Dia do Surdo: trabalho de intérpretes cresceu com pandemia

No cenário da educação brasileira, o intérprete na Língua Brasileira de Sinais (Libras) ganhou uma rotina diferente durante o período de pandemia. Como não estão no mesmo espaço físico, professores, intérpretes e alunos surdos, é necessário traduzir aulas ao vivo e outros vídeos que chegam depois. “O intérprete educacional está tendo o trabalho em dobro durante a pandemia. Eu peço que meu aluno grave. Estudo a aula e depois gravo a tradução para o aluno. São horas a mais de trabalho”, diz a tradutora Brenda Rodrigues, de 27 anos, do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB).  Neste sábado (26), Dia Nacional do Surdo, intérpretes sabem que o momento exige uma especial dedicação para participar da inclusão de tantos brasileiros.

Brenda Rodrigues, de 27 anos, diz que pandemia impôs novo desafio para tradutores. Foto: Arquivo pessoal

Segundo a pesquisadora Fabiane Elias Pagy,  professora de Libras (Língua Brasileira de Sinais) na Universidade de Brasília, doutoranda em linguística, é importante que haja a formação de um número maior de intérpretes para sanar a demanda e cumprir a Lei do Acesso à Informação para pessoas portadoras de deficiência (Lei 10098). ”A sociedade precisa entender que o surdo está se inserindo cada vez mais nos diversos ambientes em que eles foram durante tantos anos excluídos. Com essa maior participação, maior também é a necessidade de acessibilidade comunicacional. É direito do Surdo, adquirido e garantido por Lei o acesso à informação em sua língua. Podemos e devemos lutar para que esse direito seja garantido”, afirma a professora.

 No Brasil, de acordo com dados de 2019 do Observatório do PNE (Plano Nacional de Educação (PNE),  5.369 pessoas trabalhavam como intérpretes de Libras. Esse número ainda é mínimo se comparado à demanda: de acordo com estudo do Instituto Locomotiva e a Semana da Acessibilidade Surda em 2019, cerca de 10,7 milhões de pessoas têm deficiência auditiva, sendo, destas, 2,3 milhões portadoras de deficiência severa.

A pesquisadora destaca a necessidade de uma regulamentação na área. Ela explica que até pouco tempo não havia formação específica para a atuação de intérprete, de forma que os mesmos eram eleitos pela comunidade surda. “São necessários cursos, experiência e formação para se tornar um profissional. Nos dias de hoje há leis que garantem a necessidade de uma formação mínima, e essas leis devem ser respeitadas para que o surdo tenha acesso a um serviço de qualidade”, alerta Fabiane.

A paixão pela língua 

A intérprete Rayssa de Brito, de 22 anos, que é jornalista, conta que decidiu aprender Libras aos 10 anos depois de ter entrado em contato com a língua na Igreja que frequentava, por meio dos louvores. “As pessoas me perguntavam porque eu queria aprender Libras, se era porque eu tinha algum parente surdo. Mas não. Eu sempre fui muito extrovertida e gosto de me comunicar com o corpo, sabendo que ainda poderia ajudar alguém, isso para mim é maravilhoso”, conta.

Rayssa Brito resolveu aprender Libras aos 10 anos de idade

Rayssa, que está fazendo sua pós-graduação em Libras, conta que por enquanto trabalha como autônoma, e, durante a quarentena, viveu um dos momentos mais emocionantes de sua carreira. “Um surdo me pediu que eu traduzisse uma live sobre conserto de óculos, que é a área de trabalho dele. Durante a live, ele me pediu que enviasse uma mensagem no chat por ele solicitando maior acessibilidade nas lives, porque era difícil para ele ter que depender de alguém. O apresentadorviu minha mensagem e respondeu que na próxima live iria disponibilizar um intérprete. Eu quase chorei porque eu vi que eu fiz diferença na vida daquela pessoa. Parece tão pouco, mas para ele é tão importante que as pessoas pensassem:”Eu não sei quem está consumindo meu conteúdo, por que não colocar acessibilidade?”

Das suas motivações, a intérprete acrescenta: “Eu amo a comunidade surda. Eu gosto bastante deles, de como eles se comunicam, mas principalmente porque eu vejo a necessidade que eles têm. As pessoas não entendem, mas nós que somos ouvintes e escutamos temos o privilégio de ouvinte. Nós não temos nenhum tipo de problema de não conseguir um emprego por não ouvir, não somos negado trabalho. Os surdos passam por isso sempre,” explica.

Para Daniel Souza, intérprete e estudante do Curso de Língua de Sinais Brasileiras, o contato com a língua foi mágico. ”Acho que a Libras que me escolheu”, comenta sobre sua trajetória, mas nem tudo é tão simples no meio. Daniel explica que, para ele, a maior dificuldade do meio é a formação: “A gente começa a aprender e não tem muitos locais que ensinam como  a gente deve se portar, não ensinam bem os sinais.”

Ele também reclama da falta de respeito com os profissionais. ”Muitos acham que a gente entra numa telinha, no canto da televisão e fica só fazendo gestos. Eu vejo que falta respeito com o profissional que estudou alguns anos para estar exercendo aquela função”, compartilha.

Quanto ao período da pandemia, o intérprete afirma que surgiram novas oportunidades de poder ajudar alguém que está longe. “Da minha casa, eu consigo estar presente em algumas lives, alguns congressos e trazer acessibilidade para essa comunidade surda. A gente nunca tinha tido esse tanto de acessibilidade em tantos eventos, e isso é muito importante para inclusão dessas pessoas.”

Por Júlia Morena e Marina Torres

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção