Perfil: cabeleireira readapta serviços durante pandemia

Nayara atende cliente de todos os sábados, Adalcina | Foto: Catarina Angelini

Cabelos loiros, penteados para festas, um babyliss para um cabelo liso, uma escova modeladora, uma unha de cor púrpura, as mechas loiras para a moça que está procurando uma mudança de visual. Pelas cadeiras do salão de Nayara Viana, de 36 anos, os mais variados pedidos. Criatividade tem que estar na rotina dessa mineira que veio para Brasília quando criança. Ela não imaginava que conseguiria colocar em cortes, luzes, cores seus sonhos. Ser cabeleireira não foi um acidente profissional. 

Era o desejo “desde criança”, uma paixão que amadureceu e ganhou espelhos diante de si. “Minhas irmãs faziam tudo que eu queria em troca de arrumar seus cabelos”, diz Nayara. Durante a pandemia, atendeu com horários marcados. Não podia pensar em ficar sem fazer a sua arte. “Faço o que amo e ainda recebo por isso”. 

Como Nayara depende do salão para sobreviver, quando teve de fechá-lo ficou sem chão. Pensou como iria fechar um salão que ficou tanto tempo para se tornar aquilo que sonhou. Fez investimentos aos poucos. Comprou as duas cadeiras pretas de camurça para o conforto do cliente, lavatório de cabelo de cor escura para combinar com as cadeiras, móvel branco com toques escuros feito sobre medida para guardar as escovas. No começo da quarentena, como ainda tinha reserva de investimento. Isso fez com que ela não se desesperasse tanto. 

Com o tempo, esse dinheiro foi acabando. As clientes, segundo ela, pediam o atendimento. O governo federal autorizou por decreto Nº 10.344, o serviço de salões de beleza como essencial, mas o governo local vetou que salões de beleza fossem reabertos. O jeito foi atender informalmente. Não tinha como adiar. O auxílio emergencial, que ela deu entrada no início de abril, logo quando abriram as inscrições, não foi liberado pelo menos nos primeiros dois meses. No status, quando ela entrava para acompanhar a solicitação, só havia uma frase: “em análise”. 

Ela passou a se manter com clientes de dentro do condomínio. “O movimento caiu quase que 70%”. Por isso, ela está fazendo atendimentos com horários marcados, de 2 em 2 horas, depois de cada cliente, ela higieniza todo salão e instrumentos usados, com água sanitária, detergente e álcool 70% e semanalmente faz uma faxina mais profunda de todo salão. Durante o trabalho, faz uso de luvas, máscara trocada a cada duas horas e sempre e disponibilizado álcool em gel para clientes e feita a higienização após cada uma. 

O caminho até o salão 

Nayá, como é conhecida por clientes e amigas, começa o dia às 7h30 para se arrumar e abrir o salão às 9h da manhã. Ela demora apenas 5 minutos para chegar até o local já que mora na mesma rua do negócio. Arruma seu espaço e ali está pronta para começar oficialmente o seu dia. Em um condomínio no Jardim Botânico, em que quando chegou achou que estava parado e sem movimento, porém quando abriu seu salão viu que era apenas uma impressão, pois ali fez uma clientela fiel e presente. Mas Nayara nem sempre trabalhou com salão de beleza. Na vida profissional, já foi balconista, frentista e babá. Aliás, foi cuidando de duas crianças que descobriu sua paixão pela cultura e culinária árabe. Depois, foi recepcionista em salão de beleza na Asa Sul.

Como era um sonho antigo trabalhar na área da beleza, Naya com a indicação de uma amiga conseguiu um emprego de recepcionista no salão em que sua amiga já trabalhava. Foi lá que Naya percebeu que finalmente tinha se encontrado. O dia a dia do lugar a encantava. A correria para fazer o cabelo da noiva, a rotina de cortar e pintar unhas, as mechas feitas para um retoque de raiz e principalmente a mudança de visual que a colorimetria proporciona. Mas nem tudo foram rosas no caminho. Até o trabalho, ela demorava 3 horas para chegar e, por isso, resolveu buscar nova oportunidade. 

Depois, foi trabalhar como frentista, em um posto na Asa Norte. A experiência com bomba de combustível só durou seis meses, porque posto faliu. Após o fechamento do posto, o ex-patrão quis ajudá-la. Naya tinha apenas 17 anos de idade, ele conseguiu para ela um emprego de babá, onde ela trabalhou por três anos, pois além de gostar muito da família e também das crianças que cuidava, se sentia como parte da família. “Fazia tudo com eles, viajava junto para cuidar das crianças, sentava na mesa junto durante as refeições e a avó das crianças até me chamava de filha”, completa Naya. E apesar de ter começado a trabalhar muito cedo, sempre teve registro em todos seus empregos. 

Mas mesmo gostando muito da família, tomou a difícil decisão de sair e ir atrás de seus sonhos. O que ela queria mesmo era trabalhar com beleza. Dessa vez não como recepcionista, mas como manicure, e nesse mesmo salão que havia trabalhado como recepcionista, a amiga que já tinha te ajudado começou a te ensinar como fazer unha e depois de uma prática por conta própria de Nayara, ela fez um teste na dona do salão e assim começou a trabalhar como manicure. Nesse salão, realmente começou sua vida como uma profissional de beleza. E a partir desse momento fez cursos de colorimetria e cabeleireira, design de sobrancelha e depilação.

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Trabalhando em outros dez salões, onde foi adquirindo experiência como manicure, cabeleireira e principalmente com química, que era a área que mais lhe agradava e realizou cursos profissionalizantes por investimento próprio e dos locais em que trabalhou. Com isso foi passando de manicure para colorista e assim realmente se descobriu. Como ela já sabia que tinha paixão por transformar cabelos, percebeu que não podia para por ali e assim surgiu a ideia de abrir seu próprio salão. “Ela é uma pessoa muito carinhosa com todos, mas também é de personalidade forte, fala o que pensa e é muito determinada no que quer”, Zaíra Viana, irmã de Nayara. 

O salão próprio 

Para abrir um salão é necessário um MEI, que significa Microempreendedor Individual, ou seja, uma empresa constituída por uma pessoa, isso se encaixa nos casos de microempreendedor, trabalhador autônomo, como no caso de Naya, mas ela abriu o salão sem MEI, pois para o adquirir precisa ter uma renda de R$ 80 mil por ano e por esse motivo só conseguiu adquiri- lo agora. Um estudo publicado pela Codeplan mostrou que em Brasília existem cerca de 349 mil trabalhadores informais. 

Com esse crescimento, ela também fez clientes fiéis, como Adalcina dos Santos, em que o sábado se tornou sagrado para ela, onde passa todas suas tardes fazendo cabelo, unha, escova, o tratamento completo, mas isso mudou depois da pandemia. “To vindo uma vez por mês agora somente com o necessário e tomando todos os cuidados”, comenta Adalcina.

De acordo com o Sebrae, de um total de 6,6 milhões de empreendedores, mais de 1 milhão e na área da beleza e cerca de 286 mil são MEI. Apesar de Nayara ter aberto seu salão sem nenhum tipo de investimento, foi tudo parcelado, e antiga inquilina havia deixado um mês isento de aluguel, mesmo com tudo parcelado o total da dívida de R$4,5 mil reais, que foi pagando com o tempo com seu trabalho. Ela foi crescendo aos poucos e se tornando conhecida principalmente dentro do condomínio onde mora e tem seu salão. 

Naya pretende continuar com o salão depois que a pandemia passar e fazer promoções para restabelecer a renda e o tempo que ficou sem atender, mas pretende crescer cada vez mais. “Isso não me impedirá de seguir com meu sonho”.

Por Catarina Angelini

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção