Racismo: “Não conheço negro que não tenha sofrido”, diz pesquisador

O racismo estrutural pode ser quantificado. A divulgação do Atlas da Violência, na semana passada, trouxe à tona que os casos de homicídio de pessoas negras (pretas e pardas), entre 2008 a 2018, aumentaram 11,5% em uma década.  Entre não negros, houve queda de 12,9%. As provas do racismo estão nos números e no dia a dia. Para o professor de direito e pesquisador Irapuã Santana, há uma estrutura institucional racista que vigora no Brasil. “Eu não conheço pessoa negra que não tenha passado por uma ou várias situações de racismo”, relata Irapuã Santana, que é negro.

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Irapuã entende que os casos são, por vezes, subentendidos e estruturais, em que é necessário conscientizar a pessoa para o gesto ou ação racista. “Quando acontece, a gente tem que  indicar pra pessoa que aquilo ali está acontecendo e a pessoa fica estarrecida de como isso acontece de uma forma tão natural e que poderia passar despercebido”.

Marcha das Mulheres Negras, na orla de Copacabana, no ano passado.Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

No ano passado, por exemplo, a polícia brasileira matou 17 vezes mais o número de negros do que as forças de segurança estadunidenses. De 1.099 mortes totais causadas pelas polícia nos EUA, 253 (25%) foram de pessoas negras contra 4.353 (75%) negros mortos de um total de 5.804 no último ano. Segundo a ONU, a cada 23 minutos morre uma pessoa negra no Brasil.

“Várias vezes já fui abordado pela polícia de maneira ríspida e desproporcional. O sentimento que fica é de revolta, né? Não tem a menor necessidade de ser colocado como suspeito de cometimento de crime, independente da classe social que eu estava, seja quando eu tava mais pobre e seja agora que estou em uma situação financeira melhor. Isso acompanha a minha vida, então, não tem muito o que fazer com relação a isso além de lutar para tentar modificar essa estrutura institucional racista que está na nossa polícia espalhada pelo Brasil”, relata o doutor em direito, Irapuã Santana, 33, que também é procurador da cidade de Mauá.

Segundo o ministério da Saúde, o assassinato de jovens negros cresceu 429% em 20 anos. Entre os jovens brancos, este aumento é de 102%. Os dados podem ser associados ao termo “necropolítica”, cunhado pelo professor Achille Mbembe, no qual ele explica que é o Estado que decide quem vive e quem morre. “Dentro disso, temos o menino João Pedro que dentro da sua casa. Ele é deixado a sua própria sorte e o Estado acaba por minimizar a importância dessas vidas negras e periféricas”, exemplifica o advogado.

Resistência

A diferença das lutas raciais nos dois países ocorre devido a diversos fatores, como questões políticas e consequências de atos ainda na colonização dos países. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, em 1888, e após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, foi criado o Decreto dos Imigrantes que incentivava e financiava a entrada de imigrantes europeus no Brasil enquanto não fornecia ajuda a própria população.

“Eu entendo que a maior diferença dos movimentos negros entre esse dois países é mais com relação a como se observa a possibilidade de batalhar contra a discriminação racial. Enquanto nos EUA, aparentemente, a gente tem uma questão suprapartidária, aqui por conta do multipartidarismo, entendo que exista essa questão mais setorizada, muitos movimentos negros não entram em outras questões por conta disso”, comenta Irapuã. Os EUA possuem apenas 2 partidos políticos, mas em contrapartida no Brasil são mais de 30 partidos.

Intolerância

Outra consequência da escravidão no Brasil é a intolerância religiosa diante de religiões de matriz africana que seus praticantes são maioria negra. Enquanto nos EUA, existem duas figuras importantes para o movimento negro de religiões diferentes, no Brasil, a religião que marca a comunidade negra sofre preconceito. As figuras estadunidenses importantes são Martin Luther King Jr., que era pastor batista, e Malcolm X, que era muçulmano.

De acordo com o artigo 5º da Constituição Federal do Brasil (1988), é resguardado a liberdade religiosa e o livre exercício dos rituais religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto, além de destacar que o Estado é laico. Segundo balanço do Disque 100, serviço de proteção dos direitos humanos, houve um aumento de 67,7% nas denúncias de intolerância religiosa em 2019, comparado ao mesmo período em 2018.

Luz, Câmera, Ação

O racismo é um debate constante que aparece no cotidiano. A série americana Cara Gente Branca traz o racismo com uma aproximação para o público jovem como uma série de comédia que conta a história de um grupo de negros estudando numa faculdade de maioria branca e retrata como esses personagens lidam com o racismo no local. Com uma abordagem mais pesada, os dois filmes de terror psicológico do diretor Jordan Peele, Corra e Nós, trazem este recado.

Irapuã explica que a luta antirracista pode ser abordada em diversos âmbitos, como novelas e filmes, pois causa repercussão e traz maior conscientização sobre o assunto. Ele complementa que dessa forma as celebridades podem se engajar com essa causa. “As pessoas famosas que influenciam podem dar mais visibilidade a causa, trazer um maior engajamento e se tornam modelos a serem espelhados. Entendo que são todos muito bem vindos a luta e tem algumas pessoas que se colocam nisso de uma maneira muito forte, como Taís Araújo, Lázaro Ramos, Cris Vianna e outros artistas negros que tem no país”.

Por Mayariane Castro

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção