Conheça a história de Nísia Floresta, primeira jornalista feminista do Brasil

Em 12 de outubro de 1810, nasceu Dionísia Gonçalves Pinto, que adotou o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta, precursora de ideais feministas em textos publicados em jornais, na cidade potiguar de Papari, que hoje leva o nome da escritora. 

Na época, as mulheres iniciaram o processo de alfabetização e se interessando pela leitura. Alguns homens, ao perceberem a mudança nos costumes das senhoras – que antes viviam em função de afazeres do lar e agora atribuíam a leitura como passatempo –, se apressaram em oferecer jornais destinados às leitoras.

Mesmo havendo uma imprensa própria para mulheres, quem dirigia e escrevia eram apenas os homens. Isso mudou em 1831, quando Nísia começou a escrever para O Espelho das Brasileiras, jornal editado em Recife. Em 30 publicações, todas com Floresta como redatora, o periódico expunha as condições precárias das mulheres, e defendia a instrução moral e cívica das mesmas.

Outros jornais foram influenciados pel’O Espelho, contando com a presença feminina em suas redações, e logo periódicos fundados por mulheres foram se formando no país. 

A maioria das escritoras começou a carreira literária nos jornais antes de se atreverem a escrever livros, e com Nísia não foi diferente, porém o processo de transição foi incrivelmente rápido, visto que seu primeiro livro, Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens, foi publicado apenas um ano depois de sua participação na imprensa. A obra foi inspirada no livro Vindications of the Rights of Women, de Mary Wollstonecraft, precursora do feminismo na Inglaterra, escrito quarenta anos antes, e foi o primeiro livro no Brasil que falava sobre a instrução da mulher. Aliás, foi o primeiro no país escrito por uma mulher.

A autora tratou de muitos assuntos em sua carreira literária, como abolição, direitos indígenas, sufrágio, mas o tema mais debatido por ela, e também o que mais lhe gerou repercussão (negativa e positiva) foi educação e emancipação feminina. Na época, a educação era negada às mulheres por ser considerada desnecessária, mas Nísia mantinha o argumento que elas precisavam da educação para serem livres.

Nísia Floresta foi a pioneira do feminismo, periodismo e literatura de autoria feminina no país, mas sua importância vai além: em 1838, funda, no Rio de Janeiro, um dos primeiros colégios exclusivos para meninas, o Colégio Augusto. A legislação brasileira previa escolas femininas desde 1827, porém o ensino era limitado à educação do lar. O Colégio Augusto, então, previa as mesmas aulas que os meninos recebiam, como matemática, português e história.

Na década seguinte, a escritora se muda para Europa, onde a maioria de seus livros e colunas para jornais foram publicados. Mesmo em uma época de divulgações e distribuições limitadas, as obras de Nísia obteram muita repercussão no exterior, sendo mencionada em inúmeros jornais até o final do século XIX. Mas ela não conseguiu escapar das críticas de quem era contra seus pensamentos, e, aos poucos, do esquecimento, assim como a maioria das escritoras de sua época.

Seu trabalho voltou a ter reconhecimento devido ao resgate de obras de autoria feminina, processo comandado pela pesquisadora Zahidé Muzart nos anos 1980, com o objetivo de dar fim a invisibilidade das mulheres na literatura. Muitas escritoras, professoras e outras pesquisadoras se uniram à Muzart para criar o livro Escritoras Brasileiras do Século XIX, publicado em 1999. A responsável pelo resgate das obras de Nísia foi Constância Duarte, autora do livro Nísia Floresta: Vida e Obra, de 1995.

Entretanto, o trabalho de Nísia não é completamente esquecido. O Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta foi criado com a função de debater a produção jornalística que trata de questões que interessam o público feminino, principalmente a cobertura sobre violência contra mulheres e direitos sociais, políticos e econômicos. Segundo a fundadora do coletivo, a jornalista Vanessa Fogaça Prateano, a escolha de homenagear Nísia foi por ela ter sido precursora do trabalho que desempenham hoje. “Além de escritora e educadora, ela também escrevia para jornais, e foi defensora dos direitos das mulheres em uma época em que, de certa forma, era ainda mais perigoso se colocar como tal”, explica.

Para a jornalista, é importante resgatar a história de brasileiras que lutaram pela emancipação das mulheres, pois isso não dá a elas o devido reconhecimento, como também mostra que as mulheres brasileiras têm lutado politicamente há muito tempo. “É uma forma de contribuir para o resgate da história das mulheres brasileiras na esfera pública. A Nísia foi uma dessas mulheres, por isso a escolha”, conta Vanessa. 

A cidade onde Nísia nasceu teve seu nome mudado em sua homenagem em 1948. De acordo com a Prefeitura da cidade de Nísia Floresta, desde o início do ano de 2017, as escolas municipais são orientadas a trabalharem sua história no currículo escolar local. Os cidadãos da pequena cidade de cerca de 23 mil habitantes estão começando a familiarizar-se com a obra da autora, mas ainda há muito com o que trabalhar.

Em 2012 foi inaugurado, na cidade, o museu da escritora, com o objetivo de conservar a história da educadora, além promover atividades de promover atividades de artes e cultura para visitantes. Elaborado e mantido por uma ONG, em apoio a Prefeitura, essa tem sido uma das ferramentas mais importantes na difusão de conhecimento a respeito da escritora.

O jornalista José Maria Gonçalves trabalha no município de Nísia Floresta há 22 anos, já que reside em São José de Mipibu, cidade vizinha. Ele conta que as pessoas da cidade da escritora ainda desconhecem quem foi a mulher cujo nome denomina a própria cidade em que vivem. “Dado à sua importância, os nisiaflorescenses deviam saber na ponta da língua quem ela foi, mas não é isso que acontece. Se soubessem, talvez o Brasil e até o mundo seria diferente, porque ela foi fundamental para a educação brasileira”, conta.

Bruna Cavalcante, de 22 anos, conheceu a autora ao cursar pedagogia. Em aulas sobre mulheres que fizeram a diferença, aprendeu sobre a vida de Nísia e sua escola de meninas, cujo ensino se equiparava ao de colégios masculinos. “Uma de minhas referências é a Nísia, porque a forma como ela abordava a educação em uma época em que as mulheres não tinham voz me deixou ainda mais apaixonada pela educação”, revela. 

A estudante considera a escritora um dos maiores motivos para ter prolongado sua permanência no curso.”Ela teve uma contribuição essencial para nossa história que poucas pessoas sabem. Me entristece saber que uma mulher batalhou tanto para isso e é esquecida hoje em dia. Acho que a educação devia agradecer muito à Nísia”, confessa.

Nísia Floresta morreu com 75 anos, na cidade de Rouen, na França, de pneumonia. Foi enterrada na cidade, e só em agosto de 1954 seus restos mortais foram levados a sua cidade natal. Hoje em dia, o mausoléu onde os guarda vive praticamente abandonado.

A escritora fez história ao enfrentar tudo aquilo que lhe foi imposto, desde os 14 anos, no início do século XIX, quando fugiu de um casamento forçado com um dono rico de terras, e também durante a vida inteira, a cada texto publicado, e ao dirigir um colégio para meninas. Nísia batalhou pelo que acreditava e nunca desistiu. Ela merece continuar “viva” por nós, no nosso cotidiano, na literatura. Uma mulher tão importante quanto ela não merece ficar esquecida nas estantes.

Por Letícia Cunha

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção