Cadê o orelhão que estava aqui?

João Batista da Silva (77), mais conhecido como Seu Batista, relembra seus dias como encarregado geral do centro de operação da Telebrasília, que atualmente é a operadora de telefonia Oi.

Foto: Agência Senado

Ele conta que foi um dos responsáveis por testar e distribuir os primeiros “moedeiros” de Brasília, no início dos anos 1970.

“Usávamos esse nome pois era preciso inserir moedas para realizar uma ligação. Cada uma permitia uma chamada de até três minutos, sendo que se o tempo total não fosse completado a máquina até devolvia as moedas”.

Numerosos no fim do século passado, a cada dia que passa perdem mais espaço para os telefones móveis, sumindo das paisagens urbanas.

 

Imagem: acervo pessoal de João Batista

 

Na época, existia o desafio de entregar serviços de telefonia aos brasileiros, porém não era um recurso acessível para a população na década de 70, e a telefonia móvel era um sonho muito distante. Além disso, era preciso encontrar uma solução que unisse o custo com a qualidade das ligações. Nesse contexto, a arquiteta chinesa Chu Ming Silveira foi escolhida para desenvolver a proteção de fibra de vidro que caiu no gosto popular com o apelido de “orelhão”.

Até 2001, mais de um milhão de orelhões estavam disponíveis por todo o território nacional, porém nessa mesma época começou o seu declínio: com os avanços tecnológicos, já não era mais tão difícil obter uma linha de telefone fixo, além da popularização de telefones móveis.

Houve também uma razão política: as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, que incluíram as empresas de telefonia, como a própria Telebrasília citada por seu Batista. A expansão dos orelhões deixou de ser foco do estado.

Em 2018, foi assinado um decreto pelo então presidente Michel Temer que desobriga as concessionárias a manter um orelhão a cada 300 metros, ou quatro a cada grupo de 1000 pessoas. O decreto, porém, determina que pelo menos um orelhão permanece obrigatório em locais com pelo menos 300 habitantes, mas a tendência é que se limitem a lugares essenciais, como hospitais, escolas e delegacias.

Em consulta ao site da Anatel, no plano piloto existem 202 TUPs, concentrados na região central de Brasília, 38 estão localizados no entorno da rodoviária de Brasília, 49 localizados na Asa Sul e 17 na Asa Norte. Outros estão localizados nas cidades satélites, vide o mapa;

 

 

 

Saiba mais no site da Anatel

De acordo com os dados encontrados no site da Anatel, o centro-oeste é uma das regiões que menos possuem orelhões, com 13,599, ficando atrás apenas da região norte, que possui 11,977 orelhões. Sendo mais preciso, no DF existem 1.770 TUPs (Telefones de Uso Público), dos quais 1.749 estão ativos e 21 em manutenção, representando uma disponibilidade de 98,8%.

Ainda se tratando do Distrito Federal, o site da Anatel afirma que desses 1.770, 935 funcionam 24 horas por dia, 242 são adaptados para cadeirantes e 47 são adaptados para deficientes auditivos e de fala. No DF, dentre as concessionárias OI, Embratel, CTBC, Telefônica e Sercomtel apenas TUPs da concessionária OI estão disponíveis. A Anatel não possui dados em relação aos orelhões mais utilizados.

Apesar do número de orelhões em manutenção ser baixo, qualquer um pode reportar mau funcionamento do telefone público. Segundo a Anatel, após o registro junto à concessionária, o prazo máximo é de até 24 horas para a realização do reparo. Porém o processo é diferente em localidades atendidas exclusivamente por acesso coletivo.

“Situadas à distância geodésica superior a 30 km de uma localidade atendida com acessos individuais, em no máximo em 10 dias. Em todos os casos deve ser anotado e guardado o protocolo de atendimento fornecido”.

Riscos

Um telefone público pode parecer nesse momento de pandemia um grande “transmissor” da doença, porém, o presidente da Sociedade de Infectologia do DF, José Davi, acredita que é necessária a desmistificação do que é a transmissão por superfície. “A gente sempre pontua que o grande fator que eleva a transmissão hoje é a transmissão pelo ar”, explicou.

Além disso, Davi observa que o orelhão não é mais tão comum como era antigamente. “Hoje é um ponto menos importante, ele perdeu muito seu uso, uma vez que os telefones celulares são bem mais presentes na comunicação entre pessoas na área pública”. 

Contudo, Davi alerta para o risco raro de transmissão através de um orelhão que possui a “cápsula” envolvendo o telefone, caso a pessoa que está utilizando o telefone público retire a máscara para realizar sua ligação. “A pessoa vai deixar ali a superfície contaminada com gotículas, e sendo um lugar semi-fechado pode ser um mecanismo de transmissão exacerbado. Mas ainda acho que o orelhão é um dos pontos menos importantes quando a gente elenca todos os locais de transmissão”, alertou.

Por Maiza Santa Rita e Vinicius Pinelli

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção