Lambe-lambes de Brasília ajudaram no registro de pioneiros e resistem na rodoviária

Cabine na rodoviária do Plano Piloto é espaço de tradição das imagens em 3×4

Raimundo Nonato ajeita a gravata e a camisa branca sob o paletó preto. São duas da tarde e o movimento está fraco. Desde que inventaram as máquinas digitais o negócio vem definhando. Mas quer clientes felizes. Então, termina de arrumar a roupa no cabide e o pendura na maçaneta da cabine. É para os que precisam estar elegantes nas fotos. Mais uma foto… Ele ainda se lembra de quando chegou do Ceará e começou o negócio de fotografia na rodoviária do Plano Piloto. Como lambe-lambe, criou os cinco filhos que seguiram outras carreiras. Mas ele ainda acredita que vale a pena manter seu Foto União. A moldura da sua cabine, assim como as outras, é a rodoviária. Lá cabem humores, sussurros, zunidos, odores. Mais uma foto… Coração fotográfico cravado no centro da capital. O lugar não é um enfileiramento de ônibus ruidosos no pátio. Chegadas e partidas com horário controlado, passantes, cobradores e motoristas com o sentido em seus destinos. Mais uma foto… A rodoviária pulsa.  Cenas de caos. Disputam espaço com o comércio local, aos gritos, camelôs, evangélicos pregando a Bíblia, floristas, artistas de rua, todos habitantes desse espaço encoberto por uma espessa argamassa cinzenta e céu azul. A imagem é de uma rodoviária que não para. O rosto é de pessoas que não param. Esta é também uma história de imagens do outro lado da lente.

Assista a minidoc sobre o tema

 

Quem são os lambe-lambes que registram esses rostos? Os invisíveis da cidade moderna, os “sem rosto e identidade”, se eternizam em três por quatro. Mas, para além desses anônimos, a rodoviária do Plano Piloto não esconde a ostensiva presença de um policiamento estratégico, com suas viaturas, olhares e câmeras por todo lado. Nessa cabine gigante em que todos são observados, brotam cabines menores. Nelas, mais do que papel de impressão, filme e luz, dão-se registros de rostos. Trama feita de sonhos, cliques e uma imagem – a foto 3×4 – capturada num instante, no vai e vem da multidão. Mas, nem sempre o fotografado se reconhece na foto. A profissão tem essas ironias…

Raimundo Nonato, de 67 anos, é um dos pioneiros da fotografia na capital

O ano era 1980 e Raimundo (na foto ao lado), hoje aos 67, chegava para estabelecer sua cabine na rodoviária do Plano Piloto. Seu Foto União agora tinha uma sede no coração da cidade. Começava ali uma nova história. Aprendeu a fotografar e agora era um lambe-lambe. Outras rodoviárias em outros centos urbanos do Distrito Federal não existiam e o movimento ali era intenso. Parecia que todo mundo passava naquele lugar, inclusive os que iam e vinham de outros estados em ônibus leito. A época era outra, sem tanta tecnologia. Fotos em papel, documentos de todo tipo pediam uma foto 3×4. Raimundo era rápido e cheio de truques para a foto ficar boa.

Logo os pioneiros daquele serviço na rodoviária se organizaram e definiram um rodízio das cabines. O objetivo era que todos pudessem ocupar os “melhores lugares”. Sua cabine de metal é como as outras, com rodinhas que facilitam a locomoção, banco interno tendo como base um pequeno armário, espelho e cabide. Mas a fé é grande. Antigas fotos com maços de fitas do Senhor do Bonfim adornam as portas abertas. “É muito trabalho feito com muita fé”, diz Raimundo ajeitando um dos quadros.

 Foto de casório em plena rodô

Ali também está Claudemir Bezerra que chegou em 1978. “Toda vida fui fotógrafo” conta ele com orgulho. Aprendeu a fotografar na Bahia, vindo de Caruaru, agreste pernambucano. Quando se iniciou nesse ofício trabalhava com a antiga máquina de caixote, “não tinha nem filme, era lâmina de vidro que a gente usava” reforça ele resgatando as lembranças. Sua especialidade eram as fotos 3×4 e a 10×15, fotos maiores com famílias. Ele conta que fez muitas dessas maiores com noivos, “o pessoal vinha e a gente fazia aqui mesmo na rodoviária. Vinha vestida de noiva” conta sorrindo.

Claudemir mantém antigo ponto na rodoviária

Claudemir Bezerra nasceu para tirar fotos. Pelo menos, o homenzinho de sorriso aberto acha que a aptidão para o ofício de lambe-lambe até hoje não o deixou. Bezerra está na ativa. Mantém o antigo ponto, o Foto Caruaru, na rodoviária do Plano Piloto junto a outros oito lambe-lambes que vivem ainda desta arte. Criou os filhos com o lambe-lambe. Mas eles não seguiram a carreira do pai. Um é advogado, o outro bombeiro, e assim vai. Ele reclama do avanço incontinente das novas tecnologias no ramo da fotografia, mas tem amor pela objetiva e é com esse amor que a cabine branca, muito asseada, remete-lhe a um passado de curiosas imagens estampadas na porta direita da cabine. Emolduradas, essas imagens remetem a cenas históricas como a foto em que Bezerra comanda seu “caixote” debaixo do pano branco, com chapa de vidro, fotografando candangos ao redor.

Atualizado, seu equipamento agora é todo digital, “seguindo a modernidade”. Ele, que quase não lê, diz que é “ligeiro” e aprendeu rápido a lidar com os novos equipamentos. Claudemir lembra que quando começou na rodoviária do Plano Piloto o movimento era maior, mas que ganhava pouco.  Segundo ele o material de hoje é melhor e com isso consegue ganhar mais e completa “achei bom trabalhar como lambe-lambe. Aqui criei meus filhos que hoje estão formados”.

Foto de arquivo de Claudemir Bezerra

“Manda pelo zap que eu imprimo…”

Mas, na mesma época de Bezerra chegava a cidade a família de Tiago Brandão. A avó, que não era fotógrafa, iniciou o negócio onde o avô e o pai trabalharam como lambe-lambes. Hoje é ele quem ocupa a cabine do Foto Alves na rodoviária do Plano Piloto. Orgulhoso, ele mostra a foto do avô com a antiga máquina com caixa de madeira. Diferentemente de outros jovens parentes dos pioneiros desse ofício no DF, Tiago gosta muito da profissão, do espaço e da tradição nessa rodoviária por onde passa grande parte da população.

A tarde quente e seca não altera a movimentação do lugar. As pessoas continuam chegando e saindo com suas bolsas e sacolas. Na plataforma superior, uma mulher vende rosas enquanto o homem ao lado anuncia exames admissionais com um cartazete nas mãos. Nesse burburinho Maria Augusta chega apressada ao Foto Alves. Precisa de uma 3×4 para levar no Na Hora (serviço de expedição de documentos).

 

A família de Tiago (na foto acima) tem o ponto de seu “foto rápida” na rodoviária há quase 50 anos. O avô era lambe-lambe, e agora ele e o pai dividem o trabalho. “Gosto de fotografar. É uma profissão boa, né, ficar tirando fotos das pessoas, né? Um jeito bom de ganhar dinheiro também, né?”, diz orgulhoso. “peguei a época boa, não fotografo com a máquina com a caixa madeira” completa ressaltando a diferença entre seu início de carreira e a do pai.

Tiago chega às 8h e fica até às 18h, de segunda a sexta. Tira uma média de 25 fotos por dia. As mais pedidas são a 3×4 e a 5×7 para passaporte. Ele explica que a localização das cabines é rotativa, muda toda semana. Com rodinhas e portas que se fecham, as cabines podem ser facilmente mudadas de lugar. Dentro delas há um pequeno armário com cadeado que também serve como banco, um espelho para os clientes se arrumarem e um gancho onde podem ser pendurados casacos, paletós e bolsas.

Ele considera que a reação das pessoas quando veem as fotos varia muito. Com a facilidade da câmera digital, antes de imprimir ele mostra para o cliente. “Muitos tiram duas, três e escolhem a melhor. Mas tem uns que tiram um monte. Fazer o quê? Faz parte da vida, né?” conta ele com a resignação de quem sabe que o “cliente tem sempre razão”. Mas ele fica feliz porque a maioria das pessoas gosta da foto.

Com a evolução da tecnologia, Tiago explica que hoje tem gente que tira a foto em casa e manda por WhatsApp. Ele recebe, trata, imprime e entrega a quantidade de cópias solicitadas. Nesse caso não há variação no valor de 15 reais a foto 3×4, pois o que ele cobra é a impressão, não o clique. Mas Tiago tem um diferencial: enquanto os demais cobram o mesmo valor por oito fotos, ele entrega nove.

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  • Uma tradição reinventada

A atividade de lambe-lambe existe desde o século 19, mas se consolidou nos anos 1900. Agora em 2017, com o avanço das tecnologias de imagem e com a facilidade do uso dos celulares também para fotografar, os profissionais desse segmento encontram dificuldades para se manter no mercado, tendo que se reinventar a cada dia.
No início de Brasília o melhor do negócio eram as fotos para documentos como carteiras de identidade, motorista e de trabalho, título de eleitor e passaportes, por exemplo. As fotos 3×4 eram o grande filão desse mercado. Mas, conforme relatos de alguns dos profissionais que trabalham na rodoviária do Plano Piloto, além dos celulares, outro fator de impacto foi a extinção do título de eleitor com foto.

Eram em papel acartolinado, onde havia espaço para as datas das eleições e o carimbo confirmando que o eleitor votou. Esse modelo foi modificado e agora é feito em papel moeda e não tem foto. Paralelamente, os órgãos governamentais foram se modernizando e hoje possuem câmeras próprias conectadas aos computadores. Quando é feito ou atualizado um cadastro ou ainda a renovação de documentos, ali mesmo é tirada a foto da pessoa pelo funcionário que está atendendo.

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Pioneiro fazia 3×4 na nova capital em construção

Fernando Bizerra começou a trabalhar aos 9 anos registrando os primeiros candangos

Era 1958. A rodoviária improvisada recebia os caminhões “pau de arara” apinhados de gente que vinha trabalhar nas obras de Brasília. Fotógrafo pioneiro Fernando Bizerra, 67, começou  ali, aos 9 anos, ajudando o pai que se estabeleceu como lambe-lambe. Eles fotografavam os candangos que precisavam das fotos 3×4 para novos empregos. Vindos do Ceará atrás do sonho coletivo da construção da nova capital, viviam na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante. Crescendo com a cidade e vivendo suas histórias, Bizerra documentou a inauguração de Brasília com Juscelino Kubitschek, todos os governos que o sucederam assim como a evolução da cidade e sua gente.

Era moleque, “menino traquina” como diziam na época. Atento a tudo, logo aprendeu o ofício do pai. Uma de suas atribuições ela ajudar na revelação e secagem da foto. “Eu tinha um potinho com uma pasta branca feita com pó de pedra. Quando o cliente tinha pressa eu fazia todo o processo, passava essa pasta e selava lambendo”, sorri. “Secava rápido” completa.  Fascinado pela Esplanada dos Ministérios, saía da Cidade Livre rumo ao centro ainda em construção para fotografar. “Mas eu também fazia fotos das novidades que apareciam, como a galinha com dentes que chegou numa feira” relembra.

Era o filho caçula e os irmãos corriam desse trabalho de ajudar o pai. Hoje Fernando destaca que foi se apaixonando pela fotografia e, só agora, tem noção do quanto aquela convivência e o exercício precoce daquele ofício foi importante para sua formação. A vida naquela época girava em torno do Núcleo Bandeirante. Saindo dali o que se tinha em torno eram os canteiros de obras das grandes construtoras. Era comum que crianças ajudassem os pais com serviços menores, mas importantes para o trabalho como um todo. A rotina com o pai consistia em fotografar os trabalhadores que eram encaminhados pelos sindicatos para tirarem as fotos necessárias aos cadastros e à carteira de trabalho.

 

Um serviço de alto-falantes orientava os que chegavam e anunciavam onde estavam os lambe-lambes. O serviço não parava. Bizerra conta um momento importante pra ele: “eu ficava curioso como havia um acúmulo de pessoas em outros lambe-lambes e poucos chegavam até o meu pai. Procurei saber e ouvi um dia na Voz do Núcleo Bandeirante: senhor fulano de tal, tá indo pra í o caminhão tal. Fui até o quiosque e perguntei: Vem cá, por que você não está mandando ninguém pro meu pai, Seu Manoel Bizerra? Quem é Seu Manuel Bizerra? É meu pai. Mas quem é seu pai? Aí eu disse: É aquele ali. Aquele gordo, de cara amarrada? Ele não fala com ninguém. Aí eu disse: então manda pra lá que eu tô falando por ele. Tô pedindo por ele”, e Fernando solta uma gargalhada relembrando essa história que trouxe o movimento para o ponto do Seu Manuel Bizerra.

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Fogo na Cidade (que era Livre)

 

Corria a voz que o presidente Jânio Quadros era o responsável pelos incêndios que se sucederam na Cidade Livre. Nada confirmado. Na verdade, o atual Núcleo Bandeirante não estava no plano original de Brasília. Os acampamentos seriam removidos e o espaço urbano que começava a se formar ali também seria. A família acabou se mudando para Taguatinga e o negócio continuou prosperando. Lá Seu Manuel adquiriu o primeiro ponto comercial, os meninos cresceram e o mais novo assumiu os negócios.

A primeira máquina de Fernando Bizerra, já adulto, foi a Leica, uma revolução na época pela portabilidade. De lá pra cá, sempre ligado nos avanços tecnológicos, tornou-se um colecionador. Trabalhou como repórter fotográfico para diversos veículos num tempo em que as notícias de Brasília eram enviadas para as grandes agências via código Morse, com a ajuda de telegrafistas.

Os rolos de filmes fotográficos seguiam de avião para serem revelados nos grandes centros. Quando montou sua própria agência, tornou-se correspondente de vários veículos de comunicação e adquiriu uma máquina telefoto, capaz de transmitir a imagem em preto e branco para qualquer destino. Bizerra se lembra que, na época, elas custavam o equivalente a R$ 35 mil e ele fez um financiamento para pagar em 3 anos. Depois vieram as máquinas que transmitiam fotos coloridas, mas em 4 lâminas e o receptor deveria recompor a imagem para publicação. Por sua expertise, ele é uma referência e sempre foi procurado por grandes veículos de comunicação para os trabalhos de implantação dos setores de imagem, como foi o caso da TV Globo quando chegou a Brasília.

Criou os filhos com seu ofício. Eles seguiram a profissão do pai que hoje é um empresário do ramo com o Photo Mídia Digital. Seu estúdio, na 302 Norte, guarda um pequeno museu com várias gerações de máquinas, muitos slides e fotos com registros de momentos importantes do país. Bizerra não só vivenciou a rápida transformação dos meios de comunicação e a revolução da imagem, mas contribuiu para o aperfeiçoamento de muitos profissionais com seus cursos de fotografia.

Fez faculdade depois dos 50 anos. “Eu já era um profissional quando fui cursar fotografia na faculdade. Num dos trabalhos o professor me olhou e disse: você já fez de tudo, mas garanto que nunca tirou uma selfie. Ele acertou em cheio. Acabei tirando umas 100 selfies até achar que uma ficou boa”, conta Fernando às gargalhadas. Sempre atualizado, ele continua buscando novidades fazendo do seu trabalho um grande prazer.

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Pesquisadores clarificam a magia do face-a-face

A imagem não encanta apenas fotógrafo e fotografados. Pesquisadores da linguagem clareiam essa “magia” diante de uma lógica: “vendo, sonhamos”. Essa é a “verdade” da fotografia. O olho fotografa, mas quem traduz o que o olho viu é a imagem fotográfica. Para Philippe Dubois (1993), autor de O Ato Fotográfico, a imagem deve ser entendida como um dispositivo de ficção, pois olhar uma imagem é sonhar o que olho viu. Ver faz acreditar. Em outras palavras, a fotografia é o desejo de ver algo. Não é à toa que os lambe-lambes, apesar de toda a investida tecnológica das máquinas comunicantes de agora – os smartphones e outros equipamentos de captação instantânea de imagens – continuam nas ruas fazendo suas 3×4.

Rostos em trânsito, interessados no resultado, na foto rápida, na fixação do retrato no documento novo, para depois guardar as que sobraram em gavetas empoeiradas; rostos em transe velando segredos, angústias, verdades. Na hora da foto o profissional tem que usar de “magia” para captar uma verdade ou sentimento, senão a foto não sai. É preciso fotografar o que a pessoa é. Capturar o seu instante. O momento da foto é íntimo e tem que acontecer um reconhecimento entre o fotógrafo e o fotografado. Esse contrato garante a foto. O lambe-lambe Claudemir Bezerra comenta que na hora da revelação “as pessoas dizem que ficaram feias, mas não dá para usar photoshop, tem que ser natural mesmo”. Que venha a foto, mas com uma emoção possível.

O pequeno drama da foto em 3×4 ilustra bem o que dizem alguns estudiosos da imagem e do fenômeno onto-social do rosto. Eles reforçam que o “vis a vis” é uma cena dramatizada, que faz quem olha e quem é olhado acreditar em alguma coisa. Ou seja, o rosto de alguém não é apenas o indício efêmero de uma presença. É uma história por contar. A imagem é uma confissão. O ensaísta argentino Alberto Manguel (2001), afirma que até Deus precisa ser capturado e narrativizado na sua existência carnal, já que na narrativa bíblica o homem feito de barro é uma reprodução daquele que o criou. E depois, o próprio Cristo terá a face representada no Santo Sudário.

A rodoviária do Plano Piloto com seus lambe-lambes é prova desse interesse arcaico do homem pelo ver-se e ser visto. Peter Sloterdijk (2016), autor da trilogia Esferas, obra contemporânea basilar sobre o homem em suas relações com o entorno, explica que rostos isolados puderam ser destacados por enquadramentos porque, com os novos paradigmas visivos do Renascimento, foi possível reconhecer um rosto como uma latência dramática a ser lida, mesmo quando na representação tranquila e aparentemente estática de uma foto. Ou seja, por trás da aparente rigidez de uma foto 3×4 se encenam emoções, hesitações, desejos, de onde se extrai justamente a individualidade de um rosto. A essência do retrato extrapola a objetividade da foto. Vai além das biometrias, dos registros penais, das carteiras de identidade e profissionais, medalhas, brasões e perfis em redes sociais. Todo rosto advém do espaço interfacial.

De acordo com as análises de Sloterdijk, “as primeiras percepções interfaciais não se interessam por significados e traços de caráter, mas por qualidades que transmitem familiaridade e alegria” (2016, p. 156). Ou seja, é o rosto agradável que comunica ao outro um espaço. O contrato, do qual falávamos. Há, assim, um empoderamento dos rostos atualmente. Não é à toa que as selfies estão formando uma nova cultura do rosto. Afinal, um rosto tem aura, já dizia Walter Benjamin.

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Especialistas veem reflexo social na cultura do lambe-lambe

Os registros em imagens sempre foram importantes para contar a história da humanidade. Primeiro com pinturas em cavernas, paredes, depois em telas. Com o avanço da ciência e os estudos sobre ótica, foram desenvolvidas as primeiras câmeras fotográficas mecânicas e hoje se vive a era da imagem digital com diversos recursos. Mas antes dessas máquinas, as imagens já eram construídas não só pela pintura, mas também pelas palavras. Textos como os de “Os Sertões” de Euclides da Cunha, assim como Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, descrevem os cenários com tal detalhamento que é possível vê-los. Clarice Lispector é outra grande fotógrafa da alma humana que usa as palavras como instrumento para seus registros.

Clarice Lispector diz em um de seus textos: “tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um quê? Um quase tudo”. O fotógrafo, pesquisador e professor Eduardo (Duda) Bentes considera que a “fotografia produz um sentimento difícil de ser expresso com palavras. É o que designamos de “experiência estética”. Para cada pessoa, uma fotografia pode ser uma porta/janela fechada para a interpretação, para o devir significante, outra pode ser a abertura/ponte para um passado cheio de referências dadas no presente. Assim, o “quase tudo”, é o presente possível de cada fotografia, uma poiesis”.

Mas o que esses registros contribuem para a construção da memória e do legado histórico? Para o antropólogo e historiador Frederico  Tomé, nesse sentido, os primeiros fotógrafos foram fundamentais “porque eram os condutores desse registro de memória. Imaginemos então um processo de memória bélico da guerra do Paraguai. Eles registraram essa guerra. Sob o olhar deles se começou a revelar para o Brasil, um Brasil que não se via. Um Brasil negro, um Brasil mestiço. Eles foram responsáveis por esse momento de ‘descoberta’ do Brasil, para todo o país”.

Efeitos sociais

“A principal contribuição social (dos lambe-lambes) é a prestação de serviço para a população a um baixo custo e expedito, tornando a fotografia – objeto/imagem – popular. Poderíamos falar de uma estética própria da precariedade das condições de trabalho e, para aqueles que fizeram suas coleções, um conjunto de imagens com informações diversas”, afirma Bentes. Segundo ele, Agenor Gomes de Faria foi um desses fotógrafos de rua que contribuiu para a divulgação da cultura. “Conheci Agenor e seu trabalho quando trabalhava no Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal, Secretaria de Cultura. Ele foi um típico fotógrafo itinerante que fazia das festas de santos e padroeiros seu roteiro de vida profissional. Ele vivia o Goiás e a construção de Brasília o atraiu”.

Em sua passagem por Brasília “produziu fotografia dos Candangos para que enviassem notícias da Nova Capital para as suas famílias. Ele trabalhava com negativos de vidro 10x15cm e imprimia as fotografias por contato, produzindo as cópias como ‘cartões postais’. Uma pena que seu trabalho tenha se perdido”, lamenta Bentes.

Frederico Tomé lembra que a partir da evolução tecnológica a fotografia se popularizou. “Os múltiplos olhares também se multiplicaram, se popularizaram”. Ele destaca que a partir desse momento a fotografia sai desse nicho dos lambe-lambes. “A profissão dos fotógrafos, em especial dos lambe-lambes, vem se reduzindo”, completa.

O contrato

Duda Bentes destaca que a fotografia é uma espécie de narrativa sobre pessoas, hábitos e costumes. E que existe uma espécie de contrato entre o fotógrafo e o fotografado para captação do melhor momento. “Acho bom que esse “contrato”, um de acordo, exista. A dita fotografia espontânea, aquela feita sem saber que se está sendo fotografado, só funciona bem depois de uma conversa e de declaradas as intenções do fotógrafo e do fotografado” afirma.
Tomé se recorda de uma foto 3×4 que “ficou para historia”.

Ele precisava renovar a carteira de motorista. Chegou ao estúdio, combinou, sentou e quando ia tirar a foto, a fotógrafa pediu para que ele sorrisse. Surpreso, sorriu e adorou o resultado. “Acho que isso se deu pela conversa, fiquei mais a vontade, mais natural e a fotógrafa conseguiu captar isso” conta ele, acrescentando, “ficou tão boa que todo mundo queria minha 3×4. Quando percebi que só tinha mais duas, fotografei a foto para guardar de lembrança”, sorri.

O legado

“Acredito que a fotografia passou a compor documentos de identidade a partir de 1850, com a invenção do papel albuminado que tornou a fotografia uma forma popular de expressão e foi incorporada no dia-a-dia das relações sociais com as carte-de-visite”, explica Duda Bentes. Nos séculos 19 e 20, assim como hoje, as pessoas se preparavam para serem fotografadas. Escolhiam as melhores roupas, lugares que tinham algum significado para suas vidas ou que gostavam.

Para Bentes, o ato de se deixar fotografar, ou encomendar o serviço de um fotógrafo representava “um momento em um ritual social: casamento, batizado, festas e documento de identificação”. Assim, o que a fotografia reproduziu, e ainda reproduz, são momentos desses rituais, uma visão parcial da realidade.  “Se imaginarmos as dificuldades iniciais de produzir uma fotografia, este era um momento preparado com muito cuidado; hoje, desde que a fotografia foi apropriada por amadores, com câmaras portáteis e celulares, o ritual se diluiu e a realidade se apresenta de forma diversa”. Para ele, mesmo com todos esses recursos, em cada fotografia, experimentamos uma dada realidade, recortada no tempo e no espaço, com uma perspectiva particular e objetos apropriados etc. “Enfim, um estado/momento que representa o acordo/entendimento entre fotógrafo e fotografado”.

Hoje, com o advento de tanta tecnologia de imagem, pode ser que deixemos como legado um real inexistente. Sobre isso Bentes destaca que essa é uma questão de caráter filosófico que tem inspirado muitos pensadores. “Muito se tem escrito sobre simulacros e simulações da vida, da sociedade etc. Uma realidade de segunda ordem, uma realidade mediada pela tecnologia. Se observarmos os fenômenos dos meios de comunicação e da indústria cultural, constatamos que a reprodutibilidade técnica colocou em ato uma realidade que representa o mundo da cultura que tem no imaginário sua fonte criadora”, explica.

“Em cada momento essa representação do real é feita, tendo em consideração, as possibilidades técnicas disponíveis. Então veja, nas fotografias do século XIX há um padrão onde as pessoas estão paradas, o corpo bastante rígido, numa posição ‘imexível’, se é que a gente pode utilizar esse conceito” explica Tomé. Sim, naquele tempo, a pessoa precisava mesmo ficar parada porque o registro era demorado e qualquer movimento colocava em risco a qualidade da fotografia.

“A gente vê o senhor com seus escravos vestidos. Talvez eles não usassem essas roupas no dia a dia, mas para a foto, que seria colocada numa parede, enviada para um jornal, era criada uma condição do real”, afirma Frederico Tomé. A tecnologia propicia coisas que rotineiramente não vemos ou percebemos.

Sobre isso Tomé afirma que “há algo na fotografia que me chama atenção que é o congelamento de um instante. São milésimos de segundo numa fotografia.” É como fazer presente algo do invisível “a fotografia é o inexistente, é a realidade do inexistente. Aquele momento do clique existiu, mas só foi possível tornar-se visível através da máquina e a partir da sensibilidade do fotógrafo. Essa questão paradigmática da fotografia ainda é colocada com o digital apesar das ferramentas e a possibilidade existente”.

Além disso, há um aspecto ideológico. Mais do que representar o real, a imagem conta a sua (própria) história. “Talvez hoje, mais do que nunca criamos o real, nessa perspectiva de que hoje se altera mais a realidade do que se alterava em momentos anteriores. Mas é inevitável você perceber que na fotografia tinham que constar a melhor roupa, o melhor cabelo, os melhores artefatos, os óculos, o relógio, então se criava a partir de uma necessidade de exposição para o outro. É uma questão paradigmática da fotografia que não vencemos ainda”, finaliza.

O fotografar e o ser fotografado

Como fotógrafo e professor da área Duda Bentes tanto fotografa como se permite fotografar e conta que se deixa guiar ‘pelo Sol e pela Lua’ e completa: “gosto da luz elétrica que guiamos para criar um ‘clima’. E gosto de conhecer quem fotografo e quem me fotografa. Não tenho nada contra ser fotografado e pratico o selfie quando com amigos, colegas e conhecidos. O selfie, o autorretrato, a primeira pessoa, é uma forma de abordar o tema na literatura e nas artes visuais”.

Frederico Tomé também busca uma interação com o fotógrafo e revela que desde criança sempre teve interesse. “O que me chama a atenção nos lambe-lambes é a questão do mistério, o romantismo associado à própria produção da fotografia. O apelido lambe-lambe vem daquele aparato tecnológico e da saliva pra revelar a fotografia. O que esse fotógrafo faz embaixo desse pano? Como é que ele maneja essas máquinas? Aquilo criava uma curiosidade que hoje, com as máquinas digitais, talvez não exista mais. O próprio movimento da revelação, e quem já revelou uma fotografia sabe, o quão é ‘mágico’ o aparecimento da imagem no papel. De onde vem essa feitiçaria encantadora da fotografia?”

Finalizando ele faz nova reflexão sobre o momento que vivemos: “Temos hoje o mundo desencantado, dessacralizado nesse sentido que tem a fotografia. A própria quantidade de imagens registradas hoje é incomensurável”. Tomé considera que é possível que hoje tenhamos dificuldades de lidar com tantas imagens. A consequência disso é a falta de cuidado com os detalhes, as minúcias de cada clique. “Fotografias antigas são o resgate de memória e a produção de memória, e isso também é feito hoje no mundo digital”. Talvez os lambe-lambes, pela sensibilidade que tiveram durante anos no seu fazer, consigam, a partir dos novos recursos de imagem, a sobrevivência num mercado, num universo muito outro, diferente daquele em que começaram”.

Por Zilta Marinho e Claudia Busato, da Revista Esquina

Filme foi produzido por Zilta Marinho e Claudia Sigilião. Com imagens de Malqui Alves, Raimundo Nonato, Raony Gomes e Wagner Moreira. Edição de Aline Santiago, Cleiton Mota, Ricardo Carreiro e Ronalt Fernandes. Música “Retrato 3×4”, cedida por Rafael Andrade

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira, Carolina Assunção, Isa Stacciarini e Katrine Boaventura

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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