Drags e clube LBGTQ explicam como se reinventaram durante pandemia

Lee Brandão é uma drag queen residente em Brasília que tem buscado se sustentar na vida artística por lives solidárias, auxílio emergencial e cantando em barzinhos. A artista trabalha de forma autônoma. Ela disse que, durante a pandemia, tem se sustentado como pode por meio de pequenas parcerias. Uma delas foi com  projetos de incentivo à cultura. 

Lee Brandão (Créditos: via Instagram) 

A artista tem uma carreira como drag, trabalhou na casa noturna Blue Space, em São Paulo, que é referência em shows de drags no Brasil.  Lee também é ganhadora do prêmio ‘Dez ou Mil’ de 2018 do “Programa do Ratinho”, do SBT, ao cantar como Drag Queen.

Ajuda 

Outro artista impactado pela pandemia é Heitor Bento, graduado em Direito mas que não exerce a profissão, já que sua convicção e anseio é dar vida a Drag Medu Zaa pelo país, e decidiu viver somente desse trabalho recentemente. Por já ser conhecido tanto na Vic como no Lah, fechou parceria com o bar da Asa Sul para se apresentar eventualmente e conseguir uma ajuda financeira por meio do projeto ‘Apoie Artistas Locais’. 

Medu Zaa se apresenta no Lah no Bar na última sexta-feira(13) (Créditos: Paloma Castro)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O projeto ‘Apoie Artistas Locais’, de iniciativa do espaço Lah no Bar, oferece, de início, um cachê para convidados se apresentarem na casa, mas o intuito é estimular os clientes a darem gorjetas. Essa proposta tem sido um suporte financeiro para Lee Brandão, Medu Zaa e para outras drags permanecerem com a vida artística em meio a pandemia. O público pode dar gorjetas durante as performances das artistas ou após seu show.

“Além de oferecer trabalho e cachê para artistas locais LGBTs, chamamos o público para se conscientizar da importância de fomentar a arte, a cultura e o entretenimento, convidando o público a colaborar em cada apresentação com o sistema de gorjetas e caixinhas”, explicou o proprietário Ricardo Lucas. 

As casas de shows noturnas e baladas ainda permanecem fechadas, inclusive a casa Victoria Haus, uma das mais famosas casas LGBTs de Brasília, que abrange um público grande e diverso. A Victoria Haus e a Lah no Bar são ambas propriedades do empresário Ricardo Lucas.  

Com a pandemia, além da nossa própria dificuldade que vivenciamos, muitos espaços sequer conseguiram permanecer abertos. Sabemos que muitos artistas estiveram e estão em extrema vulnerabilidade há meses sem o volume de trabalho que minimamente permitam viver com dignidade. Pensando nestes artistas, assim que os espaços culturais foram liberados em agosto, incluímos em nossa programação mais de 20 artistas por semana, dobrando o número de artistas na casa semanalmente”, comentou Ricardo Lucas.

Segundo o empresário, desde a inauguração do Lah em junho de 2019, o bar sempre recebeu em sua programação semanal 10 artistas, todos de Brasília. Mas com as dificuldades econômicas que esses artistas sofreram com a suspensão de shows e eventos, o Lah decidiu dobrar o número destes convidados, como uma forma de restaurar o setor artístico. 

Independente do amparo que o bar tem buscado oferecer aos seus convidadas e convidados, Lee Brandão ainda comenta sobre a instabilidade financeira que tem sido viver sem a chegada de uma vacina, assim como a adequação do público em distribuir gorjetas, já que é um método novo e incerto. “É meio difícil porque nem todas as artistas possuem seu público. Às vezes dá um dinheiro bom, às vezes não. O público ainda tá se adaptando com esse lance de gorjetas”, comentou a Drag. 

Redes sociais como palco 

Heitor comentou que teve a certeza de seguir carreira de drag e maquiador artístico no final do ano passado. Ele buscou se empenhar mais ao trabalho no começo deste ano. A partir disso, ele viu que o único meio para que sua drag se mantivesse viva e próxima ao seu público era pelas redes sociais, mas que mesmo assim não é a mesma coisa. 

“Eu passei seis meses trabalhando e fazendo show em casa. Uma das formas que eu busquei de sustentar a Medu Zaa foi mediante as lives e os IGTVs, postando shows que eu nunca havia postado, publicando mais stories e interagindo melhor com os seguidores, perguntando o que eles queriam ver. Mesmo assim é diferente, a gente quer ter contato com o público diretamente, olhar nos olhos das pessoas”, contou Medu Zaa. 

Enquanto isso, Lee Brandão esclarece que marcas e produtores não enxergam Brasília como um ponto forte para investir em possíveis influenciadores digitais. 

“É difícil tentar produzir conteúdo sem apoio nenhum, até porque o Instagram virou nossa vitrine. Redes sociais são só para lives solidárias mesmo, que dá pra conseguir algo” afirmou a Drag, que tem se sustentado principalmente dessas lives. 

Trabalho remoto

Para Medu Zaa, há pontos positivos e negativos do meio digital para a carreira como drag. “O ótimo é porque muitas pessoas veem, muitas pessoas assistem, comentam e que às vezes não podem estar com a gente nos shows. No entanto, tudo mudou com a pandemia. As pessoas começaram a acompanhar mais as redes sociais, e, antes, o que era algo inédito com as lives, passou a ser algo extremamente comum, todo mundo começou a fazer e o ambiente ficou muito competitivo, devido à audiência fragmentada.”

Levando em consideração que todos começaram a produzir conteúdo para a internet, ela acrescentou que suas visualizações caíram pela metade. 

“Eu acho possível realizarmos eventos em lugares abertos, porém não temos espaço nem acesso a lugares, tanto por serem muito concorridos e privados quanto pelo preconceito pela comunidade LGBT”, afirmou Lee Brandão. 

Apresentações de artistas LBGT são restritas a lugares fechados e conhecidos somente pelo público que frequenta.

“Infelizmente a arte drag ainda é muito vista com discriminação, como algo estranho ou ruim. Quem está no meio gosta, mas quem não conhece não entende e não disponibiliza os espaços”, acrescentou Medu Zaa. 

Expectativas para o ano de 2021

Em um breve comentário sobre quais seriam os sonhos e as expectativas das artistas para o ano de 2021, as duas responderam que gostariam de colocar em prática seus projetos profissionais. Inclusive, uma expectativa e preocupação apontada pelo maquiador artístico Heitor, que dá vida a Medu Zaa é o não querer que mais pessoas morram por conta da Covid-19, fazendo relação mais as pessoas que prestigiam seu trabalho e que permitam sua drag alcançar posições nunca antes pensadas, que realmente acrescentam na sua carreira. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Créditos: @meduzaadrag 

 

O que é ser drag ? Carrie Myers explica carreira  

Carrie Myers se apresentando no Lah no Bar no dia 13 de novembro (Créditos: Paloma Castro) 

Carrie Myers tem se dedicado à vida artística desde muito jovem. Primeiro, ela fez parte do grupo de teatro da igreja. Essas relações com a arte também fizeram com que se aproximasse da maquiagem. Por ter passado grande parte da sua vida envolvido com o universo artístico, ela disse que, quando decidiu aderir à arte drag como profissão, a família não teve tanto impacto, como muitas podem ter. Além disso, acrescentou que hoje a sua mãe é sua maior fã. 

Ser drag pra mim é algo muito amplo e cheio de vertentes. No meu caso, é uma forma de expressar toda minha arte e sentimentos em um universo paralelo que só eu sei, aquele que se passa dentro da minha cabecinha louca”, sorriu. 

Para aqueles que querem iniciar carreira como Drag Queen, Carrie enfatizou que é preciso ter calma e paciência, porque tudo é questão de tempo. E que apesar da demora, não se deve desistir de ir atrás de um sonho ou do que se queira realizar. 

“Sou grato pelo espaço que tenho, mas não foi e nunca será fácil. Abri mão de muitas coisas pra viver esse sonho e não me arrependo”, finalizou Italo Matheus, responsável por dar vida à drag Carrie Myers.  

Por Paloma Castro
Supervisão de Katrine Boaventura e Luiz Claudio Ferreira

 

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção