Cores e brinquedos não têm gênero: famílias brasilienses educam filhos sem estereótipos

Por muitos anos existiu a convenção cultural de que as roupas e os brinquedos deveriam ser divididos por cores em estantes de meninas e estantes de meninos. Mas a realidade mudou. Muitos dos pais deixam os filhos livres para brincar com o que quiserem e, assim, estimulam o fim do estereótipo e do preconceito. Com a nova postura dos consumidores, até os fabricantes se adaptaram à modernidade. Alguns já criaram coleções com variedades que podem ser usadas por todas as crianças.

A figurinista Daniela Gimenez, 35 anos, fundou uma marca de calças legging sem gênero, a LegLeg, porque sentia falta das roupas de outras cores, além do rosa e que não tivessem laços, babados e brilho. Também queria vestir a filha de forma moderna, confortável e que a roupa pudesse ser usada por meninos e meninas. “As leggings podem ser usadas para brincar no parque ou para ir à festa, sem pensar em distinção de gênero”, afirmou a figurinista que acredita que a  divisão é cruel e desnecessária, porque impede o desejo do que a criança quer vestir.

Estudos da Universidade de Virgínia, feitos com crianças de 7 meses a 5 anos, apontam que as meninas até os 2 anos não têm preferência pela cor rosa. Os meninos de até  2 e meio também não têm opção certa e, inclusive, escolhem a cor de rosa.  Já àquelas com mais de 2 anos estão propensas a optar pelas cores que estão acostumadas a ouvir “que são de meninas ou de meninos”, segundo a pesquisa.

O aeroviário Antônio Alesson Coutinho, 22 anos, é pai de duas crianças, Helena e Miguel Coutinho de 1 e 2 anos, respectivamente. Depois do nascimento da segunda filha, Antônio percebeu que o filho se interessava pelas coisas da irmã. Ele notou que a criança não tem preferência por brinquedos e cores. Miguel e Helena dividem brinquedos e roupas. “Muitas vezes perguntam se a Helena é menino ou menina, porque ela usa muitas roupas que eram do Miguel e ele gosta de brincar com os brinquedos da irmã. Sempre diz que é o pai das bonecas dela”, contou.

Crianças são livres para brincar com o que quiserem. Foto: Júlia Fagundes/Agência de Notícias

Para a educadora Andréa Souza, as consequências da proibição das brincadeiras vão além da punição. A criança que é impedida de brincar com algo, por causa do gênero, reproduz o discurso dos pais de que algo é “coisa de menina”, “de Maria-macho”, dentre outras expressões. “Não é preciso obrigar uma menina a brincar com carrinhos ou obrigar um menino a brincar com uma mini cozinha, se eles não quiserem. O importante é deixar as brincadeiras acessíveis”, explicou.


A pedagoga especialista em educação infantil e designer de interiores Elaine Cristina Péres Lima, 33 anos, foi educada sem proibição de brincadeiras e escolheu repassar o ensinamento para o filho, Bernardo Péres, 1 ano e 9 meses. A educadora acredita que a maioria dos pais ainda não têm consciência da importância da diversão e apoia que o filho adquira os brinquedos que ele quer. “Eu frequento lojas que separam os itens por gênero, mas eu exploro tudo que o estabelecimento disponibiliza. Se ele quiser um brinquedo que está na estante de menina, eu compro”, declarou.
A professora contou que demorou a descobrir o sexo, mas queria comprar as roupas do filho. Quando ia às lojas infantis, os vendedores perguntavam o que ela desejava e qual era o sexo do bebê. “Eu não queria um filho que só usasse azul. Toda vez que eu queria comprar as roupas, questionaram-me em relação ao sexo e eu dizia que não importava, pois queria ver tudo que estava disponível”, explicou.


A estudante Lorenna Luiza Lima da Silva, 20 anos, é mãe de Hugo Lima, 1 ano e 9 meses. Lorenna acredita que a liberdade das brincadeiras melhora o desenvolvimento e o convívio com as outras crianças. Hugo já foi reprimido por familiares que não têm a mesma consciência que a mãe de deixar a criança brincar sem proibição. A estudante frequenta lojas que separam os produtos por gênero e acredita que seja uma questão de logística. “Eu concordo em separar os artigos. Fica mais fácil você saber onde encontrar um carrinho ou uma boneca. Cada estante é separada para isso. Isso não significa que eu vou impedir o meu filho de pegar algo de outras seções e outras prateleiras”, afirmou.

Para a psicóloga Rebeca Almeida Pereira Ribeiro as brincadeiras são fundamentais para que a criança possa aprender e compreender o mundo em que vive. “A separação das brincadeiras por gênero pode causar grande prejuízo para as crianças, por limitar o universo lúdico. Quanto mais ela for livre para explorar e descobrir, maior será a experiência e o aprendizado”, destacou.

A psicóloga contou, ainda, que os pais acreditam que as brincadeiras possam influenciar sobre a sexualidade da criança, mas ela vê como um equívoco, pois não se deve associar uma brincadeira ou jogo à sexualidade futura. Para a especialista, é preciso trabalhar a importância das brincadeiras com os pais, para que eles deem a liberdade para as crianças brincarem com o que desejam.

Divulgação/Facebook

As crianças que são criadas sem proibições já questionam as lojas e as empresas que separam os brinquedos por cores. O caso que repercutiu nas redes sociais da estadunidense Charlotte Benjamin, 7 anos,  que questionou uma empresa de brinquedos por não criar bonecas femininas que praticam esportes e, também, por elas terem profissões inferiores às profissões dos bonecos masculinos, além de só ter brinquedos femininos cor-de-rosa. A empresa respondeu a crítica e criou uma linha de bonecas aventureiras e de diversas cores.
Em julho deste ano, um garoto fez sucesso por criar um canal no YouTube em que ele ensinava crochê. José Ideíldo da Silva Júnior, conhecido como Júnior Silva, 12 anos, teve o interesse de fazer crochê ao observar a avó e a tia.

No entanto, em agosto, Júnior teve a página removida das redes sociais com a justificativa de que não tinha a idade mínima para praticar o crochê. A família acredita que as denúncias influenciaram, pois havia muitas críticas dizendo que o menino deveria estar brincando com outras coisas e que crochê seria para meninas. A página já voltou ao ar e a mãe administra totalmente as postagens.

Recentemente, uma escola pública de Itajaí fez sucesso na internet por induzir os alunos a passarem o recreio fazendo crochê. A iniciativa do colégio estimula as crianças com deficiência e tem o intuito de combater o preconceito, pois a instituição acredita que a atividade torna o ser humano mais sensível e amoroso.

Júlia Fagundes

Sob supervisão de Isa Stacciarini

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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