A hora da mesada: o começo da relação da criança com o dinheiro

A maneira correta de ensinar as crianças a lidar com o dinheiro gera divergências entre pais, especialistas e, claro, crianças. A reportagem entrou em contato com famílias de diferentes realidades econômicas para saber como tratam do consumo dos filhos, o que gastam com o dinheiro que ganham e o que gastariam. Objetos tecnológicos estão na lista dos mais cobiçados.

A bancária Carolina Chaves, de 43 anos, mãe do Francisco, de oito, explicou que a forma que encontrou de explicar para o filho o valor do dinheiro foi destacar que é fruto de muito trabalho.

Ela ainda não dá mesada pra ele. Quando ele precisa de dinheiro, ela dá o suficiente para o que ele vai precisar, mas acha importante que ele já comece a ter contato com o tema. Ela planeja começar a dar mesada no ano que vem. Na opinião de Carolina, ele vai escolher gastar dinheiro com jogos e brinquedos. “Nunca o ouvi dizer: ‘vou ganhar dinheiro pra ajudar a pagar a conta de luz, ou pra ajudar a comprar coisas de supermercado’”.

O próprio Francisco disse que, se tivesse dinheiro,compraria “um videogame bem pequeno, tipo portátil.” Assim como outras crianças na era tecnológica, ele prefere jogos eletrônicos. O que mais se divertesãocom os jogos para tablet. Porém, a mãe diz o contrário. “Aqui em casa tem horário para jogos eletrônicos. Ele ainda brinca mais na rua”.

 

Na opinião da psicóloga Penélope Ximenes, que trabalha com crianças e adolescentes, não existe um momento certo para começar a dar mesada. “Depende muito da cultura dos pais, dos valores, do nível de desenvolvimento da criança, porque duas crianças de oito anos não são iguais.” Exalta, também, que quanto mais velha for a criança, com certeza ela vai compreender o valor do dinheiro.

Segundo ela, existe a alternativa de dar “semanada”. “É uma forma boa de controlar e de ajudar a criança, porque mesmo um adolescente (entre doze e quinze anos), ele ainda não tem noção do valor total do dinheiro, ele não tem muita noção de futuro. Então quando você der por semana, você ajuda a criança e o adolescente a ter esse auto-controle, que é uma coisa difícil de conseguir. Muitos adultos mesmo não têm.”

“Os pais nunca, jamais, devem dar mesada/semanada/dinheiro para premiar comportamentos do tipo, ‘foi bem na escola’, ‘realizou uma tarefa de casa’, porque se não você condiciona o comportamento da criança (…)”, aconselha a psicóloga. Ela finaliza esse pensamento comparando esse tipo de costume a vida real, a vida adulta: “A gente não pode condicionar a criança com dinheiro, porque ela fez uma coisa que ela já deveria fazer e vai ser premiada por isso.”

Penélope lembra também da ação dos pais quando tiram a mesada, ou diminuem o valor dela, como forma de punição por algo que a criança fez ou deixou de fazer e ressalta que isso deve ser bem pensado. É preciso avaliar se essa mudança irá realmente afetar a criança a ponto dela mudar de comportamento.

Isadora, de nove anos de idade, já recebe mesada. Ela diz que gosta mais de brincar com o tablet, mas também adora jogos de tabuleiro. A mãe dela, Fernanda Lima, conta que a mesada é um “valor simbólico para começar a aprender a lidar com o dinheiro”. Ela ressalta a importância da participação dos pais e da escola nesse processo.

 

 

Fernanda Silva afirma que o “sonho de consumo” da Isadora, assim como de crianças com acesso à internet, é comprar tudo que é apresentado nos anúncios comerciais nas diferentes mídias. Tablet, skate elétrico estão na lista. Mas também sonhava com brinquedos mais “tradicionais”, como uma bicicleta, um patins e patinete.No fim de semana seguinte à entrevista, foi o aniversário de nove anos da Isadora e ganhou de presente o skate elétrico.

Antes das novas tecnologias, era normal se divertir movimentando todo o corpo, correndo e pulando. Ainda se faz tudo isso, porém apenas de forma virtual, apenas com o movimento dos dedos na tela de touchscreene/ou nos botões dos controles. A professorade comunicação Joana Bicalho, especialista emmarketing humanitário, ressalta a importância da movimentação do corpo e que “os jogos de rua e de tabuleiro são fundamentais” para isso.

Em pesquisa feita por uma empresa de software, a AVG Technologies, em 2014, com famílias pelo mundo todo, foi constatado que 66% das crianças entre três e cinco anos de idade conseguiam jogar jogos de computador, 47% sabiam como utilizar um smartphone, mas apenas 14% eram capazes de amarrar os cadarços. No Brasil, especificamente, cerca de 97% das crianças com idades entre 6 e 9 anos usam internet e 54% tem perfil no Facebook. Segundo Joana, a mídia voltada pra criança, no Brasil, “já é proibida em outros países” e “não conversam diretamente numa linguagem para a criança.”

“Se acabar, não tem mais”

Vivendo numa realidade diferente, Maria Luciene da Silva, de 43 anos, vive com a família (o marido e dois filhos, um de 20 e outro de 14) em uma chácara no Paranoá. Lá ela trabalha como faxineira e o marido é caseiro. Rodrigo, seu filho mais velho, já está cursando a graduação e trabalha. Logo ele não precisa mais receber mesada. Mas para o mais novo, Rafael, Maria Luciene diz que dá dinheiro por mês, porém não é a mesma quantia por mês. “Eu tento passar para ele que aquela quantia e pronto. Se acabar não tem mais”, disse ela.

A simplicidade da família fica evidente quando Lu responde o que o filho compra com o pouco que ele ganha por mês: “Normalmente, ele junta para comprar algumas coisas que ele quer e eu não tenho condições de dar, tipo um celular ou um tênis melhor.” Segundo Rafael relatou, desde pequeno tem o costume de brincar mais fora de casa, andando de bicicleta, jogando bola e entre outras brincadeiras. E o mais próximo que ele chega do mundo tecnológico é por meio de vídeo-game e computador, que é o que eles têm acesso.

Gasto com “bobagem”

Fernanda Galvão é mãe de Gael, de nove anos de idade. Ela dava mesada para ele, mas deixou a prática ao perceber que ele não gastava o que recebia. A mãe continuava pagando as coisas para ele. “Ou ele acabava perdendo o dinheiro ou gastando com bobagem, muito sem importância. Então eu achei que ele não tava entendendo o valor do dinheiro e parei”. Porém ela opina que, se for feito com mais método, junto com uma melhor educação financeira, deve funcionar, mas não foi o que ela fez.

Gael mora com a mãe, o padrasto e sua irmãzinha em uma casa no Lago Sul e tem espaço de sobra no quintal para brincar com coisas que não o mantém dentro de casa. Ao perguntar a Fernanda o que ele consome mais, não difere muito das respostas da maioria das crianças nessa matéria. “Spinner, que estava na moda, uma chuteira do Neymar, que ele se apaixonou, enfim, de tempos em tempos vão surgindo mais objetos novos de desejo para ele, principalmente da moda, da escola”, diz ela, evidenciando o poder da mídia.

Ainda sobre o tema

Clarice Lispector fala sobre o tema da relação da criança com o dinheiro em seu livro “Laços de Família”, no conto “Começos de uma fortuna”, que conta a história de um garoto obcecado por dinheiro, que não se divertia direito como todas as crianças, pois estava sempre preocupado com não gastar o seu dinheiro, enquanto seus amigos não estavam nem aí e a única preocupação deles era aproveitar a infância.

Leia o conto aqui

Por Amanda Gil

Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira

 

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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