“A vida nunca mais será a mesma”: em livro, jornalista revela estupro e diz que violência é “questão coletiva”

As letras surgiram, página após página, trazidas pela memória do pesadelo. Não só da própria jornalista Adriana Negreiros, vítima de um estupro no ano de 2003, mas também de histórias brasileiras que se misturam. “Estou convicta de que a violência sexual não é uma questão pessoal, mas coletiva”, afirma a autora do livro A vida nunca mais será a mesma (Editora Objetiva), lançado nesta semana, que atualmente mora na cidade do Porto (Portugal).

Assista a trecho de entrevista com a jornalista

“As pessoas perguntavam qual roupa estava vestindo”

“(Ao saberem da violência) As pessoas me perguntavam qual roupa eu estava vestindo. Depois a gente fica pensando… será que eu fiz algo que levasse a isso? Por mais que tenhamos consciência de gênero, é inevitável procurar alguma razão”. 

Adriana Negreiros, que escreveu a biografia Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço (2018), busca entender a profundidade da cultura do estupro no Brasil. “Uma vez que não tenha sido possível superar a dor e a vergonha que me acometeram ao longo destes anos, pelo menos pude transformar isso em algo que me desse alguma satisfação, como o livro”, diz a jornalista.

Cenário de violência

Segundo dados do 15º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado em julho deste ano, foram feitas 694.131 denúncias de violência doméstica para o número 190 em 2020. O Brasil também se encontra em quinto lugar no ranking de maiores casos de feminicídio no mundo, segundo a ONU Mulheres.

Na visão da jornalista, esses índices resultam de uma naturalização da violência contra a mulher, ainda presente no cenário brasileiro, o que se tornou material de pesquisa durante o processo de produção da obra.

“Se observamos na televisão, na música ou na publicidade por exemplo, podemos ver na história as mulheres sendo tratadas como meros objetos para os homens. Isso passa a mensagem de que se uma mulher é um objeto do homem ele pode fazer o que quiser com ela”, afirma.

Ela ainda ressalta que hoje a temática já é mais discutida, principalmente em razão do movimento feminista, mas a naturalização da questão ainda se faz presente.

“Há uma naturalização da violência sexual”, diz a jornalista

 

Contando a própria história

Capa do livro. Foto: Divulgação

A autora relata que optou por também inserir sua história por conhecer os efeitos que a violência sexual causa na vida de uma mulher. “Entendi que eu tinha lugar de fala para tratar dessa história”. Ela explica que, no caso dela, a justiça agiu rapidamente com o criminoso preso, o que considerou uma exceção no Brasil. 

O depois

Ela lamenta que há evidentes tratos machista no país, da investigação ao julgamento. A obra se torna uma forma de acolhimento às mulheres vítimas de violência, que costumam viver em uma grande solidão. Assim, resolveu não abordar apenas os casos em si, mas também a maneira como eles impactaram a vida dessas mulheres.

“Eu acho que essa é a parte mais difícil de se lidar, o depois. Quando a sua vida é completamente rasgada naquele momento e você precisa costurar isso de alguma maneira. É um processo difícil e solitário, então acho que mais do que encorajar as pessoas a contarem seus casos, esse livro acaba sendo algo onde as vítimas podem encontrar alguma conexão”, diz a escritora.

Confira trecho de entrevista: “Brasil tem Lei, mas um presidente que faz apologia ao estupro”

Fora do Brasil

A jornalista, que mora em Portugal há três anos, afirma que lá a questão da violência é bastante discutida, mas, em termos de legislação, ainda se encontra alguns passos atrás do Brasil. Isso se deve principalmente à Lei Maria da Penha (saiba mais da Lei) que é um grande trunfo do combate ao abuso.

Ela relata ver um maior receio das mulheres em espaços públicos no Brasil e que se sente mais segura no Porto, cidade em que vive. Entretanto, ressalta que isso não significa que casos de violência e feminicídio estejam restritos a solos brasileiros. Há claro, uma diferença cultural, porém a autora diz que existem muitas semelhanças, como a culpabilização das vítimas nos julgamentos, exemplifica. 

“Um adendo: uma diferença importante é que o Brasil tem um presidente que já fez apologia ao estupro e é misógino”, afirma.

Mulheres no jornalismo

Com este novo livro, Adriana afirma ter tomado uma decisão política além da jornalística. Aponta que existe muito espaço na história das mulheres para ser abordado.

“Acabei seguindo o mesmo tema, escrevendo sobre mulheres, sobre a violência cometida contra elas. Posso dizer que tenho um olhar para essa questão. Acho importante escrever sobre mulheres, já existem muitas pessoas escrevendo sobre homens e lendo sobre homens. Acredito que meu olhar, pelo menos em um horizonte próximo, sempre vai ser voltado para as mulheres”, ressalta.

Já em seu papel como jornalista, relata ter presenciado uma clara divisão na ocupação de certos espaços. Os lugares de poder, editorias de política e economia, eram majoritariamente ocupados por homens. Mulheres sempre foram colocadas em locais usualmente tidos como femininos, como cuidados e beleza.

Ela comenta que é fundamental garantir um olhar feminino sobre as pautas, denunciar disparidades e violência de gênero, além da busca por personagens femininas.

“Neste espaço de poder ocupado por homens, o olhar é masculino, homens entrevistando homens e reproduzindo discursos de homens. Devemos ampliar as pautas para nossas questões. Nos colocar no mundo, não reforçando os padrões de feminilidade que a imprensa costuma trazer, mas também ocupando as instâncias de poder”.

Por Maria Paula Meira
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção