 funcionários e atende 150 alunos. Desde o mês de Agosto de 2001, 3 mil pessoas já foram atendidas pela organização.

O Instituto trabalha sempre com foco na formação de monitores, coordenadores e professores que repliquem o ensino musical para a própria comunidade. Além disso, devem incentivar a que alunos advindos do projeto obtenham a carteira da Ordem dos Músicos do Brasil e façam uma graduação em curso superior.

O Instituto Reciclando Sons se tornou um pólo de formação profissional com bolsa de estudo para os alunos destaques com o apoio de empresas e voluntários. Esse grupo leva música para eventos de diversas instituições.

 

 

 

 

 

 

 

Por Claudia Sigilião e Luiz Claudio Ferreira

Vídeo por Gabriel Lima

Arte por Larissa Lustoza

Colaboração de Zilta Marinho

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

One thought on “Músicos voluntários tocam para transformar vidas em área de lixão de Brasília

  • móveis

    (28 de outubro de 2017 - 09:26)

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    |
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