Entorno: adultos buscam alfabetização e novas esperanças

Moradora de Valparaíso de Goiás (GO), Leny dos Santos, trabalhava na roça quando criança para ajudar os pais. Irmã mais velha de 13 irmãos, não teve oportunidade de estudar na infância, por isso não foi alfabetizada. Hoje, aos 52 anos, Leny , revendedora de produtos de beleza, decidiu correr atrás dos estudos para conseguir ao menos trabalhar sem precisar de auxílio na hora das vendas. “Eu trabalhava como terceirizada de serviços gerais, porém, fui demitida e ficou difícil encontrar outro emprego na minha idade. Comecei a revender perfume. Queria aprender a ler e escrever para conseguir vender sem precisar de ajuda”.

Além do esposo, professores a incentivaram para seguir na caminhada. As aulas à noite não impedem que ela se dedique aos estudos mesmo depois de um dia cansativo. “Só sei escrever meu nome e estou correndo atrás. Quem não sabem ler é cego, mas cheguei até aqui e me considero uma guerreira”, afirmou Leny.

Dados da última Pesquisa Metropolitana por Amostra de Domicílios (PMAD, 2017) mostram que, na cidade de Valparaíso de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, entre as pessoas com 15 anos ou mais, 2,9% (5.077 pessoas) são analfabetos (que não sabem ler nem escrever ou apenas sabem assinar o próprio nome) e 1,9% (3.354) sabem apenas ler e escrever (que sabem ler e escrever pelo menos um bilhete simples, sem ter frequentado a escola).

Na cidade de Valparaíso de Goiás, o projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA) é aplicado em quatro escolas municipais, sendo elas: Ipanema, Valparaíso 2, Caic e Céu Azul. Katia Barbosa é professora há 23 anos, trabalha no projeto EJA há 20 anos e conta que esse formato de estudo surte efeito positivo na vida de quem participa. “Para aqueles senhores que já têm a idade avançada e nunca puderam ir a uma escola, que nunca foram a escola se alegram por aprender a escrever o próprio nome e assinar os próprios documentos. Para eles é muito importante essa participação”.

Os alunos que integram esse projeto passaram por realidades onde não tiveram acesso a escola, interromperam os estudos, ou estão atrasados nas séries. Porém, esse modelo encontra dificuldade para seguir, pois o aluno costuma se matricular mas não conclui os estudos. “Outros desistem por não querer nada com os estudos. Isso quando são aqueles alunos mais jovem”.

Aparecida Lopes, 42 anos, interrompeu os estudos ainda na adolescência e retornou para a escola já na fase adulta. “Sempre quis terminar meus estudos, apenas faltou oportunidade antes. Busquei estudar por esse projeto por ser um meio mais rápido para terminar os estudos”, contou. Apesar de ter filhos, isso não impediu que ela tivesse a escolaridade básica completa. “Na época, eu só estudava e cuidava dos meus filhos. Então me dediquei ao máximo para ter um bom aprendizado. Conclui em três anos e meio”, explicou.

A conclusão do ensino básico abre um leque de novas oportunidade para esses alunos, inclusive de forma profissional. “O aprendizado que adquirimos durante os estudos serve para vida toda. Depois disso, trabalhei quatro anos  e quatro meses pela Secretaria Municipal de Educação, de Valparaíso de Goiás”, disse Aparecida.

No entanto, o projeto que busca oferecer ensino básico à pessoas que interromperam os estudos ainda jovem, ou não tiveram oportunidade de ingressar na escola, não surte um resultado positivo para todos os profissionais. Mary Oliveira, professora do Ensino Público de Valparaíso, trabalhou três anos no EJA e conta que sua experiência trabalhando nesse método de ensino não foi positiva. “Quando o aluno chega na sala de aula, cabe ao professor fazer também um trabalho de inclusão social. A gente tenta principalmente trabalhar a autoestima com eles, fazer com que eles se sintam parte da sociedade. Agora, alfabetizar é um desafio enorme, é um trabalho de formiga. Acredito que quanto mais velho  a pessoa fica, mais difícil de ser alfabetizada.”

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O índice de evasão dos alunos do EJA na metade do processo, ou desinteresse é grande e acaba desestimulando o profissional. “Acaba que o professor cansa e cansa o aluno também. Hoje em dia eu não vejo muita perspectiva de avanço do projeto. O aluno costuma chegar muito cansado do seu dia e nós não temos um suporte até para fazer um projeto interessante. Isso faz com que seja empurrado com da barriga”, explicou a professora.

A última pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep, 2015) sobre fluxo escolar indica que, no município de Valparaíso de Goiás, a taxa de evasão escolar no Ensino Fundamental é de 3,2% e no Ensino Médio é de 11,8%, e a taxa de migração do ensino regular para a Educação de Jovens e Adultos é de 0,9% no Ensino Fundamental e de 1,6% no Ensino Médio. Os resultados da última Sinopse Estatística da Educação Básica realizada também pelo Inep, publicados em 31 de janeiro de 2019, mostram que na cidade de Valparaíso de Goiás, um total de 2.676 matrículas da EJA foram realizadas, sendo 1.179 no Ensino Fundamental, com 1.051 na rede municipal e 128 na rede estadual, e 1.497 no Ensino Médio, com 1.380 na rede estadual e 117 na rede federal.

Dados da última Pesquisa Metropolitana por Amostra de Domicílios (PMAD, 2015) feita pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) apresentam que o número de pessoas com EJA Fundamental incompleto é de 419 (0,24%), e com EJA Ensino Médio incompleto, 326 (0,19%). O número de pessoas com EJA Ensino Médio completo é de 512 (0,29%). Outro levantamento da Codeplan publicado em 2015 sobre o nível de Escolaridade e falta de motivação para estudar na Periferia Metropolitana de Brasília relata que 3.397 pessoas paralisaram os estudos na Educação de Jovens e Adultos em Valparaíso de Goiás.

Por Lizandra Costa e Ingra Fernandes

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção