Mulheres gamers denunciam assédio e preconceito também no mundo virtual

Mayara Oliveira: usava duas contas para jogar

As mulheres são maioria dos jogadores brasileiros de games (53,6%), de acordo com a Pesquisa Game Brasil feita no ano passado. No entanto, isso também não assegura respeito dos seus colegas homens. “Conheci pessoas que me admiravam e outras que me odiavam apenas pelo fato de eu jogar”, afirma a estudante. Mayara Sauer de Oliveira, de 18 anos, dona do canal no YouTube Renegada Gamer. Lá posta vídeos jogando, mas recebe mensagens machistas como “lugar de mulher não é no videogame”, “deve ser o irmão dela quem está jogando” ou “vai lavar uma louça”. Mayara joga em categoria de predominância masculina. Ela sempre teve duas contas para jogar, uma com seu nickname (apelido de mulher) e outra com um nome neutro para “não ser importunada”. Ao cometer algum erro, em partidas, já recebeu mensagens como “pelo menos é bonita”.

“Jogos são feitos para fazer amigos, por isso entendo que a mulher deve se afastar de comentários maldosos. Devemos bloquear se necessário, mas ninguém deve deixar de fazer algo apenas porque alguns irão criticar”.

Jéssica perdeu as contas das ofensas que já ouviu

 Ela gravou tudo. “Me xingam online porque estão atrás de um computador”

A gamer Jéssica Araújo do Nascimento, 24, dona do canal Jessie Games, explica que começou a se interessar por jogos com 10 anos de idade. Geralmente duvidam de que seja realmente ela quem está jogando e já perdeu as contas das vezes que já foi xingada e ofendida, principalmente por adjetivos de conotação sexual. Nunca usou nickname masculino, mas no começo usava nomes unissex e não gostava de falar no microfone ou de colocar fotos para esconder que se tratava de uma mulher jogando, além de preferir jogar sempre em grupo com amigos e não sozinha, para evitar o assédio. Em um dos vídeos do canal registrou os assédios e xingamentos e relatou o desconforto , comprovando a constância de tais comportamentos. Em certos momentos, é perceptível a implicância, como quando repetem seu nome de usuário “Pryscilla” ou a frase “Cadê a Pryscilla?”, utilizando entonação diferente só para importunar.  É possível silenciar enquanto se joga e isso foi sugerido por outros participantes, porém, por estar gravando com o objetivo de expor os incômodos que as mulheres sofrem, a Youtuber optou por não silenciar.

Sobre a campanha da Wonder Woman Tech, a jovem disse que “A tag #mygamemyname encorajou muitas meninas a usarem seu nome e foto verdadeiras e a falarem sobre isso sem medo das críticas, além de mostrar para os homens que preconceito é errado.”

Reprodução das relações reais

Para a socióloga Marcia Guedes Vieira, o medo do homem perder de uma mulher está relacionado a algo maior do que uma simples competição. “Também no mundo virtual, acontece a reprodução de relações de poder estabelecidas nas sociedades”. Para a cientista social, essa toxicidade é apenas uma representação do espectro dessa relação desigual de gêneros presente na sociedade. “Uma relação que foi fomentada dentro da comunidade de jogadores, pela própria indústria de jogos eletrônicos, reproduzindo valores culturais, logo abordando um visão do homem criando num ambiente de difícil acesso às mulheres”.  

Campanha

A ONG inglesa Wonder Woman Tech lançou campanha em dezembro de 2017, contra assédio e preconceito sofrido por jogadoras no mundo virtual. O projeto intitulado “#MyGameMyName” desafiou jogadores homens a usar nomes femininos e gravar a experiência. 

 

A Wonder Woman Tech, que tem como missão principal destacar mulheres na indústria científica, pretende expor, com a campanha, o machismo e o assédio sofrido por jogadoras que, em muitos casos, precisam se esconder por trás de nomes masculinos por medo. O movimento conta com gamers do mundo inteiro, homens e mulheres, para pressionar a indústria dos jogos a tomar medidas mais efetivas contra todo tipo de assédio contra mulheres.

O resultado do projeto não surpreendeu, nos vídeos gravados e postados em redes sociais, quando jogavam com nomes femininos, os gamers foram hostilizados,  assediados e reduzidos, por acreditarem que se tratava de uma mulher jogando.

O preconceito é reforçado pela forma machista e estereotipada com a qual as mulheres são representadas no mundo dos videogames. Costumam aparecer como vítimas, recompensas ou objetos e mercadorias sexuais. Menos de 4% dos jogos com protagonista definido, são mulheres. A exclusão feminina é acentuada no momento de desenvolvimento dos games, geralmente, são pensados para agradar somente o público masculino. 

Como denunciar

Em jogos, existem ferramentas específicas para denúncias de violências de qualquer forma (racismo, homofobia e assédio por exemplo). Se a vítima desejar, pode abrir um boletim de ocorrência na delegacia reconhecendo o crime cometido pelo ofensor ou levar até a justiça ao procurar um advogado e levando a documentação para isso.

Por Geovana Oliveira, Larissa Kurita, Pedro Nery e Alexandra Carolina 

Imagens: Arquivo pessoal das entrevistadas e de divulgação da campanha contra assédio entre gamers

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira e Katrine Boaventura

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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