De empregada doméstica a professora: “meus alunos se identificam com minha história”

Juliana Araújo começou a trabalhar como empregada doméstica. Quando tinha 12 anos, teve que interromper a ida para a escola, sua maior paixão, para ajudar em casa. A mãe dela era gari e o pai, lavrador. Natural de Itumbiara (GO), soube somente depois que poderia abraçar outra profissão. A inspiração veio de uma das irmãs que trabalhava em um colégio de freiras, na cidade de Itapaci (a 380 km de distância).  Foi um longo caminho. Hoje, a professora, de 48 anos, gosta de contar as histórias do passado para os alunos da rede pública. “Eu comecei a contar as histórias da minha infância na roça, da minha mãe ser gari, e eles se identificaram com elas”.

Ela lembra quando mais jovem se encantou ao observar a irmã em sala de aula. Foi o começo da história de superação. Ela, quando trabalhava no emprego, descobriu o que queria fazer para a vida: o magistério. A doméstica foi fazer pedagogia. Chegou a ser contratada na escola de freiras que a irmã trabalhava. O contrato era temporário.

Então, Juliana decidiu fazer vestibular para o curso de pedagogia na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Juliana passou em primeiro lugar, porém ela sabia que seria difícil conciliar faculdade, emprego de professora no município de Itumbiara, e a criação de seus dois filhos.

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Após 5 anos como funcionária pública, resolveu vir para Brasília para tentar outras oportunidades. Ela enfrentou dificuldades até conseguir emprego em uma escola particular do Paranoá. Apesar do preconceito sofrido pelo seu sotaque, virou coordenadora e passou quatro anos no cargo.

Ela decidiu, então, fazer outro concurso. Desta vez para professora temporária da rede pública. Passou por um período de depressão nessa época, devido a dificuldades financeiras. Juliana passou três meses nessa rotina de estudo e trabalho intensos. Entretanto conseguiu ingressar no cargo.

Atualmente com 48 anos e trabalhando como professora da educação infantil da Escola Classe Ipê, uma escola rural do Park Way, Juliana Araújo relata que se tarnsformou durante o processo. De empregada doméstica tímida para uma professora apaixonada pelo seu trabalho e com realizações inspiradoras. 

A professora Juliana atua em escola pública no Park Way, em Brasília. Arquivo pessoal

Confira entrevista com a professora

Como foi a transição de empregada doméstica para professora? Você teve apoio de algum patrão?

Juliana Araújo – Eu tive que me desconstruir. Sabia que eu queria estar em uma nova profissão, mas não me sentia preparada e capaz. Na escola de freira algumas pessoas se formavam e outras eram contratadas pela própria escola. Precisei fazer bicos no período em que estive estudando e desempregada, fazendo trabalhos manuais artísticos para colegas. Na época, o magistério exigia algo seriado como desenhos e pinturas, e eu tinha muita facilidade com isso.

Foi então que a freira diretora me contratou porque achou que eu seria uma boa professora de artes, acreditou em mim. Passei a ser professora, mas morria de medo de fazer algo errado, porém percebi que é experimentando que você percebe o que consegue e não consegue fazer. Fui me construindo como professora e deixei as inseguranças de lado. Patrão apoiar? Não tinha isso. O que importava, por exemplo, limpar toda a louça antes de sair para a escola, eu chegava muitas vezes atrasada. Eu morava no centro três de Taguatinga e tinha que ir pra perto do SESC andando a comercial inteira pra pegar ônibus.

Mas não importava, só podia pensar em estudar depois de terminar o serviço.

Na casa de uma patroa em Itumbiara, ela me fez passar um ano sem estudar; eu tinha 12 anos. O pior é que isso ainda acontece por aí, infelizmente a sociedade prefere que quem serve continue servindo e não se prepare para a vida profissional.

 

Quais foram as dificuldades que a senhora enfrentou no caminho

Juliana Araújo – Eu sempre tive dificuldade de olhar para mim e perceber esse poder que carrego como mulher. Estou me empoderando agora, entendendo o que isso significa, e consigo olhar para trás e perceber que tenho muito orgulho dessa história; da luta da minha mãe que queria que a gente estudasse, que não tivéssemos o sofrimento dela de morar em casa de patrão como serviçal. Ela foi gari, por muito tempo nos sustentou limpando rua no interior. Fomos nós que ajudamos ela a construir a casa que ela mora hoje no interior do Goiás. Eu ainda não tenho minha casa própria, mas esse é meu sonho. Portanto, quando penso que já sou até avó, eu olho pra trás e vejo que sou grata pela minha jornada; por ter passado as dificuldades que passei, pois elas me fizeram forte e ser quem sou hoje, além de valorizar meu trabalho. 

 

A senhora acredita que sua história pode inspirar outras pessoas ?

Juliana Araújo – Acredito. Aqui em Brasília eu tive uma experiência de trabalhar dois anos na Estrutural que guardo com boas recordações. Eu dava aula para pré-adolescentes de quinto ano que não tinham nada a perder; eles iam sujos pra escola vindos do lixão, uma realidade muito triste. Lembro que como meu contrato era temporário, os efetivos escolheram as melhores turmas e deixaram essa de repetentes muito difíceis para mim. Tinha até casos de assalto a mão armada, histórias bem fortes mesmo.

Eles me botavam em um patamar muito além do deles, achando que eu era rica pois minha bolsa tinha uma corrente dourada, mas não era nada disso. Eu comecei a contar as histórias da minha infância na roça, da minha mãe ser gari, e eles se identificaram com elas. Comecei a sentir uma conexão boa na sala, eu consegui trazer esses meninos afetivamente para perto de mim, e isso inspirou bastante aquela turma. Creio que fez uma grande diferença essa história de vida se igualar com a deles, tinha muito a ver com eles também.

 

 

 

A senhora sofria preconceito quando as pessoas tomavam conhecimento de sua história?

 Juliana Araújo – Passei por isso inúmeras vezes. No começo, não acreditavam que eu era capaz; os professores se perguntavam como que aquela doméstica, vinda de uma família de domésticas e ainda mãe solteira, que limpava o chão e pouco falava agora trabalha como professora, e é até minha colega de trabalho. Muitas vezes minhas ideias não eram ouvidas. Pensando nisso outro dia, percebi o quanto eu era insegura na minha época de doméstica; eu era uma menina muito insegura, com autoestima muito baixa.

Depois que me tornei professora, abri vários caminhos e por consequência, minha mente. Por exemplo, nunca parei de estudar, estou terminando duas pós-graduações. Eu precisei mostrar muito que eu era capaz para as pessoas acreditarem no meu trabalho, além de não poder errar e ser julgada, principalmente pelas pessoas da minha cidade. Hoje estando aqui, eles me olham com outros olhos, pois felizmente participei de vários projetos bacanas que envolvem comunidade e fizeram muitas coisas boas, que mudaram o conceito das pessoas sobre mim.

Do que se tratam esses projetos que a senhora participou ?

Juliana Araújo – Eu amo a natureza. Adoro árvores, inclusive nasci no dia da árvore (21 de setembro). Tenho um carinho especial por um projeto de anos atrás que reverbera na nossa vida até hoje e tem essa temática. Eu trabalhava numa escola que ficava numa área muito quente e que não tinha árvores, as crianças não tinham uma sombra pra descansar. Eu coordenei esse projeto, trabalhando junto da comunidade, e arborizamos a escola toda. As pessoas ajudaram em peso a iniciativa e até hoje as crianças da época contam essa história, elas também foram protagonistas.

Tenho uma memória muito afetiva desse projeto, fico muito feliz de passar lá e ver os flamboyants e ipês floridos. Aqui em Brasília trabalhei em uma escola pública do Núcleo Bandeirante, e tínhamos um projeto da Provinha Brasil de coleta de dados das crianças a partir das atividades, e em cima desses dados identificar dificuldades e projetávamos reforços para as crianças. Eu não lido mais com esse projeto porque saí da escola, estou atualmente em uma escola do campo.”

 

Como a senhora tem feito para motivar a sua turma em relação ao período em que vivemos e às aulas on-line ?

Juliana Araújo – É complicado. Os professores já estão lidando melhor com essa realidade pois já estamos compreendendo a plataforma e o que tem que ser feito. Na verdade, caímos de paraquedas nessas ferramentas, porque a escola não tinha muito acesso a tecnologia, que só aparecia de forma muito esporádica. Não havia computadores para as crianças na escola, e de repente tudo se baseia nele e na internet. Ainda tivemos que nos acostumar a não estar juntos, ter que gravar histórias e conteúdos, lidar com a insegurança de estar fazendo as coisas do jeito certo na frente das câmeras. Isso tudo gerou muito medo e ansiedade; alguns colegas ficaram doentes, outros se afastaram.

Imagina, eu lido bem com o computador, mas e aqueles colegas professores dinossauros? Tiveram que aprender a lidar com a tecnologia, isso quando se importam em aprender.

A gente nunca mais parou de fazer curso para aprender a usar as tecnologias e dar feedbacks, porém ainda não nos sentimos preparados. Mas eu preciso dizer que somos vencedores apesar de tudo. Meus colegas produzem atividades lindíssimas, cada aula que eles postam. Eu aprendi a fazer joguinhos, e assim a gente se ensina, aprende e descobre várias coisas novas. Fato é que não será a mesma coisa quando voltarmos.

Por Vinícius Pinelli

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção