Adoção: De crianças especiais para filhos

Gerar. Amar. Esperar. Essas são fases que podem ajudar a definir a gravidez. Por nove meses ou não, constituir uma família vai muito além de uma gestação biológica. Verdadeiras histórias de amor não estão espelhadas apenas em assistir a uma barriga crescer. A gravidez invisível, termo para designar o processo de adoção, se faz de encanto e amor incondicional, concreto e, sim, natural. Como é o caso da vida da engenheira Thaísa Paixão, que, aos 38 anos de idade, decidiu que era hora de construir a família. A lista de adoção foi a primeira alternativa e como mãe solteira. Foi através da melhor amiga, uma enfermeira, que ela conheceu Marcos, na época com quatro meses. Amor à primeira vista. “Foi em uma reunião de amigos que tudo começou. Ela estava abalada, contou que uma mulher havia abandonado o bebê após o parto e que a criança havia sido diagnosticada com citomegalovirus, hepatite C e HIV”, lembrou.

Thaísa contou que não conseguia parar de pensar no que havia escutado. “Decidi ir ao hospital. Comprei mamadeira, chupeta, roupinhas e sapatinhos”. As visitas começaram a ser constantes, mesmo quando não conseguia entrar buscava informações. “Quando ele fez dois meses eu peguei no colo pela primeira vez. Senti meu coração acelerar. Comecei a chorar. Foi naquele momento que decidi ser mãe, mãe do Marcos”, contou. O processo não foi demorado. Com quatro meses Marcos estava na casa da engenheira. “Minha família me apoiou. Ainda acompanham os tratamentos e formação do meu filho, que hoje tem seis anos”, relatou.

 

Olhos do coração

“Eu não me imaginava com um filho especial. Tinha medo de engravidar e ser surpreendida com alguma deficiência”, revelou a contadora Paula Rodrigues, que nem imaginava realizar uma adoção. Quando completaram quatro anos de casados, Rogério esperava a notícia de uma gravidez. Os exames apontaram que tudo estava normal. Ele cogitou a adoção, ela rejeitou. “Era meu sonho ser pai, na época eu fiquei chateado com ela. Pensei em divórcio”. Rogério iniciou as buscar por uma criança. Do consensual a adoção tradicional. Ele passou a visitar abrigos e um dia conheceu Paulo, o Paulinho.

“Fui na direção dele sorrindo e com os braços abertos, mas ele não respondeu meus gestos, foi quando ouvi “ele é cego”.   O ditado diz que “o amor é cego”, mas o coração não é. A insegurança bateu. Medo de não conseguir ser pai, da família rejeitar e da reação de Paula. Rogério colocou o nome da lista, sem que Paula soubesse. “Foi um choque. Só fiquei sabendo quando nos chamaram para as avaliações. Não sabia da deficiência”, contou a mãe.

No caminho as informações surgiram. Seis meses de espera e na véspera de Natal a autorização foi dada. A casa passou por adaptações para atender a Paulo, que na época tinha três anos. “Foi o Natal mais feliz. Ganhei uma bola que faz barulho e com ela aprendia jogar futebol com papai”, contou Paulo, de 10 anos.

        

Abraço e insegurança

Foi com um gesto que Daniel escolheu Mariana Fernandes para ser sua mãe, com um abraço. Diagnosticado como autista, o menino possui uma enorme dificuldade de comunicação e interação social. A dentista Mariana estava recém-divorciada, quando decidiu adotar uma menina para ser sua companheira. Exigia uma menina de até dois anos, branca e de olhos claros. Já havia visitado três abrigos. Cansada da procura decidiu fazer uma última visita. Um encontro por acaso.

“Observava as meninas. Procurava pela “minha”. Não vi quando ele se aproximou, apenas senti um abraço nas pernas. Retribui e continuei a procurar por uma branquinha de olhos claros”, conta. Após minutos de observação a dentista desistia da adoção, até que ouviu “Daniel é autista, nunca abraçou alguém. Ele te escolheu”. Mariana contou o quanto foi difícil conter as lágrimas e foi procurar pelo menino.

“Ele estava sentando sozinho em um canto, observando os demais. Corri na direção dele com os braços abertos e pronunciando Daniel”, lembrou. Foram muitas pesquisas e leituras sobre o autismo. Mariana sentiu que era hora de ter um menino. A gravidez invisível durou 11 meses e foi repleta de lágrimas e insegurança. “Daniel está com sete anos, há dois anos é meu filho. São muitas consultas e exames. O meu tempo é dele, mesmo que não retribua um beijo, um abraço, sou feliz. Faço doação de tempo e amor a ele”.

 

CINCO FAMÍLIAS PARA CADA CRIANÇA

De acordo com dados da Vara da Infância e da Juventude, têm cinco famílias cadastradas para cada criança e adolescente disponível para adoção no Distrito Federal. A falta de compatibilidade entre os perfis: a maior parte dos pretendentes procura crianças no “perfil clássico” de até 2 anos, saudáveis, de cor clara e sem irmãos. Isso não favorece a constituição de uma família.

No Distrito Federal, mais da metade das famílias já tem filhos, e 26% delas tem problemas de infertilidade. Dos novos pais, 51% possui ensino superior completo. Em 47% dos casos, eles são morenos-claros e 22% moram na Asa Sul e Norte. A maioria (78,64%) é casada ou vive em união estável e tem entre 41 e 60 anos (64%).

 

Por Larissa Rocha

Foto: Ashley Webb

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção