Violência Obstétrica: mulheres pedem respeito na hora de parir

Violações aos direitos da mulher de ter atendimentos do pré-natal ao pós-parto adequados têm nome: chama-se violência obstétrica. Por falta de conhecimento sobre o que de fato é a violência obstétrica, passam por maus bocados e não fazem ideia que, aquilo que elas passaram não é normal e nem fazem parte de nenhum tipo de protocolo e não possuem nenhuma base científica. Precisamos falar de violência obstétrica para que a mesma ocorra cada vez menos nas unidades de saúde.

Foto: Arquivo pessoal

O que é?

Violência Obstétrica (V.O), segundo a médica Karina Tomiasi, consiste em práticas arcaicas, desnecessárias ou até perigosas que podem ser utilizadas em diferentes fases do atendimento à gestante . Como exemplo, a médica explica que existem recomendações que não encontram respaldo científico, como raspar a virilha de rotina, lavar o intestino, colocar soro, deixar em jejum, usar ocitocina para aumentar as contrações fora de indicações. 

Também são enquadrados nesse tipo de violência medidas não necessariamente invasivas ao corpo como proibir acompanhante durante todo o processo do parto, abuso verbal ou moral, manobra de kristeller – quando o médico empurra a barriga com os braços. Essa ação pode levar ao rompimento do fígado da paciente.

Já para Gabrielle Oliveira, que é enfermeira obstetra e coordenadora da Rede Cegonha – programa do SUS (Sistema Único de Saúde) que tem como proposta a melhoria no atendimento às mulheres durante a gravidez, pré, parto e pós parto -, complementa que, a V.O é a violação dos direitos das mulheres durante a gestação, parto e puerpério. Ocorre quando o profissional de saúde não segue as evidências científicas e realiza procedimentos desnecessários, envolvendo condutas físicas e psicológicas. Esses profissionais também podem fazer o uso de chacotas e realizarem  procedimentos sem explicar do que se trata.

Legislação ausente

No Brasil, segundo uma pesquisa realizada pela Fiocruz entre 2011 e 2012 sobre parto e nascimento, das 24 mil mulheres entrevistadas, 45% delas relataram terem sido vítimas de maus-tratos durante o parto e outras 36% relataram terem passado por tratamentos inadequados no momento de conceber. Apesar do número alto, segundo a advogada Vera Lúcia Santana Araújo, advogada e integrante da Executiva Nacional da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia-ABJD, no Brasil, não há uma lei federal específica por ser um conceito ainda em construção.

Entretanto, segundo a advogada, existem alguns projetos de lei que tramitam há “muito tempo” no Congresso Nacional, o que, de certa forma, mostram uma certa displicência, um descuido do Legislativo em relação à saúde pública da mulher.

 “Como não há essa lei específica, o que a gente tem de mais arrojado, digamos assim, é a lei 11108/05, que se aplica ao SUS, que garante à parturiente o direito de ter um acompanhante durante todo o trabalho de parto e pós parto imediato nas unidades de saúde do sistema SUS, e que a saúde privada aderiu a esse protocolo também. Esse é o grande referencial que a gente tem”, explica a advogada.

De certa forma desamparadas pela lei, e na mão de profissionais que insistem em utilizar métodos questionáveis a fim de agilizar o processo mágico do nascimento de uma criança, cresce o número de relatos de V.O nas redes sociais. Essa é uma forma de alertar outras mulheres a respeito de condutas, que muitas vezes, pela falta de informação, são consideradas “normais” e nem sempre são questionadas ou denunciadas pela vítima.

A seguir, veja o relato de três mulheres que, infelizmente, passaram por agonia e dor em um dos momentos mais importantes da gestação.

“Chorei muito” 

O pesadelo de Nara Dantas, 21, começou no dia 8 de setembro de 2021, em uma quarta-feira, quando passou por um aborto diagnosticado como retido. Transferida da cidade que mora, Quixadá (CE), percorreu um trecho de 140 quilômetros para chegar até o hospital destinado ao seu atendimento. “Em meio àquela dor, eu mal sabia o que me esperava”.

Nara recorda que, desde o momento em que chegou ao hospital, foi privada de água e comida. Foi nesse estado que passou pelo transvaginal, um ultrassom capaz de avaliar o canal vaginal, colo do útero, útero e os ovários da mulher. “Isso aconteceu na frente de algumas mulheres e foi bem desconfortável, sabe? Ele colocou o aparelho com força e eu já estava sentindo contrações”, lembra.

Após 24 horas sem se alimentar e beber água, Nara recebeu soro para segurar o acesso venoso. Em seguida, o funcionário induziu, na mão, com força e de uma vez só, quatro comprimidos em sua vagina, com o intuito de acelerar o afilamento e a dilatação do colo, para conseguir expelir os restos fetais. Após o ocorrido, ela recorda que, quando as dores começaram, deu-se o início do parto normal. Ainda assim, Nara não recebeu medicamentos e nenhum funcionário apareceu para ajudá-la. “Eu tive todas as contrações, a bolsa estourou, a placenta saiu e ninguém lá. Éramos eu, meu marido e Deus. 

Na tarde de quinta-feira, expulsei o meu bebê. Chorei muito, senti que não tinha nada mais dentro de mim, a não ser o resto da placenta. Passei mais de 24 horas com esse resto de placenta dentro de mim”. Emocionada, Nara recorda que o médico só apareceu após o marido chamá-lo diversas vezes. Desidratada, com sede, fome e em prantos, ouviu do profissional que o colo ainda não havia aberto. 

“Eu fiquei do dia 8 até o dia 10 sem comer e beber água. Absolutamente ninguém ia me ajudar e o médico não ia me ver. Só me deram roupa para trocar quando eu estava toda cheia de sangue. Recebi lençóis com manchas de sangue para eu me enrolar. Eu chorava de dor e não me davam remédio”, desabafa Nara. Após tantas negligências, ela conseguiu reunir forças para mandar mensagem para a mãe, que entrou em contato com um político da cidade. E foi a partir desse momento que tudo mudou.

O político, que não foi identificado, entrou em contato com o médico responsável por atender Nara. Segundo ela, o doutor mudou completamente a postura e passou a ser gentil e atencioso. “Devo minha vida a ele (político). Não sei o que teria acontecido comigo, eu não tinha força para mais nada”. Entretanto, a mudança de postura não apaga a violência que Nara sofreu no hospital. Após receber alta, ela demorou semanas para estabilizar a pressão arterial, estava com a boca ferida por desidratação, estava fraca e com o psicológico abalado.

Um trauma fora do país 

De malas prontas para começar uma nova jornada em Portugal, Carla Teixeira, 33 anos, dias antes de se mudar, teve a feliz e ao mesmo tempo assustadora surpresa de que estava grávida. Não tinha sido uma gravidez planejada, mas Carla pegou suas coisas e resolveu seguir com o plano. 

Logo que chegou, já procurou saber como deveria proceder a respeito do pré-natal e como o mesmo funcionava, pois sabia que o sistema do Brasil e de Portugal eram diferentes. E de cara não foi fácil, ela diz que precisou lidar com os “olhares tortos” dos profissionais e que foi vítima de xenofobia. 

Após se informar de como funcionava o atendimento naquele país, Carla procurou tentar sanar todas as suas dúvidas e tentar descobrir quais métodos a maternidade de lá oferecia para as gestantes. Durante as consultas, Carla escutava que ali, era muito comum realizarem a episiotomia, que é um corte realizado entre o ânus e a vagina para “ajudar” na passagem do bebê. Carla repudiava essa possibilidade e deixava bem claro que não queria aquilo, mas escutou motivações com as quais ela não concordava

A gravidez seguiu, e em sua última consulta, perguntou sobre o plano de parto, que é um documento montado pela grávida e seu/sua obstetra onde é detalhado todos os métodos que a parturiente gostaria de seguir quando fosse chegada a hora do nascimento. A obstetra de Carla apenas passou um e-mail, para onde a mesma deveria enviar o plano. 

Carla entrou em trabalho de parto, logo cedo, em um domingo. Um dia após completar 40 semanas, a pandemia estava no ápice. Mas ela manteve a calma, as contrações estavam ritmadas e ela sabia o que precisava ser feito. Esperou o máximo que conseguiu em casa, e por volta do meio-dia, o seu marido solicitou uma ambulância, que era a orientação que ela havia recebido.

Quando chegou na maternidade com as contrações ocorrendo a cada três minutos e com seis centímetros de dilatação, Carla não sabia, mas o seu terror estava prestes a começar. Devido a pandemia, o seu marido não podia acompanhá-la durante todo o processo, a sua entrada somente seria permitida na fase final. Protocolo do hospital. 

Ao chegar na ala de pré-parto, com a sua bolsa amniótica ainda intacta, Carla já foi bombardeada com perguntas a respeito da anestesia, que foi negada de pronto. Em Portugal é comum se fazer o uso de anestésico durante o trabalho de parto, mas segundo Carla, isso atrapalha o processo natural do parto. E como resposta, já recebeu olhares repreendedores e caras feias da equipe médica ali presente. Sem o suporte do marido, ela passava por todo processo quase que sozinha, a não ser pelas enfermeiras que apareciam de tempos em tempos na tentativa de querer realizar o exame de toque, que consiste em introduzir os dedos pela vagina da mulher com o propósito de descobrir com quantos centímetros de dilatação a mesma está. Carla também negou.

A todo momento, ela tentava focar no seu corpo e nos sinais que ele emitia, mas era uma missão muito difícil, pois ao seu redor alguns profissionais ficavam comentando a decisão dela de negar a anestesia e não querer realizar o exame de toque a todo instante. 

Em determinado momento, ela permitiu que o exame de toque fosse feito, pois queria saber como estava o seu processo de dilatação. Estava com oito centímetros e a sua bolsa ainda não havia rompido. A posição da bebê ainda era alta para que o trabalho de parto fosse realizado, então a enfermeira ali presente a informou que Carla seria colocada no soro com ocitocina, com a intenção de induzir o parto. Como ela já estava exausta de todo o processo, não teve forças para negar e acabou recebendo a ocitocina intravenosa.

Após algum tempo recebendo o soro, ela percebeu que não sentia mais as dores das contrações. Achando aquilo muito estranho, chamou uma enfermeira e perguntou se aquilo era comum, e para a surpresa de Carla ela disse que sim, pois junto com o soro também estava recebendo anestesia que estava misturada na preparação. Naquele momento, o mundo de Carla caiu, pois a mesma tinha certeza que a anestesia só iria atrapalhar o processo.

Daquele momento em diante, o cenário só piorou. Após entrarem com a medicação, estouraram sua bolsa, mesmo com a bebê ainda em uma posição que não favorecia o parto. Entretanto, Carla estava tranquila quanto a isso e solicitou que o soro fosse retirado para ela continuar com o processo natural, que era o que ela queria desde o começo, mas o seu pedido para retirada do soro foi negado. 

Um médico que ela não tinha obtido contato anterior entrou na ala em que ela estava, e sem nem cumprimentá-la, realizou o exame de toque, sem qualquer tipo de consentimento. Finalmente dez centímetros de dilatação. Entretanto, a bebê continuava sem descer. Foi nesse momento que o médico se aproximou de Carla e disse que iria “ajudá-la”. 

Sem nenhum tipo de explicação ou pedido de permissão, ele começou a realizar a manobra de kristeller, que consiste em empurrar a barriga da grávida na intenção de fazer uma pressão sobre o útero e assim, acelerar o trabalho de parto. Nesse momento, Carla gritou, disse que ela não aceitava aquilo e que preferia que fosse realizada uma cesárea. O médico então parou, e antes de sair com a cara feia, ainda resmungou algo que ela não compreendeu.

Algum tempo depois os batimentos de sua filha começaram a cair e nesse momento ela foi encaminhada para a cesárea. Por conta da covid, seu marido não poderia acompanhá-la na sala de cirurgia, contrariando a informação que haviam recebido no começo, ele foi encaminhado para uma sala separada onde deveria esperar para ver a bebê assim que ela nascesse.

Ao ser levada para o centro cirúrgico, Carla achou que os piores momentos estavam chegando ao fim. Mas a  anestesia que usaram nela, aparentava ser mais fraca, ela não sabe dizer ao certo. Ela sentiu tanta dor durante a cesárea, tanta dor que chegou a vomitar. Ela reclamou para a equipe médica ali presente, e escutou de uma enfermeira que “era assim mesmo, e que todas as mulheres passam por isso”. Carla gritava e reclamava muito. Mas uma enfermeira a repreendeu e ainda a ameaçou dizendo que se ela não se calasse, seria amarrada.

Mesmo com todo aquele sofrimento, a filha finalmente nasceu. Carla escutou seu choro e conseguiu vê-la rapidamente. Pediu para uma das enfermeiras pegar o seu celular e bater uma foto das duas, mas teve o seu pedido negado. Sua filha foi levada e ela seguiu sentindo muita dor. Em certo momento escutou alguém dizendo que ela estava sangrando muito. Os médicos seguiram com o procedimento de fechá-la e Carla seguiu sentindo tudo o que eles faziam nela, até o momento que resolveram sedá-la sem qualquer aviso.

Quando finalmente acordou, ainda na maca, viu que já estava a caminho do quarto, ainda estava bem dolorida e também sentia muito frio, tanto frio que chegava a tremer. A impressão que ficou foi que os médicos estavam punindo-a por ela ter negado todos os procedimentos que eles estavam habituados a fazer.

Carla relata que na sala de cirurgia teve uma hemorragia e assim que chegou no quarto teve outra e foi por muito pouco que ela não precisou fazer uma transfusão. 

Por conta de tudo o que aconteceu, o seu pós-parto não foi nada tranquilo. Além do trauma de tudo o que  lhe aconteceu e com o corpo ainda muito dolorido, em Portugal os médicos não costumam dar pontos, lá as mulheres são grampeadas após a cesárea, e os grampos de Carla acabaram infeccionando.

“Eu busquei informações sobre a maternidade antes e eram todas positivas, mas depois percebi que eram pessoas que não entendem o que é violência obstétrica. 

Era pra ser uma experiência mágica e acabou sendo traumática”, relata Carla. 

Ao final disso tudo, Carla denunciou o ocorrido ao hospital, enviando um e-mail para o mesmo contando sobre todos os maus-tratos que sofreu. “Pelo menos isso aqui é levado muito a sério. Todos os lugares possuem um livro de reclamações e os órgãos responsáveis pela fiscalização sempre olham esses livros. Recebi retorno lamentando o ocorrido e todo aquele blá-blá-blá de que estão sempre buscando melhorar e acabou nisso”, explica.

Apesar de todo o ocorrido, Carla afirma que todo esse trauma não atrapalhou a sua relação com a sua filha, mas que isso tudo atrapalhou completamente a sua vontade de ter outro filho.

“Numa hora estava tudo bem e na outra parecia que eu ia morrer”

Em março de 2020, com a ideia de planejar um parto domiciliar para a vinda da filha Maria Flor, Duda Oliveira e o marido, Gabriel Frigini, contrataram em Vargem Grande do Sul (SC), uma equipe que conheceram fotografando um parto anterior. Apesar da gestação de Duda estar dentro da normalidade, ela explica que quando falou de sua idade, 21, e revelou traumas envolvendo abusos sexuais e violência doméstica, as profissionais começaram a colocar empecilhos. “Mas eu não tinha outra opção, ou era elas, ou era ir direto para a maternidade da minha cidade que é um verdadeiro caos”, lembrou-se em entrevista para a reportagem.

No dia 9 de outubro, duas enfermeiras obstétricas contratadas apareceram na casa de Duda, de surpresa. Ela explica que a reunião teve seu início com perguntas sobre seus medos e angústias, mas, após duas horas conversando, ela descobriu o intuito dela. “Ou a indução seria feita naquele dia, ou elas iriam me encaminhar para o hospital. Eu fiquei em choque, não estava preparada psicologicamente. Elas insistiram, exploraram o meu medo e do Gabriel de ir direto ao hospital e elas nos venceram pelo cansaço e pelo medo. Aceitamos induzir”.

Mas a pressa das enfermeiras escondia um motivo. Duda conta que após aceitar a indução, descobriu que havia outra mulher parindo em uma cidade longe da que ela vivia. A outra parturiente estava de 39 semanas, de acordo com as profissionais, e como Duda estava com quase 42 semanas, as profissionais deram prioridade.

Duda recorda que a indução foi feita por meio do descolamento de membranas e que também houve a reposição do colo, já que ele estava voltado para trás. “Meia hora depois as contrações vieram e eu pedi para que a fase de latência fosse só entre eu e Gabriel, porque eu queria me despedir. Queria dizer adeus à minha família de duas pessoas, adeus à minha vida sem filhos, adeus à minha casa sem criança. Queria que aquele momento fosse só nosso, já que elas haviam roubado isso de nós chegando sem avisar o que aconteceria naquele dia”. Segundo ela, as profissionais aceitaram e seguiram para um hotel.

Se às 13 horas as contrações de Duda haviam sido iniciadas, às 18 ela estava dizendo adeus à fase latente do parto. Com contrações mais intensas e dolorosas, Duda começou a ficar fora de si. A fase ativa começou às 20 horas, e às 21, ela sentiu que estava com oito centímetros de dilatação, seguindo para a fase de transição. As enfermeiras chegaram um pouco depois das 22 horas, e a partir disso o sonho de Duda virou um pesadelo.

Somente após horas de dor, as enfermeiras decidiram fazer o toque. Duda lembra que demorou 1 hora e meia entre as profissionais falarem que precisavam fazer e ela conseguir permitir. “Lembro exatamente da cara da enfermeira que me fez o toque. Ela não verbalizou, mas pela cara amarrada eu sabia o que ela queria dizer ‘você não está colaborando’”, recorda Duda.

Segundo ela, a reação da enfermeira a deixou cada vez mais ansiosa, a ponto dela ter uma crise de ansiedade, “Quando a crise de ansiedade amenizou, eu consegui me agarrar em alguma coisa, que não sei dizer em que, mas eu me segurei e tentei ficar imóvel o máximo que eu consegui. Mas não deu para verificar totalmente o colo, assim que a enfermeira fez o toque, veio outra contração e eu não consegui segurar mais. Só deu para verificar a dilatação e espessura do colo”.

Duda saiu apoiada em Gabriel para ir até o banheiro. Como o parto estava sendo filmado, seus gemidos e gritos no local estão registrados. Mas ela revela que uma conversa cochichada entre as enfermeiras se sobrepõe aos seus gritos. “Ela precisa parir até às 6 horas da manhã, mais que isso é impossível, porque não vai dar tempo de chegar para o outro parto.” Contração. “Dorme por alguns minutos, se eu precisar te chamo.” Duda ainda estava no banheiro quando o vídeo encerrou.

Enquanto sofria com dores no banheiro, Duda não imaginava o que as enfermeiras conversavam no quarto (Foto: Arquivo Pessoal)

Enquanto sofria com dores no banheiro, Duda não imaginava o que as enfermeiras conversavam no quarto. Foto: Arquivo Pessoal.

Após voltar do banheiro e de horas de dor, Duda relata que as enfermeiras decidiram colocá-la na banqueta para fazer puxos dirigidos. Ela explica que fez de tudo para sair da baqueta, “ali eu achei que eu iria matar a minha filha de tanto estresse. Eu só me lembro de me jogar no chão e de tentar ficar em quatro apoios. Elas me colocavam de novo na banqueta e de novo eu me jogava para o chão e ficou nisso até eu começar a desmaiar”. Duda relembra que passou cerca de três horas implorando por ajuda, e em algum momento entre seus gritos, as enfermeiras chamaram Gabriel e questionaram se eles queriam fazer a transferência.

Apesar de Gabriel ter certeza de que a esposa o culparia por achar a decisão ruim, ele disse que sim para a transferência. Duda relembra que acordou deitada na cama, em sua casa, “Entre uma contração e outra eu apaguei. Não lembro de ninguém me vestindo, só de estar deitada de lado, com a sensação do meu pijama em mim e do Gabriel tremendo, enfiando a primeira roupa que via na frente dentro da minha mochila”. Enquanto via as enfermeiras abrindo e fechando bolsas, e Gabriel corria de um lado para o outro procurando roupas, Duda entendeu que seria transferida.

“Gabriel, eu vou pro hospital mesmo?” “Vai, acho que vai ser o melhor, você está desmaiando, amor.” Duda recorda que o marido estava tremendo e mal percebia que falava com ela. “Gabriel, eu to vendo você pegar duas calças de moletom, duas blusas velhas e os três pijamas novos estão na sua frente e você nem pegou na mão. É outubro, Gabriel! Está muito calor, para de pagar calça, homem!” “Eu tô pegando as coisas, amor, espera aí.”

Para Duda, era estranho ela e Gabriel irem até o hospital no carro das enfermeiras ao invés do deles. Por isso, a grávida ficou ainda mais desconfortável, com medo de sujar com sangue, vômito e outras secreções. Às 5 horas e meia da manhã enfermeira dirigia o carro pouco mais de 20 km/h, mas Duda estava com pressa, “Eu precisava de analgesia, eu precisava respirar de novo, eu precisava descansar 10 minutos e estaria pronta pra outra”.

Duda conta que ao subirem o morro do hospital de Vargem Grande do Sul, veio outra crise de ansiedade, ela não queria ir até lá, mas as enfermeiras não permitiram outro local. “Elas seguiram o que estava no contrato e chegamos nesse antro de ignorância e violência que é esse hospital. Duda foi recebida com uma cadeira de rodas, enquanto enfermeiras explicavam a situação e o marido entregava os documentos.

Gabriel foi impedido de acompanhar a esposa pela secretaria do hospital. Foi só dentro da sala de pré-parto que Duda descobriu que o marido não iria subir para acompanhá-la. “Toda a minha raiva e cansaço vieram à tona, só conseguia gritar de dor enquanto eu tentava falar ‘eu quero meu marido aqui e agora. Vocês estão infringindo uma lei de 2005″, lembra.

Duda explica que percebeu que havia caído do sistema seu objetivo passou a ser sair viva e com a filha daquele hospital. “Naquele momento eu peguei na mão da minha avó Odete, que tinha passado por coisas muito piores, que tinha perdido quatro filhos pra esse sistema assassino e na mão da minha bisavó Maria, que era parteira e segui meus instintos. Se minhas avós conseguiram, eu também conseguiria”.

Duda se perguntava, porque estava rodeada por quatro enfermeiras, sendo que nenhuma era obstétrica. Com esse questionamento e um pano colocado em sua boca, a grávida gritava com os olhos fechados. Foi nesse cenário que o médico entrou. “Ele pegou o prontuário, fingiu que leu, andou até o meu lado esquerdo e colocou o prontuário numa mesinha. Foi até os meus pés, viu minhas pernas meio abertas e não pensou duas vezes, simplesmente enfiou dois dedos dentro da minha vagina com toda a brutalidade que ele poderia fazer. Se eu dissesse que um homem enfiou os dedos em minha vagina sem meu consentimento, seria estupro. Mas como eu estava em trabalho de parto, isso é considerado protocolo. Fato é que ali eu fui estuprada pela terceira vez”, desabafa. Nesse momento, ela chorou pela primeira vez durante 17 horas de trabalho de parto. 

Duda ainda gritava de dor e pedia por anestesia, mas o médico respondeu, de forma fria, “aqui a gente não dá analgesia e você precisa se acalmar, você está matando sua filha, não percebe? Já começa com você sendo irresponsável de querer ter filho em casa, aí chega aqui pra gente resolver o problema e ainda não colabora”. “Você, apenas você está matando minha filha. Eu quero o meu marido aqui e agora”. Ela diz que ele calmamente se virou, andou até a porta com passos lentos e a trancou.

Duda lembra que gritou por cerca de 30 minutos até a enfermeira fazer uma proposta: “Se eu chamar o seu marido, você fica quieta?” A grávida aceitou e Gabriel finalmente entrou na sala. Vendo a esposa nua, gritando e chorando, o marido foi até o médico. “Os dois olhavam pra mim e eu sem entender absolutamente nada, só sabia gritar”.

“Nosso combinado não era você parar de gritar quando seu marido chegasse?” “Caso você não tenha percebido, eu estou parindo e vou gritar o quanto eu quiser até vocês me darem a anestesia para essa dor infernal passar”. Duda recorda que nesse momento, a enfermeira explicou, com compaixão, que não havia anestesista de plantão dentro do hospital, assim, eles só tinham autorização para chamar o anestesista em caso de cirurgia.

Logo, Duda foi retirada da sala de pré-parto ainda na maca, com três enfermeiras a empurrando e uma levando o prontuário. Uma enfermeira abriu a porta da ala cirúrgica e pediu para o marido guardar as malas que ele havia levado em um quarto. Quando ele foi para lá, a grávida perguntou se ele iria acompanhá-la na cirurgia e recebeu uma resposta negativa.

Nesse momento, enquanto a maca passava pela porta da ala de cirurgias, Duda se segurou na parede. “Gabriel, vem aqui agora. Elas não vão deixar você entrar, corre”. O marido atendeu ao seu chamado, ainda com mochilas no corpo.  A grávida relembra que uma das enfermeiras ficou irritada e a ameaçou dizendo que ela iria sem acompanhante. Duda, diante disso, disse para o marido chamar a polícia e foi após Gabriel tatear o bolso para pegar o celular que a enfermeira autorizou a entrada do marido.

Para Duda, a anestesia foi um alívio. Ela finalmente foi capaz de fechar os olhos, raciocinar e respirar. “Eu queria aquilo por cinco minutos e já me sentiria pronta pra continuar, mas era tarde demais. Quando a ficha caiu, veio mais uma crise de pânico e para colaborar ainda mais, amarraram meus braços, e eu fiquei desesperada”. Duda implorou para deixarem seus braços livres, e que só mexeria para pegar a filha. Ela diz que a enfermeira estava em conflito, e seu olhar suplicava desculpa, mas seguiu o protocolo. Nesse estado, Duda chamou o médico e pediu para que ele deixasse o cordão parar de pulsar para cortar e que a filha fosse diretamente para o seu colo quando nascesse. “Ele disse que faria isso, mas preciso dizer que ele mentiu?”.

Duda explica que sentiu a bacia com os instrumentos da cirurgia em cima da sua barriga, a pressão de ser cortada, o corpo mexer quando Maria Flor foi arrancada de dentro dela e seu primeiro choro. Mas não o seu rosto. “Eu gestei ela por 41 semanas e cinco dias, senti cada movimento, criei essa menina a partir de uma célula e eu fui a última a tocar nela, a ver ela, a sentir o cheiro dela”, desabafa.

Duda viu a filha apenas de longe e, apesar dos braços amarrados, por instinto, tentou pegá-la. “A sensação é de que eu era a pior pessoa do mundo e estava sendo punida, amarrada em uma mesa, enquanto era costurada. Eu pisquei e Maria Flor já estava longe”, recorda. Mesmo com medo, ela pediu para Gabriel ir atrás da filha para evitar procedimentos invasivos, mas foi em vão, até ele foi impedido de pegar a menina no colo. Por duas horas, a bebê ficou dentro de um berçário, enquanto o pai, grudado no vidro, implorava para segurá-la. “Não nos respeitaram em nenhum momento e as únicas boas lembranças são das oito horas que eu e Gabriel ficamos sozinhos, foi a melhor escolha que fiz”.

Hoje, Duda explica que o que aconteceu foi uma distócia emocional, e que a desatenção da equipe resultou em um edema de colo. Ela sentiu-se culpada por meses, pensando ter sido fraca e culpada por tudo o que aconteceu. “Eu apenas estava justificando a negligência”.

Ela também esclarece como o que aconteceu com ela mostra que qualquer distração pode mudar o desfecho do parto. “Numa hora estava tudo bem e na outra parecia que eu ia morrer. A desatenção e descrença dos meus processos, o pré-conceito de que eu não aguentaria por ser nova, levaram elas a acreditar que meus pedidos de socorro e ajuda eram apenas eu não aguentando. E supondo que eu não estivesse aguentando o parto, supondo que eu não tivesse tido complicações reais, porque mesmo assim eu não seria digna de ser ajudada?”, questiona.

“Violência obstétrica pode levar à depressão pós-parto”, diz psicóloga

Para a psicóloga Catarina Gouveia, nesses casos, a melhor conduta seria que, a mulher entenda o que aconteceu ou está acontecendo não é normal, que é uma violência e que ela pode e deve procurar ajuda e denunciar. Mas antes disso, ela precisa se fortalecer, ou seja, procurar ajuda de psicólogos e psiquiatras. “Sozinha é muito difícil, então procurar uma terapia, ou em alguns casos, até um psiquiatra, para entrar com uma medicação a fim de estabilizar os agentes químicos do nosso cérebro é muito importante. Então esses dois profissionais, psicólogo/terapeuta e psiquiatra, de início que podem dar um bom suporte nesse processo”, explica. 

Catarina ainda foi questionada pela equipe da reportagem sobre outras questões acerca da violência obstétrica, confira a seguir:

Quais são os danos mais frequentes que a violência obstétrica pode causar na mãe?

Essa violência pode causar uma depressão pós parto. Porque na verdade, o estágio depressivo que essa pessoa vem sofrendo nessa violência já é contínuo, e aí junto com a questão química hormonal do pós parto a probabilidade é grande em gerar uma depressão pós parto que pode desencadear dois comportamentos: o de superproteção e o de negação a essa criança.

Como essa agressão pode impactar no contato ou até na conexão da mãe com o bebê?

Impacta diretamente na relação da mãe com esse bebê, uma vez que ela não tem a condição de ressignificar esse ganho desse bebê como uma coisa valiosa, por mais que ela queria acreditar nisso. Então ou é a negação desse bebê, ou é realmente um desejo de superproteção, de proteger ele do mundo. São esses dois vieses mais prováveis.

Qual o caminho a mulher deve percorrer para tratar essas sequelas?

Acho que o melhor caminho para pensar em resolver essas sequelas é identificar que elas existem, e aí você pode sair com algum comportamento defensivo. Acho que é o melhor caminho, é identificar que você está vivendo isso e que se comporta dessa maneira.

No caso de uma violência obstétrica, qual deve ser a conduta da(o) acompanhante nessa situação?

Se fosse falar de uma conduta idealizada, seria uma conduta onde houvesse uma denúncia. 

Mas como essa denúncia pode ser realizada? 

A médica Karina Tomiasi explica que as denúncias podem ser realizadas via telefone, através dos canais “disque-saúde” no número 136 ou “violência contra a mulher” no número 180. A enfermeira obstetra Gabrielle Oliveira complementa que as denúncias também podem ser feitas, no Distrito Federal, através do canal da ouvidoria da SES-DF, discando 162, mas caso a paciente ainda esteja no hospital, ela pode se dirigir à ouvidoria do mesmo para realizar a queixa.

A advogada Vera Lúcia Santana Araújo, reforça a importância de denunciar casos assim, “a única coisa que não pode é uma mulher, percebendo que tenha sido vítima de uma violência obstétrica ficar calada. O silêncio somente soma contra nós mulheres, jamais silencie diante de qualquer violência, ainda mais a obstétrica”, afirma.

Por Gabriella Tomaz e Nathália Guimarães

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção