Relatos de Santa Luzia: dengue, covid e fome assustam comunidade

“Já pode pegar as cestas?”, pergunta uma mãe de família ansiosa para ter em mãos os alimentos que vão sustentar a família no mês de junho. “Trouxeram máscaras?”, pergunta outra moradora que depende das doações de um projeto social para resistir a pobreza na comunidade de Santa Luzia, na Cidade Estrutural, lugar que já confirmou 411 casos da covid-19. As mães avisam aos filhos para buscarem o carrinho de mão em casa.

A areia levanta com a sola dos sapatos a cada passo. O olhar precisa estar sempre para o chão, é necessário driblar o esgoto a céu aberto que escorre nas ruas. Para quem é visitante o cheiro das madeiras molhadas que levantam os lares da maioria das famílias que lá vivem, dos lixos que marcam as ruas e das lamas que sujam os pés dos habitantes provocam dor de cabeça.

É sem saneamento básico que mais de dez mil famílias sobrevivem ali. Mas em meio a pandemia de covid-19, isso é o de menos. A luta maior dos ocupantes da Santa Luzia é combater a fome.

 

Tão perto, tão longe

A favela Santa Luzia fica dentro da cidade Estrutural. O local fica a 15 minutos de distância do Congresso Nacional. A maioria dos moradores possuem um carrinho de mão. Quem não tem pede emprestado para o vizinho. Dentro do carrinho, cabem as doações que as famílias recebem e as crianças pequenas que gostam de brincar dentro deles.

Ajudando uma mãe que recebeu sua cesta básica, um pequeno de três anos se equilibrava dentro da carriola segurando a caixa sem medo de cair na lama, afinal, o que importava ali era a comida. Automóvel? Nem pensar! Muitos emperram no barro que substitui o asfalto. Bicicletas? Motos? Às vezes são vistos, mas nem todos podem comprar.

Moradores negros, analfabetos que sabem escrever apenas o próprio nome. Ao receber as cestas, para o controle dos doadores, os beneficiários são questionados se estão trabalhando ou não. As respostas são diversas: algumas fazem faxina, outras foram dispensadas da casa das patroas na pandemia e as que trabalhavam como catadores de lixo não podem mais mexer com os materiais devido ao perigo de contaminação da covid-19. A maioria dos beneficiários são mulheres, mães de dois ou mais filhos.

Falta água

A água para o consumo é incerta. Em algumas casas falta, em outras têm. Depende do dia. A recomendação da Organização Mundial da Saúde para combater o coronavírus é de lavar as mãos, tomar banho e higienizar as roupas sempre que retornar para casa, mas nem sempre é possível, ou quase nunca. É necessário economizar porque não se sabe o dia de amanhã na comunidade.

Lavam-se as louças com vasilhas embaixo para guardar a água que escorre das travessas, mesmo ao lavar os garfos e colheres que ajudaram a alimentar as bocas de várias pessoas, sem saber se ali há o vírus da covid-19 a água é reutilizada para limpezas e descargas nos vasos sanitários e higienização de pisos, por exemplo.

O uso das máscaras de proteção no rosto também é uma recomendação da OMS, mas nem todos usam. “Aqui é difícil, a gente vê tanta gente sem máscara! O governo distribui, as costureiras doam, mas parece que tem gente que vai usar só quando pegar a doença ou perder alguém próximo”, lamenta uma das moradoras após a resistência de uma das vizinhas para usar a proteção ao sair para o comércio.

Entre a dengue e o coronavírus
A possibilidade de dengue na comunidade também assusta a população. A água parada que os moradores precisam guardar para consumir e as poças de lama e esgoto nas ruas ajudam na proliferação do mosquito. Segundo a secretaria de Saúde do Distrito Federal, foram registrados 2,1 mil casos de dengue no DF nas últimas duas semanas. Totalizando 34.456 infectados o número de óbitos em Brasília chegou a 25.

“Aqui na favela tem muita gente com a dengue. A vizinha ali, uma senhora já, pegou dengue e o coronavírus ao mesmo tempo! Ficou bem fraquinha, mas sobreviveu”. Sobreviver é um dom para quem vive no local, mas não para todos. Os vizinhos comentam entre eles que uma família inteira morreu em decorrência da covid-19.

“Primeiro morreu o pai de coronavírus e o governo contou como vítima da doença, depois morreram os outros 5 membros e na certidão de óbito só consta que foi de doença respiratória, mas a gente sabe que foi de covid”, conta uma das amigas da família que faleceu.

As crianças do local andam despreocupadas, algumas usam máscaras, outras não. Pouco se importam com o distanciamento recomendado pelas autoridades de saúde e correm para o abraço dos coleguinhas, pedem o colo dos adultos e cafuné. Quando questionadas sobre o vírus respondem: “às vezes uso a máscara, tia!”, e saem saltitando tranquilas.

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Por Marília Sena

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção