Solidariedade – comerciante doa marmitas durante pandemia

A história de Adenilson, que, durante a pandemia, se doa por inteiro fazendo marmitas para os desamparados. 

 

 – Vai no Irmão, ali no ambulatório 1 e ele vai te abençoar com a comida!

Um paciente dá a dica para o outro.

  O “Irmão”, de fato, está lá na área do estacionamento do ambulatório 1 do Hospital Universitário de Brasília (HUB). “Irmão” é o apelido do vendedor ambulante Adenilson da Silva Cruz. Seria um engano achar que também não precise vender suas marmitas para quitar as contas do mês. Desde 2015, decidiu ajudar quem não tem como pagar pela comida.

 Adenilson se compadece com aquelas pessoas que vêm de fora e ficam perambulando pelos arredores do hospital, sem condição de pagarem  por um prato de comida. Isso lhe dói no “fundo da alma”, como se tivesse acabado de levar um soco no estômago. 

A fome também parece doer muito no estômago daqueles desvalidos. “Já senti na pele. É triste você querer e não ter o que comer”, diz enquanto recorda dos seis meses de privação que passou, logo que saiu do convento depois de concluir o ensino fundamental, na cidade de Caconde, interior de São Paulo, ainda na adolescência. Nessa época, foi morar com a mãe, que não tinha como lhe oferecer o básico. E para ajudar no orçamento de casa e garantir a sobrevivência, fez bicos como lavador de carro, engraxate e  ajudante de feira.   

Cansado de ver essas cenas se repetirem todos os dias, embora com protagonistas diferentes, o paulista de 42 anos, morador do Guará 1, há cinco anos tomou a iniciativa de ajudar aquelas pessoas que vêm tentar se consultar no Hospital Universitário de Brasília. E são muitas, vindas geralmente de cidades do Entorno de Brasília, como Valparaíso de Goiás (GO) e Luziânia (GO).

Outras vêm de localidades mais distantes, de estados como Minas e Bahia. Não raro, levam muitas horas para chegar ao hospital e depois passam pela maratona da longa espera, envolvidas apenas por uma cadeira e pela frieza do corredor de hospital. 

Segundo o ambulante, tem paciente que chega ao hospital às 6h e vai ser atendido lá pelas 16h. São pessoas bem humildes, resignadas e acostumadas com a dureza da vida. “Algumas até acham aquele tempo de espera normal. Definitivamente, não dá pra ficar ali anestesiado pelo vírus da indiferença, com tanta tristeza em volta”, desabafa o “Irmão”.

 Quando tudo começou…

Em 2015, quando iniciou sua empreitada como vendedor de ‘’quentinhas’’, Adenilson levava um total de  40 marmitas, cujo custo unitário saía a R$ 5,  já  descontadas despesas como gás, água, luz e a gasolina da moto que usava como transporte, e vendia por R$ 10 (mesmo preço de hoje). “Vendia por volta de 30 e doava 10. Só  tirava mesmo o mínimo para me manter e pagar o aluguel.” 

Movido por um sentimento de indignação, começou ele mesmo a fazer a comida das 100 marmitas que, até então, levava diariamente ao ambulatório 1 do HUB, antes do surgimento da pandemia do novo coronavírus. 

Ali vendia para quem podia pagar e doava para quem não podia, pois muitos daqueles pacientes têm apenas o dinheiro contado da condução da volta para casa.

Foi assim que o “Irmão” se tornou conhecido nas proximidades do hospital.  Graças ao trabalho ambulante associado à filantropia. Ele conta que quando começou a mexer com marmitas não contou com a ajuda ou patrocínio de ninguém. 

Álcool 

  O gatilho para Adenilson ter a iniciativa de fazer um trabalho que ajudasse o próximo foi ter presenciado uma mulher chegar de carro com o filho e começar a distribuir algumas marmitas no estacionamento do hospital. Na ocasião, estava acompanhando sua ex-sogra, em uma consulta no Hospital Regional de Taguatinga. Aquilo lhe chamou a atenção e, aproveitando que não tinha almoçado, acabou aceitando uma. 

      Nessa época, Adenilson andava desgostoso com seu trabalho na empresa onde fazia consultoria comercial. Além de incomodado com a vida desregrada que passou a levar, após ter se separado de sua segunda esposa. “Passava o dia na empresa e ao final do expediente me juntava a alguns colegas em direção ao boteco mais perto e ficava lá até altas horas tomando todas e mais algumas”, relembra. E ao entrar nessa onda, quando percebeu, ele havia se tornado alcoólatra.

      Presenciar aquela mulher, que sequer soube o nome e só viu uma única vez, no estacionamento do hospital distribuindo marmitas, a chancelar a boa ação do dia, fez ele ter a certeza de que daria uma guinada em sua vida. “Pena nunca mais ter visto aquela senhora que me ajudou a mudar o rumo da minha vida. Acho que se não fosse pela decisão que senti ali, naquele exato momento, talvez nada tivesse se modificado e eu não teria procurado a igreja  e nem a Sociedade dos Alcoólicos Anônimos, o AA (alcoólicos anônimos). Pensei então: para largar a bebida, nada melhor do que mexer com comida”, sorri o “Irmão”. 

      Pelas contas do Adenilson, quando ele se viu fora de seu trabalho e da velha rotina regada a cerveja e vodka, o dinheiro que dispunha dava pra comprar os ingredientes e preparar marmitas para vender durante cinco dias, considerando o total de 200 marmitas; levava 40 marmitas por dia. 

Foi com esse quantitativo  de marmitas que o “Irmão” começou sua nova vida, como vendedor e, também, doador ambulante. Ao longo de cinco anos nessa atividade, foi aumentando o número de marmitas gradativamente. 

Quando começou o “burburinho” da pandemia, em meados de março, o “Irmão” já  trabalhava diariamente com uma média de 100 marmitas, no Ambulatório 1 do HUB. Desse total, vendia em média 70 e doava o restante.

 

 Missão 

  Logo no início da pandemia o voluntário percebeu que dias bem sombrios estavam por vir. “No meio daquela noite do mês de março, que se alongava pela preocupação e pela insônia, acabei dormindo vencido pelo cansaço. De repente, me vi no chão, depois do susto de ter caído da rede, que sem explicação arrebentou. E foi naquele exato momento que me veio uma “luz”, algo muito forte me dizendo o que eu deveria fazer para ajudar tantos irmãos necessitados que, com toda certeza,  apareceriam na pandemia.” 

O “Irmão” faz a doação das marmitas durante a pandemia para as pessoas em situação de rua e também para as que ficaram desempregadas, da noite para o dia, como efeito da crise econômica trazida a reboque pelo novo coronavírus.  

A Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal mostra que a taxa de desemprego total aumentou. Pela pesquisa, o contingente de desempregados foi estimado em 333 mil pessoas, 13 mil a mais que no mesmo mês do ano anterior, como resultado da redução do nível de ocupação.

Adenilson sabia que só a intenção não o levaria muito longe em seus planos de voluntário. Lembrou-se então de um empresário amigo, dono de supermercado, que já o havia ajudado em certa ocasião, com doação de alimentos para as marmitas, quando passou por um aperto financeiro. O empresário Gilmar Pereira, de 52 anos, morador de Taguatinga, se prontificou de imediato a ajudá-lo.

O empresário diz que o voluntário é daquele tipo raro de pessoa que é capaz de tirar da própria boca, para doar a quem pareça precisar bem mais do que ele. Para o empresário, ele é um abnegado, no sentido pleno da palavra. “Ele se doa por inteiro, sem medir esforços. O Adenilson não doa só marmitas, ele vai muito além disso. Ele doa principalmente amor, o amor ao próximo”, observa Gilmar, sem esconder a  admiração pelo amigo. 

Para o “Irmão”, que se diz cristão, por detrás do simples ato de doar a comida, existe uma força espiritual muito grande e junto dessa força existe uma fé. E ele acredita plenamente que ao possibilitar aquelas pessoas de comerem uma comida boa estará resgatando nelas a auto estima, para que elas comecem a se sentir gente de novo. 

Adenilson pretende criar um instituto, ou talvez uma fundação, para oferecer a pessoas em situação de rua a chance de aprenderem um ofício. Além da marmita estaria dando a elas a oportunidade de se sentirem úteis e valorizadas como seres humanos. 

Segundo ele, esse instituto teria uma parceria com uma empresária de Brasília, do segmento de doces para festas. Seriam ministrados cursos para que pessoas em situação de rua possam aprender a fazer doces e com isso suas vidas se tornarem menos amargas. Segundo o voluntário, o objetivo principal é poder resgatar essa gente. “É muito fácil amar aquela pessoa que chegou ali toda arrumada, cheirosa. Agora outra coisa bem diferente é você conseguir enxergar aquele irmão que está ali jogado na sarjeta, com feridas, maltrapilho, mal cheiroso. O foco da minha missão como voluntário é cuidar daquela ovelha, tratar a ferida dela. Essa é a verdadeira obra de Deus. A fé sem a obra é morta.”

Para o “Irmão”, “o Covid-19 veio para mostrar pro ser humano que não basta a pessoa só ir pra igreja e ficar lá. Servir a Deus é antes de mais nada colocar a mão no arado. É agir”.   

Leia mais sobre solidariedade

Fome

  Adenilson mobiliza suas doações usando basicamente as redes sociais  Facebook, Instagram e Whatsapp, sendo essa última a mais eficaz. Por lá, direciona suas mensagens, dispondo de grupos que totalizam cerca de 1.200 contatos. Por esses canais, pede doações para distribuição de marmitas.

O trabalho de divulgação de sua obra social é articulado em parceria com o empresário Gilmar, que além de fazer doações tanto em alimentos ou por meio de depósito em conta, vai repassando aos grupos de amigos e esses repassam para outros grupos de amigos, formando assim uma rede do bem, na definição do “Irmão”.

Formada essa extensa rede de colaboradores, muitos depositam a quantia  que podem nas contas divulgadas pelo voluntário e outras doam mantimentos. Ambas as modalidades são de extrema importância. Essas doações se materializam na comida feita com tanto amor pelo “Irmão”

“Isso não tem preço que pague. Sou grato a quem contribui e acredita no alcance dessa missão. E sou ainda mais grato, por doar, além da comida que essas criaturas tanto necessitam, a atenção e o amor que talvez  alimente até mais do que a comida, que vai saciar só o corpo.”

Como sua prioridade é mesmo o próximo, Adenilson vai deixando suas contas em atraso, O aluguel o dono do imóvel deu uma trégua de 2 meses por causa da pandemia, luz e água vai protelando o quanto pode, e muitas vezes paga só a multa para não serem cortadas. Até a pensão alimentícia de duas filhas menores ele costuma pagar com certo atraso, com ajuda do auxílio emergencial concedido pelo governo a quem antes da pandemia trabalhava na informalidade.    

 

Distribuição

Atualmente, o “Irmão” costuma doar em média 140 marmitas diárias na Praça do Relógio, no centro de Taguatinga. Outras tantas ele distribui em pontos como a Praça do DI, também em Taguatinga, na Vila Dimas, situada próximo à estação do metrô no Pistão Sul, em 2 pontos em Ceilândia Norte, na Ponte da Samambaia e no Recanto das Emas. No total, são distribuídas, pessoalmente por ele, todos os dias, 350 marmitas. Ele transporta a comida em um espaçoso utilitário antigo.

De acordo com a Secretaria da Saúde do GDF, no dia 18 de junho/20, a Ceilândia tinha a maior quantidade de pessoas infectadas pelo novo coronavírus.e Contabilizava 3.455 casos confirmados. Em segundo lugar aparecia o Plano Piloto, com 2.036, e em seguida Taguatinga, com 1.898 casos

Adenilson se arrisca em Taguatinga e em Ceilândia, cidades onde faz a distribuição das marmitas todos os dias. Afirma que sempre toma os cuidados necessários, usando máscara e álcool gel, durante o tempo que está na rua fazendo o trabalho voluntário. 

 Hoje, o quantitativo de 350 marmitas só se tornou possível graças a cozinha industrial que o empresário Roberto Batata, com a ajuda de outros empresários do Núcleo Bandeirante, doou ao “Irmão”, no mês de abril. A entrega da cozinha foi um momento de  indescritível emoção para o voluntário e rendeu até matéria em um telejornal local. 

Para o amigo e empresário Gilmar, o Adenilson simboliza a capacidade de doar não só marmitas, mas de se doar por inteiro ao próximo. Já o “Irmão”, que todos os dias vai “almoçar” por volta das 19h, considera que não faz nada de extraordinário. Vê “apenas” como uma missão de vida, algo natural, espontâneo: “O verdadeiro tesouro é fazer a diferença na vida das pessoas”.

O comerciante divulga sua conta bancária para quem puder ajudar
Resumo das necessidades mensais do ambulante

Por Paulo Bergamaschi

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção