Tanto gosto na lembrança

Na cozinha, a fumaça carregada da fritura, dá lugar para o cheiro forte de pimenta, cebola e do camarão. Patricia inicia o preparo do acarajé no dia anterior, descascando o feijão fradinho e preparando a massa. No dia seguinte com a massa pronta, Patrícia modela com duas colheres deixando o quitute no formato clássico do acarajé. Terminado esse processo de preparo, a massa é mergulhada na frigideira onde está o azeite de dendê. Lá ela fica submersa por três minutos e em seguida com os ingredientes dispostos na bancada é hora de montar o acarajé. O que parece comida, na verdade, é um sabor de lembrança.

 
Bancada em que Patrícia monta os acarajés para venda (Foto: Arquivo Pessoal)
 

Nascida na capital do cacau ou como seus habitantes chamam “Princesinha do Sul”, lar do mais extenso litoral do estado da Bahia, Patrícia Freitas cresceu e viveu seus primeiros 27 anos de vida em Ilhéus, durante essas quase três décadas. Patrícia teve uma vida bastante praiana, onde se formou no ensino médio e logo depois casou e teve uma filha, chamada Clarissa. Aos 27 anos Patrícia se mudou para Salvador onde teve seu segundo casamento. Lá teve dois filhos, Marcelo e Maria, lá trabalhou como prestadora de serviços, na função de assistente administrativo para a Petrobras por 11 anos.

 

Em dezembro de 2008 o marido de Patrícia passou no concurso para analista de infraestrutura do Ministério do Planejamento, que foi incorporado pelo atual Ministério da Economia, e por conta disso Patrícia deixou o litoral nordestino e veio para o Planalto Central junto da sua família. Em Brasília Patrícia trabalhou por mais cinco anos na Petrobras, depois foi trabalhar para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes como analista na área de serviço social e em agosto deste ano Patrícia deixou a DNIT e passou a trabalhar apenas com acarajé.

 

Sempre muito ligada à cultura nordestina, Patrícia buscou transmitir isso para seus filhos, levando eles para o Pelourinho, carnaval de rua, rodas de capoeiras e (claro) às praias Patrícia acabou sentindo uma enorme diferença quando começou a morar em Brasília, principalmente pela falta do banho de mar e o vento da orla. “Eu sempre morei proxima a praia, desde criança, e então senti uma diferença muito grande, a gente tentou explorar as cachoeiras… mas não era a mesma coisa”. Para manter a cultura nordestina viva em seus filhos, mesmo estando tão longe da terra natal, Patrícia sempre fez questão de mantê-los em contato com a culinária, com a música e com a cultura. Por isso quando chegou a Brasília, matriculou o filho Marcelo que sempre gostou de esportes em uma roda de capoeira, além disso ela buscou manter a essência da culinária nordestina dentro de casa, trazendo das suas viagens anuais a Bahia: frutos do mar, acarajés congelados ou os ingredientes para ela mesma fazer em casa.

Família de Patrícia realizando uma trilha, da esquerda para a direita o filho Marcelo, a filha caçula Maria, Patrícia, a filha mais velha Clarissa e o marido Marcelo (Foto: Arquivo Pessoal)
 

Outra diferença que Patrícia sentiu entre o nordeste e Brasília foi a comunicação. Para ela, os brasilienses são muito fechados enquanto os nordestinos são expansivos e alegres. “Em Salvador você pega um elevador e saia perguntando: tudo bem?, bom dia, o dia tá lindo? tá quente? tá frio? e aqui em Brasília você dá um bom dia e muitas vezes nem tem resposta”. Além disso, a questão dos palavrões foi algo chocante para Patrícia. Ela explica que em Salvador a palavra “porra” é quase como um verbo para eles, enquanto em Brasília é tido com estranhamento.

 

A alimentação também foi outra diferença sentida por Patrícia e sua família, apesar de Brasília ter sido construída pela força dos candangos nordestinos, a culinária parece que não foi bem recebida na capital. Patrícia afirma que foi difícil encontrar um lugar que vendesse comida nordestina e também do preconceito das pessoas com a culinária. “Você perguntava onde poderia encontrar um sarapatel, um acarajé e as pessoas não sabiam o que era ou quando sabia ficavam em choque por você comer esse tipo de comida”.

 

Motivada por isso, Patrícia em uma das suas viagens para Bahia decidiu fazer um curso para se capacitar na arte de fazer um bom acarajé. Quando voltou, Patrícia passou a fazer ela mesma a massa do acarajé, fritar e congelar, para depois servir para seus amigos e parentes nos eventos e festas que fazia em casa. Segundo ela, seus amigos a incentivaram a começar a vender dizendo: “Poxa você precisa vender esse acarajé, aqui a gente não encontra um acarajé assim igual o da Bahia”.

 

No início, ela divulgava seu acarajé apenas entre seus amigos, mas com a chegada da pandemia do Coronavírus (Covid-19) e instaurada a quarentena no país, Patrícia viu uma oportunidade e a agarrou, pois como ela mesma disse: “Se quiser comer um acarajé, a gente não vai ter uma baiana ali fritando”. Foi então que ela criou a sua loja no Instagram, chamada de “Acarajé da Tita”, onde de acordo com ela você pode comer o acarajé a hora que quiser porque você não vai depender do dia que a baiana estiver disponível para fritar.

Acarajé embalado junto com os ingredientes para que o cliente montar o seu próprio acarajé (Foto: Arquivo Pessoal)
 

Mas o Acarajé da Tita não fica preso apenas no produto que é o carro-chefe da nova empresa. Eles vendem também abará, vatapá e casquinha de siri, mas Patrícia vem analisando a possibilidade de adicionar novos pratos da cultura nordestina no cardápio. Ela passou a lucrar e conseguir voltar para casa toda vez que chega à cozinha.

Por Gabriel Marques

Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção