Outubro Rosa: hereditariedade do câncer

Dyane Marques é analista de suporte, tem 25 anos, e apresenta em seu histórico familiar casos repetidos de câncer de mama. “Minha mãe teve câncer de mama quando eu tinha 13 anos. Minha avó materna faleceu por conta do câncer de mama. A irmã gêmea da minha mãe e a irmã mais nova dela também tiveram câncer de mama. Com uma família dessa, a gente tende a se cuidar muito mais e a fazer os exames preventivos regularmente”.

A questão da hereditariedade genética  entrou bastante em debate quando, ao decidir retirar as mamas profilaticamente em 2013, a atriz Angelina Jolie despertou a curiosidade para para a existência da intervenção cirúrgica preventiva.

De acordo com o mastologista Rodrigo Pepe “o fato de se ter um parente, seja mãe, irmã ou filha com câncer de mama, não quer dizer necessariamente que a paciente herdou esse gene com alteração”.  Mas a hereditariedade não é um fator tão recorrente como parece.A mastologista Carolina Fuschino contou que o câncer de mama hereditário – passado de mãe para filha – é um câncer muito raro que atinge famílias muito específicas, cerca de 5% da população mundial.

A mastologista Fernanda Salum, Coordenadora das Ações programáticas em Mastologia da Secretaria de Saúde do DF,explicou quer a maioria das pacientes não tem câncer genético. “Elas têm o câncer esporádico, que é aquele câncer que pode dar em qualquer pessoa e não é transmitido de mãe pra filha”.

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A descoberta da chance de risco hereditário para o câncer de mama precisa ser bem detalhada, esclareceu o mastologista Rodrigo Pepe. “Então para paciente que acha que tem um risco aumentado, primeira coisa: ela precisa comprovar esse risco. E a única comprovação científica que nós temos pra isso vem através dos testes genéticos”.

Entenda o que aconteceu com a atriz

De acordo com os mastologistas Rodrigo Pepe e Carolina Fuschino, antes de retirar as duas mamas profilaticamente, Angelina Jolie realizou um teste genético que indicou a existência dos genes cancerígenos de sua mãe e tia materna na constituição genética da atriz, deixando-a com mais de 80% de chances de adquirir a doença – motivo que a levou à mastectomia profilática.

Se eu fizesse o teste genético e descobrisse que tenho mais de 80% de chance de desenvolver o câncer, tiraria minhas mamas”, contou Dyane. “Mas, como é um teste caro, nos resta aguardar e buscar outros meios.” A analista de suporte considera parte importante da rotina o acompanhamento com o mastologista.

Mastectomia profilática

Para a  Fuschino, o fato de presenciar repetidos casos de câncer de mama na família aumenta a preocupação das mulheres, o que pode levá-las a tomar uma decisão semelhante à de Jolie. Ela aconselha que o tema seja repetidamente discutido com o mastologista que as acompanha, e que todos os fatores envolvidos na cirurgia sejam conhecidos.

Isso porque, de acordo com o mastologista Rodrigo Pepe, a mastectomia profilática assemelha-se à mastectomia radical. É por isso que há a necessidade de reconstruir a mama. “A mama deixa de ser natural porque sofre reconstrução, seja com prótese, seja com tecido do abdômen ou das costas. É uma mama que não vai ter a mesma temperatura do restante do corpo, porque não tem a vascularização; a maior parte não vai ter sensibilidade, seja tátil, seja erógena.” Uma das principais consequências é a impossibilidade de amamentar, reforça Rodrigo.

Além disso, de acordo com o mastologista, “a mastectomia profilática diminui as chances de desenvolvimento do câncer em 90% a 95% dos casos. Ela não oferece 100% de cura e é uma medida altamente radical”.

Carolina Fuschino explicou que não há cura completa porque a mastectomia profilática não consegue retirar 100% do tecido mamário “Você tira em torno de 90% a 95% do tecido mamário e a paciente ainda pode ter câncer naquela região em que restou tecido”.

Fuschino contou que, por causa da perda da sensibilidade na mama, essa medida tem muita influência sobre a sexualidade da mulher. “É uma medida radical, porque você perde a sensibilidade da pele, perde a sensibilidade erógena do mamilo, além de não ter o mesmo resultado que uma cirurgia estética”, explicou.

Dyane não acha a realização de uma mastectomia uma medida radical. Ainda mais quando outros casos acontecem mais de uma vez na família. “Não é radical você querer tirar aquela mama pra não sofrer uma conseqüência maior lá na frente”, explicou ela.  “Se eu tiver que fazer isso sem antes ter engravidado, sem antes ter meu filho e falarem ‘Olha, não vai fazer essa cirurgia porque você não vai poder amamentar’, então tudo bem. Pelo menos eu vou passar a minha vida criando meu filho, e amamentar vai ser um detalhe”.

O mastologista Rodrigo Pepe diz não se opor à decisão de realizar a cirurgia, desde que o risco seja comprovado e, além disso, a paciente conheça todos os fatores implicados nessa decisão. “A gente tem que conversar bastante sobre as implicações que essa cirurgia vai trazer futuramente”.

Fuschino explicou que essa é uma decisão que pode levar um ano ou mais, de acordo com o perfil da paciente.

A recomendação geral para mulheres jovens, com histórico familiar semelhante ao de Dyane, é que comecem o acompanhamento com o mastologista aos 25 anos. Nesses casos o exame de rotina não deve ser a mamografia, mas a ressonância magnética.

Como funciona o teste genético?

O teste genético é um sequenciamento de genes, que pode ser feito através de colheita de sangue ou de saliva. O teste é realizado na primeira pessoa que foi afetada pelo câncer, ou – caso haja mais de uma afetada – na pessoa mais jovem acometida, conforme explicou Carolina Fuschino.

Por Aline do Valle

Post Author: Editor Agencia CEUB