Violência diz “presente” na escola: pesquisa mostra quadro de insegurança no DF e GO

Raphaella, 16,  morreu baleada dentro do colégio em que estudava em Alexânia, em novembro. João Vitor e João Pedro, ambos 13 anos, acabaram mortos na escola que estudavam em Goiânia, em outubro. Ariel Bem Hur Costa Vaz, 32, tomou um tiro dentro do campus da universidade que estudava  em Goiânia. Os assassinatos neste ano em ambientes de estudo no Distrito Federal e em Goiás trouxeram à tona a facilidade com que armas de fogo chegam à sala de aula. Como se fosse coisa comum, a violência entrou na escola e, muitas vezes, de uniforme.

Apesar de 2017 estar marcado por casos de violência (como os citados acima), armas brancas e de fogo não são novidade nas escolas do país. O 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2015, compilou e analisou diferentes dados sobre segurança no país. Entre mortes de policiais, furtos e atendimentos à mulher em situação de violência, violência nas escolas se divide em três tabelas: análise da Prova Brasil com relação à escolas e alunos, percepção de diretores e professores sobre situações violentas e questões individuais destes funcionários. Aqui destacados os dados do DF e Goiás, estados das vítimas citadas.

 

 

 

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Em 1993, o jornalista e pesquisador Gilberto Dimenstein, no livro “O cidadão de papel”,  havia apontado a criança é o elo mais fraco e exposto da cadeia social. Se um país é uma árvore, a criança é um fruto. E está para o progresso social e econômico como a semente para a plantação. Nenhuma nação conseguiu progredir sem investir em educação, o que significa investir na infância. Por um motivo bem simples: ninguém planta nada se não tiver uma semente. A viagem pelo conhecimento da infância é a viagem pelas profundezas de uma nação. Isto porque árvores doentes não dão bons frutos.”

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Vinte e cinco anos após a publicação de Dimenstein o cenário parece mais caótico. Estudo elaborado durante o doutorado da economista Kalinca Léia Becker, USP, em 2013,  mostra que a cada investimento de 1% em educação, é possível reduzir 0,1% a criminalidade. Foram realizados dois ensaios e um deles comprova que a escola é um dos fatores com potencial de influência sobre o comportamento dos estudantes no sentido de reduzir a violência.

No Distrito Federal o Batalhão Escolar (BPEsc) atua com o apoio dos batalhões das áreas onde há escolas. Segundo a assessoria de imprensa da PM o “policiamento comunitário é desenvolvido por meio de parcerias com os Conselhos de Segurança, diretores e pais, com várias atividades cívicas criadas junto à comunidade escolar.”  Paralelamente é feito um policiamento preventivo com visitas técnicas às unidades educacionais, onde forem identificadas  necessidade de atuação. Em muitas situações realizam palestras nas escolas, para os alunos, pais e corpo docente. Posteriormente, são realizadas visitas para avaliação do alcance dos objetivos em um processo de monitoramento constante.  Sob a orientação do Batalhão escolar são realizadas operações ostensivas nas proximidades das escolas com policiamento a pé e motorizado. Há, ainda o policiamento repressivo visa coibir o uso de drogas e armas, assim como ações de trânsito realizadas no perímetro escolar.

Segundo a corporação, apenas no primeiro semestre de 2017  o Batalhão Escolar “efetivou 16.798 ações de policiamento preventivo, 131 ações de policiamento comunitário e 356 de policiamento repressivo”. Mas isso não tem sido suficiente e existem ações da chamada “Operação Varredura” que “consiste em abordagens dentro das escolas a pedido ou com autorização da escola; a Blitz Escolar, que consiste em vistorias no transporte escolar; a Escola Livre, que engloba todo o perímetro escolar com detectores de metal e a Operação Bloqueio Escolar, que abrange todas as anteriores em uma só”. Os policiais que atuam nesses serviços recebem treinamento específico e, no próximo dia 14, terá início o Curso de Especialização em Policiamento Escolar com aulas teóricas, práticas e de tiro.

Incivilidade

Esse problema não é novo. Em 2002, estudo da UNESCO intitulado Violências nas escolas feito com apoio de pesquisadores e entidades de 14 estados brasileiros, apresenta a incivilidade  como expressão de agressividade, insensibilidade para com direitos dos outros ou violência e que “requer cuidados para que as relações sociais no meio escolar sejam menos hostis.” O estudo, que faz referência a situação em outros países, acrescenta que “ na ordem dos delitos, a violência escolar na França passou, em meados da década de 90, a pertencer à ordem das “transgressões puramente comportamentais.” Essas “incivilidades” quando ocorrem contra pessoas e não contra objetos, coisas, podem se manifestar como intimidações físicas e na forma verbal como injúrias, xingamentos e ameaças.

A análise  destaca ainda que a prática pública “de atos considerados ilícitos como o porte e o consumo de drogas, ou a transgressão aos costumes, também se enquadraria nas incivilidades”, o que reforça o argumento de Dimenstein no sentido mais amplo da educação e não apenas como um problema da escola ou de classes menos favorecidas.O próprio estudo da UNESCO destaca, quando cita Payet (1997); “Os estabelecimentos de ensino têm certamente o status de lugar original, mas o ‘problema social’ é construído em outros cenários”

Os argumentos policiais

Além do Batalhão Escolar, a secretaria de Segurança Pública e Paz Social do Distrito Federal tem dois programas que têm como foco estudantes: o “Viva Brasília nas Escolas” e o “Esporte à Meia- Noite”. O primeiro tem por objetivo “integrar órgãos governamentais, sociedade civil e movimentos voluntários no desenvolvimento de ações que diminuam a criminalidade envolvendo a juventude” e, para o projeto piloto iniciado em 2016 foram mapeados 22 escolas que onde se concentra 22% das ocorrências em ambiente escolar.

O “Esporte à Meia-Noite, também iniciado no ano passado, começou atendendo meninos e meninas em conflito com a lei. O objetivo é oportunizar a socialização e estimular o potencial,  por meio dos esporte, dos adolescentes assistidos pelo Estado.

Em Goiás, onde as estatísticas assustam o Gerente de Articulação institucional da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado, Madson Rodrigues Ribeiro conta que o Pacto Social Goiás pela Vida é uma estrutura que trabalha com a segurança pública primária, que é a segurança pública preventiva tem uma linha de atuação que está sendo desenvolvida em relação a questão das escolas mas com foco no jovem contraventor dentro do ambiente escolar.”Nesse caso há uma parceria entre a SSP, a Secretaria Cidadã que é quem tem a gerência especial da criança e do adolescente, a Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) e o Ministério Público. O objetivo é evitar a reincidência ou a permanência no crime”. O trabalho é feito nas unidades de recolhimento com a ocupação dos jovens em diversas ações desportivas, culturais, educacionais com a volta para a escola,  e uma parceria com o Sesi para a educação profissional abrindo perspectivas futuras. Segundo Madson Ribeiro a procura pelo programa foi além das expectativas e esperam ter o mesmo sucesso com as outras etapas que consistem em uma segunda fase de acompanhamento multidisciplinar após a internação desses jovens e a terceira fase é a inserção no mercado de trabalho.

Ouça  entrevista com Madson Ribeiro

 

O presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Goiás, Railton Nascimento, tem acompanhado a questão da violência em todo o estado, em especial o caso do Colégio Goyases onde um aluno matou a tiros dois colegas. Sua opinião para mudança de cenário passa necessariamente pela educação. Segundo ele as pesquisas apontam o Brasil como o campeão da violência e não validando o mito de que o brasileiro é pacífico. “Em Goiás a cada esquina que você anda, você tromba com uma viatura, uma moto, polícia ostensiva” destaca Railton Nascimento. “Goiás tem disputado aí no ranking uma posição de destaque. É o segundo no ranking nacional de violência contra a mulher, os índices de violência na escola tem aumentado.” Ele ressalta inclusive casos de professores agredidos por pais de alunos.

Ouça o que  diz Railton Nascimento sobre a violência

Mas ouça também o que diz Railton sobre caminhos para mudança desse cenário

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