Rotina de cobradora de ônibus expõe invisibilidade na linha de frente

“É uma situação caótica. É muita gente no mesmo espaço. Parece que não tem pandemia”, lamenta a  cobradora de ônibus, Rosimar Ferreira, de 51 anos de idade. Ao mesmo tempo em que essa atividade profissional é considerada invisibilizada por causa da falta de valorização,  está também submetida diariamente a muitos olhares, físicos e sociais, o que também a deixa em risco em dias de pandemia. Sentada durante toda a jornada de trabalho do veículo em movimento, não há como se esquivar no espaço. Por isso, mantém máscaras e álcool em gel como instrumentos de proteção.

 

As pessoas que viajam junto a ela são de todos os cantos do DF, entre as linhas Asa Norte, Águas Claras e Rodoviária. A cobradora não deixou de trabalhar e segue firme, enfrentando o coronavírus e as circunstâncias da doença. Enquanto trabalha os seis dias da semana, em um escala de quase oito horas por dia, a principal passageira diária se tornou o medo da contaminação da Covid-19. Sua segurança não é mais a mesma. Rosimar nunca irá saber se aquela pessoa que passou a roleta e a cumprimentou é sintomática ou assintomática. Ou se aquela que trocou o dinheiro na sua mão está infectada. 

“Eu nunca deixei de trabalhar, nem todos os rodoviários. Estivemos sempre na linha de frente. Eu vejo que o governo não deu tanta importância para nós. Éramos para ser considerados prioridade em tomar a vacina (saiba mais sobre grupos prioritários de vacinação). Todos os dias eu transporto cerca de 200 pessoas, eu nunca vou saber quem está ou já teve Covid ali no meu lugar de trabalho”, desabafa a cobradora.

Risco de contaminação para a cobradora

Segundo a pesquisadora Adriana Modesto, doutora em transportes pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em direito sanitário pela Fiocruz, acredita-se que o risco das cobradoras é capaz de ser ainda maior comparado com o dos condutores dos coletivos. Em decorrência do pequeno espaço confinado com a alta rotatividade de pessoas e a interação destes com a funcionária, auxiliando no cartão do transporte e no manuseio de dinheiro da passagem.

O que a profissional mais enfatiza sobre a atuação em meio a uma crise sanitária dessa proporção é a invisibilidade também em relação a mecanismos de proteção que poderiam ser proporcionados pelas autoridades de saúde. O trabalho dela permaneceu durante todo o ano, independente de pandemia, quarentena, e as restrições de movimentação no Distrito Federal. Até quando grande parte do país estava se protegendo no conforto de suas casas.

Medidas possíveis

 A pesquisadora Adriana Modesto explica que, para maior segurança das pessoas em transporte coletivo,  uma medida poderia ser o modelo OniPlus (saiba mais sobre o projeto), desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), a partir da medição de temperatura nas catracas, criação de assentos com cabines de proteção e a higienização do veículo por meio de lâmpadas de raios UV. Esse projeto está à disposição, mas cabe ao Governo do Distrito Federal decidir pela implantação.

A empresa de ônibus em que Rosimar trabalha oferece máscara, álcool gel e higieniza o veículo sempre quando o veículo chega no terminal. Mas, mesmo assim, não é o suficiente. A falsa sensação de segurança é um risco para as profissionais.

“A vulnerabilidade é muito grande. O perigo é logo alí. Eu tenho medo de pegar o vírus e levar ele para a minha família. Eu preciso estar me vigiando sempre, não posso esquecer de mim. Tenho que perguntar para mim mesma se eu passei álcool gel e lavei as mãos nos terminais”, destaca a cobradora.

Mesmo com tanta cobrança, ela tem medo de ser contaminada no contato com os  passageiros. “Muitos usam a máscara de forma indevida, pegam em tudo e não passam álcool”.

Trabalho essencial, mas sem imunização

Apesar dos riscos, Rosimar não é favorável à paralisação ou redução do trabalho em transporte coletivo. Ela compreende e se sente empática aos inúmeros trabalhadores que dependem dele. Contudo, o maior desejo dela é que a classe rodoviária seja mais assistida pelas autoridades de saúde, e tratada como prioridade para tomar a vacina contra a Covid-19.

“Devido à exposição dos rodoviários em sua dinâmica laboral, entende-se a necessidade que esses profissionais devem ser tratados como prioritários à imunização. De modo que não comprometa a imunização de outros trabalhadores em maior grau de exposição ao contágio, como os profissionais da saúde”, afirma a pesquisadora Adriana Modesto, também membro da Rede Urbanidade, vinculada ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios – MPDFT.  Ela entende que é necessária mobilização fundamental das entidades de classe que representam esses trabalhadores. 

 

O GDF afirma que o trabalho dos rodoviários é considerado essencial e reconhece que estes rodoviários estão diariamente sob exposição do vírus. No entanto, em nota para a Agência UniCEUB, a Secretaria da Saúde do Distrito Federal informou que, por causa da baixa quantidade de doses recebidas de vacinas, a prioridade inicial, como tem sido, é para o público idoso, de acordo com o estabelecido no Plano Nacional de Vacinação, o que inclui a imunização com a segunda dose. Após esse período, a secretaria avalia que , é possível surgir maior ampliação para outros grupos que não podem estar em isolamento social.

Ainda, segundo a secretaria de Saúde, essa ampliação depende exclusivamente da quantidade de vacinas que o Brasil, e consequentemente, Brasília recebem. “Atualmente, existe uma dificuldade na obtenção dessas doses. Porém, só haverá maior seleção de pessoas prioritárias se houver maior recebimento do imunizante por parte do Ministério da Saúde”. 

Machismo nos transportes também na pandemia

Mesmo com toda a problemática sanitária que enfrenta, Rosimar ainda precisa lidar com o preconceito de certos passageiros. Há casos em que homens preferem não escutar as recomendações da cobradora sobre distanciamento. Segundo ela, por ser mulher, ela se sente mais receosa em ter que reclamar com alguns passageiros porque há demonstrações cotidianas de desrespeito. 

“Eu e o motorista sempre alertamos as pessoas quando vemos irregularidades, mas há pessoas que não têm jeito. É difícil. A gente chama atenção e elas não aceitam. Brigam, xingam, e, principalmente, por eu ser mulher, muitos não dão a mínima quando eu falo”, lamenta.

Por Paloma Castro
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção