Luto sem despedida: cantora faz músicas para a mãe e avó, vítimas da covid

A dor como inspiração. O inconformismo transformado em homenagem. “(A covid-19) é uma doença muito solitária. A gente não pôde estar com ela no final. Não pôde chegar perto. Não pôde se despedir. Isso é tão injusto, tão triste”.  As lembranças para a musicista Mirian Marques, de 39 anos, estão presentes por todos os lados. 

Em setembro do ano passado, a avó, Adelina, morreu poucos dias após gravar um vídeo de feliz aniversário para a neta instantes antes de ser entubada. Em março deste ano, sua mãe, Walkyria, seguiu o mesmo caminho, de maneira rápida, em apenas três semanas que separaram a infecção do óbito.

Assim como as outras diversas famílias e amigos que pesaram as mais de 600 mil mortes oriundas da pandemia no Brasil, Mirian disse ter se preenchido de luto e tristeza após a perda das mulheres de sua vida. Entretanto, ela transformou esse sentimento em arte, como uma homenagem especial para poder se despedir daquelas que se foram: um álbum musical.

Clique aqui para escutar o álbum no YouTube e no Spotify

A capa de Mother, novo trabalho de Mirian Marques (Imagem: Divulgação)

Seu novo projeto, o EP Mother, “Mãe” em inglês, consiste em cinco faixas dedicadas para a mãe e avó. A artista entende que, quando ela faz uma música para alguém, o trabalho pertence à pessoa inspiradora, e não à ela. Conforme ela recorda o que foi dito por sua produtora, Sara Loyola, o álbum é uma conversa com suas antepassadas, contando o que sente para elas. 

Homenagem

Contudo, Mirian reforça que o trabalho também é para todos aqueles que tiveram suas vidas tiradas por essa doença injusta, que impossibilitou o tempo para uns e a despedida para outros, que lhes privou o direito à vida. “Não se trata de uma homenagem somente para minha mãe e minha avó, é para todas as pessoas que se foram e os que perderam alguém na pandemia”.

O caminho para a finalização do trabalho foi longo, com seu início sendo justamente no momento de luto profundo, onde a musicista disse que achava que não teria mais criatividade. Para sair do fundo do poço, ela entende que os  amigos foram decisivos.

 Ela compartilha que um colega a chamou para ir na Chapada dos Veadeiros pouco após a perda de sua mãe, mas mal sabia ele que lá era o local onde Mirian havia perdido seu pai. Mesmo assim, ela foi e diz ter sido um momento fundamental para ressignificar, algo que não é fácil de se fazer sozinho, por isso a importância dos amigos, que inclusive fizeram uma vaquinha para pagar pelo velório de Walkyria.

Da esquerda para a direita, Mirian com sua avó, mãe e tio, todos vítimas da Covid (Foto: Arquivo Pessoal)

“O sentimento era de impotência, de inércia, estava parada vendo as coisas acontecerem, estava parada vendo as pessoas morrerem. É muito importante as pessoas que temos à nossa volta, nesse momento me senti acolhida, mesmo em meio ao luto e a tristeza”, disse.

Músicas

Assim, após buscar ressignificar o ocorrido, Mirian buscou transformar seu luto em sorrisos, especialidade de sua mãe, mulher alegre, sorridente, que não reclamava de nada, e deu nome às faixas do EP com suas falas tradicionais, como “Bonita Igual uma Cabrita” e “Meio de Cada Lado”. “Mother”, “Tenho Dó Mas Não Ando em Redor” e “Até Breve, Dilina” completam o projeto.

Desta forma, a artista passou dos sentimentos ruins para os bons. “É por isso que as músicas são alegres, elas têm esse tom transcendente que rompe com a tristeza. O luto é eterno, ele vai durar por toda minha vida, mas dá para romper com a tristeza, que é inerente ao luto”, explicou.

Entre as cinco faixas que Mirian canta e conversa com sua mãe e avó, Mother é a que mais lhe toca, com suas castanholas e ritmo flamenco que, mesmo sem “ter nada a ver” com Walkyria, é a cara dela. Cara que teve influência em toda a trajetória musical da artista, que começou desde jovem na igreja e evoluiu de acordo com as músicas que sua mãe gostava, como Caetano Veloso e Rita Lee.

“Gosto muito de te ver, leãozinho, caminhando sob o sol”, como dizia Caetano, mas também Walkyria, que cantava para a filha e seus belos cabelos. Assim, a musicista foi crescendo na música e chega agora para o lançamento de seu segundo trabalho, que dedica para aquelas que a inspiraram a chegar até lá.

Confira aqui a música Mother

 

Mirian acredita que a dupla foi recebida em “um outro plano” por seus entes queridos, um lugar melhor, de onde irá prestigiá-la em seu álbum. Além delas, ela torce também para que as demais pessoas demonstrem um interesse pela música do cenário independente, como é seu caso, para que atinja o maior público possível, e que eles, por sua vez, se emocionem junto nesse trabalho. “A morte pega a gente de surpresa e de jeito, mas podemos ressignificar”.

A mãe e a avó de Mirian foram grandes influências na trajetória da artista (Foto: Arquivo Pessoal)

Mother já está disponível nas plataformas digitais e conta com diversos nomes nos bastidores. Daniel Baker no piano, Edson Arcanjo no violão e na guitarra, Hamilton Pinheiro no baixo, produção e diretor musical, Pedrinho Almeida na bateria, Marcos Pagani na técnica, com apoio de Rafael de Souza e Cleiton Rodrigues, além de, claro, Walkyria e Adelina, que certamente estão “dançando, morrendo de rir e orgulhosas”, como diz Mirian, tão orgulhosa quanto pelo legado que as duas a deixaram.

Redes sociais:

Instagram: @mirianmarquesmusician

YouTube: Mirian Marques

Site oficial: http://www.mirianmarques.com/

Por Arthur Ribeiro

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção