Economista diz que argumento econômico para jogos de azar é falacioso; governo defende

A liberação dos jogos de azar no Brasil é tema de discussão no Congresso Nacional (projetos de lei 442/91, na Câmara, e 186, no Senado) com a esperança de que o novo mercado possa ser uma fonte alternativa de arrecadação de dinheiro para o Estado. Porém, essa ideia é uma “falácia”, segundo o pesquisador em economia Ricardo Gazel. Para o especialista, que já estudou o mercado de jogos de perto em Nevada, Las Vegas (EUA), a atividade traz “externalidades” que são ruins para o país bem como mitos como o aumento do turismo e geração de emprego.

O economista Ricardo Gazel é contra jogos de azar. Foto: Tereza Sá/UniCEUB/Divulgação

 

Segundo Gazel, existe uma ideia errada de que casas de jogos de azar possam trazer turismo para alguma localidade, pois os maiores frequentadores desses espaços são os moradores locais. “A maior parte dos países do mundo hoje tem cassinos. Então, por que viriam ao Brasil para jogar?”, explica. Ele exemplifica citando a África do Sul, que teve um aumento de visitas estrangeiras no país após Nelson Mandela ser solto, em 1990. A data coincide com a liberação de cassinos no país, porém o aumento do turismo se dá graças ao novo momento político na África do Sul.

Ricardo Gazel também comenta que a construção desses cassinos, embora gere um grande crescimento de empregos no início, cria uma problemática durante o funcionamento das casas. A justificativa do especialista é que a renda gerada por esse mercado depende da aposta dos jogadores e esses, por sua vez, desviam os seus gastos com outros segmentos econômicos para poder participar das competições.

O economista acrescenta que os problemas que advêm do jogo surgem, geralmente, a médio prazo, após o jogador se tornar compulsivo. Segundo ele, é nessa fase que as portas para facções criminosas atuarem ficam mais abertos. Gazel ainda afirma que o jogador compulsivo tem um custo muito alto para o Estado e que instituições como o Ministério Público (MP) e a Polícia Federal (PF) se pronunciaram dizendo não ter estrutura para fiscalizar os jogos no Brasil. “Sabemos que o Brasil não tem condições de suportar esse tipo de situação. A PF o MP já se manifestaram contra porque sabem que será um vasto campo de atuação para agentes criminosos, mafiosos, para o aumento de lavagem de dinheiro e todas essas questões que vamos ver muito claramente no brasil “, critica.

Os projetos de lei que tramitam tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados são amplamente criticados por Gazel. “Basta ver quem são os grandes apoiadores do jogo no Brasil e ver as listas de corrupção. A correspondência vai ser muito grande”, disse. Segundo ele, a indústria do jogo no Brasil está “permeada” por elementos criminosos e influência política. “Imagina quando legalizar, eles terão muito mais recursos, porque eles vão ganhar dinheiro e poder para influenciar a política como o jogo do bicho já fez no Brasil”, acrescenta.

Confira entrevista com o economista Ricardo Gazel:


O jogador compulsivo

É invariável que esse tipo de mercado gere viciados em jogos de aposta. Ou seja, pessoas com níveis de dependência comportamental que se igualam ao vício de drogas narcóticas.  No Brasil, segundo a doutora em psicologia Suely Guimarães não há serviço público especializado para dar suporte à essas pessoas. “Nem sempre as pessoas são preparadas e especializadas para lidar com esse tipo de paciente”, critica.

“A parcela de jogadores patológicos vai de 1% a 3% da população”, afirma Suely Guimarães

A psicóloga também afirma que os sintomas do jogador compulsivo são semelhantes aos usuários de drogas, como mentiras, afastamento da sociedade, depressão, ansiedade, dentre outros. “A dependência do jogo é reconhecido como patologia clínica há anos”, lembra.

 

Ministério do Turismo defende 

O Ministério do Turismo lançou uma pesquisa intitulada “Cassino: impactos e benefícios da legalização” a qual mostra diversos dados que tornam a liberação desse tipo de mercado algo saudável economicamente para o país. Na pesquisa consta uma previsão pós-legalização que geraria 300 mil empregos só na área dos bingos* e 500 mil no jogo do bicho (dados da Abrabin – Associação Brasileira de Bingos e do Estudo de uma modalidade de jogo no mercado brasileiro).  Além disso, a pesquisa também mostra argumentos para mostrar um possível aumento no turismo para o Brasil na questão de jogos. Dados estatísticos mostram outros países que tiveram um aumento na quantidade de visitantes estrangeiros no país após a liberação da jogatina.

Segundo os dados divulgados pelo Ministério do Turismo, 600 mil turistas por mês visitam cassinos argentinos. No Uruguai, legislação prevê jogos de azar com investimento privado e operação estatal. No Chile, 23 cassinos operam em todo o país. Ainda como defesa que em Las Vegas, há 30 milhões de turistas norte-americanos e 6,8 milhões estrangeiros. A pesquisa do governo ainda atribui aos cassinos aumento de emprego em Singapura, na Ásia.

Para o professor Ricardo Gazel, os dados são distorcidos e não significam desenvolvimento. Para ele, o movimento da economia faz com que recursos saiam de um setor para os jogos. “Inclusive, aumenta a necessidade de fiscalização. Na realidade, haveria uma perda de cerca de R$ 4,5 bilhões em impostos pela redução do consumo de outros bens e serviços”.

Por Bruno Santa Rita

Imagem de capa: Creative Commons

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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