Alfabetização: eles passaram décadas longe dos livros e agora voltaram a estudar

“Comecei a estudar ano passado, depois de ter sido interrompida e ficar 20 anos sem tocar nos livros”. O lamento é de Edneide Ferreira, de 48 anos, estudante da 5ª série. Ela explica que precisou largar os estudos por não haver possibilidade de deixar as filhas em creches, além de um problema de saúde do marido. “É muito difícil conciliar tudo. Quando parei, precisei cuidar dos meus filhos, do meu marido e do meu trabalho de diarista”, explica. Agora, está entusiasmada.  “Estou empolgadíssima. A matemática é o vilão da minha vida, mas eu chego lá. A gente não desanima não, eu vou terminar com fé em Deus”.

De acordo com a pesquisa metropolitana por amostra de domicílio (PMAD), da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (CODEPLAN), dentre as regiões administrativas de Brasília, as que apresentam maior índice de analfabetismo, são Fercal, com  6,3% dos moradores sem ler e escrever, e Estrutural, com um total de 7,3% de moradores que vivem na mesma situação.

Já entre as cidades do entorno de Brasília, Cocalzinho, Alexânia e Planaltina são as três que mais apresentam casos de analfabetismo. Cocalzinho aparece com 6,4%, Alexânia com 6,39% e Planaltina com 5,5% de pessoas que declaram não saber ler e escrever.

Elaine Oliveira é professora do EJA no Centro de Ensino Médio Escola Industrial de Taguatinga (CEMEIT) e há 21 anos trabalha na área da educação. “Venho dar aula com muita satisfação porque os alunos têm muita vontade de aprender. Infelizmente, falta pré-requisito, muitos trabalham até tarde então chegam cansados, o que reflete no desempenho. Além disso, a trajetória de vários deles é muito difícil”, explica.

Ouça entrevista da professora

A professora explica que houve uma redução no número de alunos estudando durante a noite, no programa. “Temos até medo disso tudo acabar. Antigamente, em Taguatinga nós tínhamos várias escolas, agora só temos três. Muitos alunos deixam de estudar por causa disso”, lamenta. 

Apesar dos problemas enfrentados para fornecer uma educação de qualidade aos alunos, a professora se mostra satisfeita em ensinar. “Todos os estudantes que estão aqui são muito inteligentes, mas falta escolaridade. Então a gente incentiva e mostra para eles o quão importante é a educação. Você ganha de todas as forma”, completa.

30 anos longe da escola

Trabalhar, mas continuar com sede por conhecimento. Foi assim que Reinaldo Ladislau passou vários anos sem ter acesso ao ensino. “Nessa brincadeira eu passei 30 anos trabalhando e não parei mais.”

“Eu decidi diminuir o trabalho e voltar para o estudo”, diz Ladislau

Hoje, aos 60 anos de idade, Reinaldo chegou à quarta série e parou de estudar por falta de tempo devido seu trabalho. “Eu fiz a quarta série no Piauí. Fui para São Paulo com 13 anos e comecei a estudar de novo, mas parei”.

Depois de tantos anos se dedicando ao trabalho e deixando os estudos em segundo plano, através do EJA Reinaldo voltou a estudar. “Eu decidi diminuir o trabalho e voltar para o estudo”, explica. Em fevereiro deste ano, ele agarrou a oportunidade de voltar para a sala de aula e, com muita força de vontade, não perde as aulas todas as noites durante a semana.  “Agora eu só vou parar quando eu formar”, afirma feliz.

Trabalho infantil afastou dos livros

Após quase 30 anos sem estudar, Rosimar Alves da Silva, que hoje tem 42 anos, voltou para a sala de aula há quatro anos. Ainda muito nova, ela interrompeu os estudos após terminar a primeira série na Bahia e começou a trabalhar em casa de família. “Comecei a trabalhar muito cedo na casa dos outros. Vim para cá com 13 anos, continuei trabalhando e não tinha tempo para estudar” conta.

Aos 18 anos, Rosimar se casou, teve uma filha e depois de 15 anos se separou. “Eu terminei de criar a minha filha sozinha e não tive tempo porque a minha vida era casa e cuidar da minha filha”, relata.

Sobre seu processo de aprendizagem, Rosimar transmite alegrias. “Quando eu chego aqui que eu vejo tudo acontecer, eu penso que, mesmo nos dias que eu estiver cansada sem querer vir, vale a pena porque eu estou ouvindo e aprendendo” afirma.

Marlí Peixoto tem 43 anos e trabalha vendendo pão de queijo congelado junto com o marido Paulo Roberto, também estudante do EJA. A aluna da 2ª série conta que voltou a estudar após 28 anos longe dos livros. “Antigamente eu morava com o meu avô, não tive oportunidades. As mães quando tinham filhos precisavam largar os estudos”, explica. 

Marli Peixoto voltou a estudar após 28 anos longe da sala de aula

“O estudo muda sua vida. Muda seu modo de falar, a visão da gente parece que vira outra. Antes, parece que havia uma parede na minha frente, hoje já não há mais. Voltar a estudar é tudo, te dá segurança. Agora é só ir pra frente”, completa.

Educação de jovens e adultos

Em nota, a Secretaria de Educação do DF afirma que oferta, constantemente, o primeiro segmento da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que corresponde à alfabetização. As aulas acontecem em escolas das 14 Coordenações Regionais de Ensino e as próximas matrículas para ingressar no EJA poderão ser feitas a partir do dia 19 até o dia 29 de junho pelo 156. Além dessas 14 escolas, afirma ainda existem parcerias com instituições público-privadas que têm como objetivo alfabetizar os servidores destas organizações. 

Por Ana Paula Teixeira e Nathalia Carvalho

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção