“Papo de quebrada”: escritora diz que poesia pode inspirar trabalhadores da periferia

“Auxílio Emergencial
Escorreu as mãos no rosto
tirando o suor impregnado.
ajeitou as ferramentas certo
do dia seguinte.
bateu o ponto num inspiro
aliviado.

Caminhou pelas ruas.
passou pela rodoviária.
viu no CONIC indiferentes
as moças, as travas,
as crianças com suas
máscaras de cola.

entrou em casa despercebido
pelo cachorro.
jogou-se no sofá murcho
de cansaço.
tragou impaciente
um Marlboro vermelho.

às 22h, desligou a TV amargurado,
não aguentando mais no ouvido
covid.
foi ter com a insônia uma noite lacerante.

despertou xucro,
resmungando, indignado:
não há lockdown
pra quem não mora no Lago.
trocou-se rápido para fugir do trânsito.
fumou desenfreado até a faixa vinte.

no primeiro ponto respirou forte;
no segundo já sentia o peito ardido;
no terceiro, foi quando todo o ar já tinha ido.

horas depois,
do auxílio emergencial
em análise, o status:
falecido”.

Para a poetisa ceilandense Meimei Bastos, as palavras precisam ter uma missão obrigatória. “O objetivo do meu trabalho é o da transformação social. Quero, com o meu trabalho, que as correntes que aprisionam os trabalhadores se rompam”.  A escritora vai, nesta quinta (13), apresentar o trabalho e os pensamentos dela, com entrada gratuita, no Teatro Newton Rossi, no Sesc de Ceilândia. Trata-se do projeto Papo de Quabrada. O evento começa às 19h.

Meimei Bastos identifica-se como uma mulher, preta e de “quebrada”; professora, poeta e escritora. Ela espera que, com seus trabalhos, as pessoas sintam “força, amor e acolhimento”. “Eu não sentia o meu valor, me sentia menos do que os outros. No dia em que eu estava no baú (ônibus) e ele quebrou, vi muita gente desesperada, porque não iriam chegar nos seus trabalhos, e foi aí que percebi que o centro não é nada sem a gente”, diz a escritora.

Ela crê que a vivência de um indivíduo que habita nas mesmas situações, ou parecidas, da que ela viveu, é difícil. Na visão dela, as pessoas crescem sem expectativa de futuro e sem nenhuma confiança. Para ela, é de suma importância que as pessoas possam entender ou se familiarizar enquanto estiverem ouvindo e, sintam a confiança que estava faltando.

Escritora

A história de Meimei Bastos com a arte começou em um sarau, evento cultural, em 2013, em que apresentou um texto, o“RG”, uma obra em que arrastavam-a pelo palco e pessoas de etnia branca a observavam, sem fazer nada, com um olhar de ódio. Ela argumenta ter escrito esse texto, pela primeira vez, para chocar o público. Dessa forma, conseguiu perceber que a sua indignação social era uma pulsão artística.

Já no slam, uma competição em que poetas leem ou recitam um trabalho de originalidade própria, começou um ano depois, e revela, de que estava nervosa por não ter 3 poemas e apenas um, o RG, foi aí que escreveu “O eixo”, sua obra de sucesso, no carro. O propósito dessa poesia foi mostrar para a classe rica um pouco da cultura periférica. “Queria mostrar para essa gente rica, o que nós somos. Sem essa obra não seria quem eu sou hoje”, disserta.

Ela acredita que a sua construção e o pertencimento na resistência artística, foi um processo. Porém, percebeu estar sendo influenciada pela sua vivência, no teatro, apesar de antes não acreditar que tudo que acontecia a influenciava. Meimei Bastos, sempre se frustrou com a desigualdade social e de gênero e, explica, que na busca de respostas para as suas frustrações a levaram à arte.

Inspiração

Todas as pessoas têm inspirações em suas vidas e com Meimei Bastos, não foi diferente. Ela entende que a maior inspiração para ela, foi a sua avó, Neuza. “Me inspiro muito na minha vó. Ela falava de uma forma forte e tinha uma construção de frases muito peculiar, isso me deu interesse no mundo das letras”.

Ela considera que teve raiz feminista pela criação da mãe e da avó, “apesar de não se denominarem assim”. “O que deu suporte para batalhar e querer ser ouvida foram as mulheres de minha vida”.

Papo de quebrada

O Projeto Papo de Quebrada traz vários diálogos promovidos por algumas pessoas e tem como foco a promoção de discussões e reflexões sobre as batalhas que são enfrentadas nas periferias, com relatos de lutas do cotidiano, seja com poesia, música ou teatro. Em edições passadas dispuseram de vozes como a da rapper Preta Rara, do rapper Renan e da artista Rosa Luz.

Serviço
Papo de Quebrada – Diálogos Periféricos com Meimei Bastos

13 de dezembro, às 19h
No Teatro Newton Rossi, no Sesc Ceilândia (QNN 27)
Gratuito
Informações: 61985348361
Inscrições pelo link: https://www.sympla.com.br/papo-de-quebrada-20—meimei-bastos-4__1449232

Por Monique del Rosso

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção