Atletas paralímpicos buscam manter preparo para Tóquio-2021

O impacto da pandemia do coronavírus é um desafio ainda mais complexo para os esportistas com algum tipo de deficiência. Para atletas de alto rendimento, o anúncio do adiamento dos Jogos Paralímpicos para o período entre 24 de agosto a 5 de setembro de 2021 era o desfecho esperado pelos competidores. Importante, mas impacto preparo físico. Enquanto isso, os esportistas têm buscado adaptar os treinos em âmbito domiciliar, em segurança.

Natação

O  maior campeão da natação paralímpica da história, o nadador Daniel Dias, de 32 anos, diz que sempre foi favorável ao adiamento, pois não acreditava na realização do evento com segurança em agosto deste ano. Em casa desde o início da quarentena, o atleta multicampeão comentou que as mudanças em sua rotina de treino está resumida à preparação física em casa com algumas adaptações. “Afeta na minha preparação técnica. A parte da água é essencial no meu treinamento. Ao menos meu psicológico está bem controlado por estar com a minha família e todos com saúde”. Para ele, o adiamento poderá dar a tranquilidade necessária para cuidar da saúde, e irá rever o planejamento com sua equipe para poder voltar a treinar quando for possível e entregar seu melhor em Tóquio. Nas Paralimpíadas de 2016, no Rio, Daniel Dias chegou a quatro ouros, três pratas e dois bronzes.

O nadador Daniel Dias é multicampeão e esperança de medalha em 2021. Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB / Divulgação

O jovem brasiliense Wendell Belarmino, de apenas 21 anos, que surgiu como uma grande promessa da natação brasileira, crê que a decisão do adiamento foi “muito sábia”, pois não acreditava ser possível a realização do evento na atual conjuntura, onde os atletas estariam arriscando sua saúde e de suas famílias ao sair para treinar. Entretanto seu planejamento acabou tendo que ser interrompido. “Teve que ter uma mudança. A gente está esperando a poeira abaixar um pouco mais para poder ver o que a gente pode realmente começar e voltar a fazer, se pode voltar a treinar, se não puder, o que a gente vai continuar fazendo”. Treinando apenas em casa com alguns aparelhos e outros improvisos, o nadador também conta com o suporte e orientações do CPB, mas consequentemente também teve a rotina alterada.

“Afeta sim, com certeza. Você está acostumado a treinar todo dia e de repente não pode mais treinar, tem que ficar em casa, se virar com o que tem. Afeta um pouquinho, mas nada que seja difícil de contornar, com as devidas adaptações a gente consegue contornar isso. Claro que não vai ser um excelente preparo físico, eu não tenho uma academia em casa, então eu tenho que me adaptar”. Futuro da natação paralímpica do país, Wendell pretende participar dos Jogos de Paris em 2024. Apesar das incertezas, se mostra confiante.

Wendell Belarmino, medalhista em Lima no ano passado, é revelação da natação brasileira. Foto: Douglas Magno / EXEMPLUS / CPB

O mineiro Gabriel Geraldo, outra jovem promessa brasileira, também medalhista de ouro no Parapan de Lima, com apenas 17 anos de idade, foi de acordo com a alteração de data dos Jogos Paralímpicos, porque ao seu ver ajudou a priorizar a saúde e a preparação dos atletas. Apenas realizando exercícios em casa para manter o corpo ativo, o nadador contou que a pausa no preparo intensivo que estava tendo pode fazer com que leve um tempo para voltar à boa forma, mas que junto de seu treinador e sua equipe irá fazer um novo planejamento. Gabriel pretende entrar no ciclo paralímpico de 2021 também, mas lembrou: “Vamos pensar e focar primeiro em Tóquio e continuar sempre na mesma pegada enfrentando um desafio por vez”.

O nadador Bruno Becker diz se sentir mais tranquilo quanto ao adiamento das paralimpíadas. Por estar tendo apenas treinos funcionais, ao seu ver, poderia sair em desvantagem quanto aos demais nadadores de outros países que, mesmo nesse período, estão conseguindo ter acesso para fazer seus treinos específicos em piscinas, enquanto o brasileiro não. Então, para ele, a mudança de data dos jogos dará mais tempo para voltar aos treinos normais e melhorar forma física. Sem poder treinar na água, o nadador considera que nessas horas é importante manter a mente sã para focar no que realmente importa. “Manter o foco, ter fé que vai tudo melhorar e me dedicar para me manter ativo e competitivo”.

Segundo Bruno, o CPB vem mantendo contato e enviando informações, além do apoio da associação esportiva da qual é filiado. Mesmo sonhando em Paris, o foco principal ainda é no Japão. “Se Deus me der forças, gostaria muito de batalhar pela minha vaga nos Jogos Paralímpicos Paris 2024. No momento, o meu maior objetivo é Tóquio 2020. Ainda tem uma jornada para competir no Japão e, por isso, é importante manter o foco nesse grande evento esportivo”.

Bruno Becker: é importante manter o mente sã e o foco nos jogos de Tóquio. Foto: Arquivo pessoal.

Goalball

Com bagagem de outras duas Paralimpíadas e duas medalhas no peito, Leomon Moreno vive a expectativa de disputar sua terceira Olimpíada, mas achou muito importante a mudança dos Jogos para 2021, o que ao seu ver era algo inevitável. O craque e artilheiro do goalball acredita que as consequências são as melhores, com segurança de viagem tranquila, atletas sadios e tranquilos, além dos jogos com ingressos vendidos e bom público. Com suas atividades suspensas e podendo treinar apenas em casa com auxílio de seu preparador físico, o brasiliense teve um grande impacto em sua rotina.

“Em um momento normal, estaria fazendo quatro treinos por semana em academia e quatro treinos na semana com bola. Por causa da quarentena, não consigo me reunir com meu clube e tenho que adaptar exercícios em casa”. Após garantir a terceira participação nos Jogos Paralímpicos, Leomon já almeja a quarta em Paris 2024. Enquanto isso, vai respeitando a quarentena e tendo o apoio do CPB, da CBDV (Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais e do Santos, seu clube. 

Leomon, que é brasiliense, disse que também vislumbra os jogos de Paris, em 2024. Foto: CPB

Outro talento do esporte é Jéssica Vitorino. Ela acredita que o adiamento foi a melhor decisão que poderia ser tomada e completa “para uma paralimpíada, requer muito treino e preparo, não dá pra chegar sem condicionamento físico”. Apesar de ainda conseguir manter certos treinos repassados pelo técnico, a atleta pensa também na situação de outros, que não dispõem de espaço para treinar. Além disso, contou sobre como a pandemia alterou sua preparação. “Essa situação muda toda minha rotina de alimentação, preparo físico e psicológico.  Mesmo após a normalização, ainda serão necessários muitos cuidados e levará algum tempo para que todos retomem o ritmo de jogo, e a capacidade física”. Mas apesar de todos os efeitos negativos, o sonho de participar dos Jogos em 2024 pode ser facilitado por ter um ano a menos de contrato, dependendo do cenário. Por fim, Jéssica elogiou a CBDV e suas ações que incentivam os treinos em casa e os cuidados com a saúde, além de ajudar com a saúde mental e motivação de outros atletas e não praticantes.

 

Jéssica Vitorino. Foto Divulgação.

 

 

Para a pivô Ana Gabriely, do goalball, o adiamento das olimpíadas de Tóquio é válido e coerente por entender que é o mundo está passando por um momento frágil, que poderia atrapalhar o preparo de muitos participantes. Em casa, a atleta está fazendo exercícios de fortalecimento e alguns treinamentos disponibilizados pelo treinador e vem lutando contra a ansiedade. “Aumenta o frio na barriga porque prolongou a preparação e mexeu com o calendário de preparação. Vai ficar um pouco mais acelerado, gera uma ansiedade por causa das incertezas. É como se todo o preparo tivesse sido desfeito, é preciso manter o foco”. A atleta pretende participar do ciclo olímpico de 2024 em Paris e diz que não vai poder relaxar de um ciclo pro outro,já que, além da competitividade, existe a correria pela classificação.

                                                                  Ana Gabriely Brito. Foto: Renan Caciole/CBDV

Atletismo

O corredor Edson Cavalcante Pinheiro afirma ter ficado mais tranquilo com o adiamento, pois não seria possível manter as atividades na mesma intensidade, e isso iria atrapalhar na competição. Ao seu ver, é primeiramente positivo por ter mais tempo para treinar, mas o risco de perder patrocinadores seria um efeito negativo. Mantendo o mínimo possível de treinos em casa, o velocista assume a alteração em sua rotina e preparação.Somos atletas de alto rendimento, nunca ficamos 100% parados por mais de duas semanas, essa situação do coronavírus é diferente de tudo. Não sabemos como estaremos depois desse período. Estamos perdendo muito em condicionamento físico, mas agora a preocupação maior é com a saúde. Temos que tomar cuidado com a alimentação para não engordar e deixar o psicológico ativo”. O atleta também comentou sobre o apoio do CPB, do Governo Estadual e do Federal, onde foi feito todo um trabalho para amparar os representantes brasileiros.

Edson Cavalcante: “Estamos perdendo muito em condicionamento físico”. Foto Arquivo Pessoal.

 

O corredor Josoaldo Coelho da Silva crê que foi boa a decisão de adiar a competição. Ao seu ver, ganhou mais tempo para fazer uma preparação ainda melhor, além de que dessa maneira os atletas vão poder competir com maior segurança. Apesar de ter as atividades suspensas por tentar manter o distanciamento, o atleta continua com treinamentos em casa para tentar manter o preparo físico. Mesmo buscando soluções para se adaptar a situação, foi preciso fazer mudanças no planejamento. “A preparação foi adiada, fica inseguro como será a reação física no futuro e estou evitando o contato com o coronavírus”. Josoaldo comentou que espera ter o suporte do MPB na preparação após o período de isolamento. Ele disse que quer buscar competir em Paris 2024, e que irá traçar metas para alcançar os objetivos.

Josualdo pensa também no preparo para 2024. Foto: Arquivo pessoal

Tênis de Mesa

Carla Maia, atleta de tênis de mesa, se diz favorável ao adiamento das olimpíadas já que é um momento de perigo e cautela, ainda mais para os atletas paralímpicos, que são do grupo de risco. Para ela, será mais um ano de preparação e terá que abrir mão de outras atividades para que consiga se preparar com êxito. Com todas as suas atividades suspensas, Carla vem treinando em casa da maneira que pode e conta  com a ajuda de seu treinador algumas vezes durante a semana, porém com todos os cuidados possíveis. Mas ainda assim, a atleta diz que afeta muito não poder ir para a academia, pois prejudica a resistência, além da maior dificuldade em manter uma boa alimentação. A tenista de mesa pretende fazer sua despedida após os Jogos Paralímpicos de Tóquio, por acreditar que já viveu muitas coisas desde 2003, o ano em que começou a competir. 

 

Parabadminton

Daniele Torres, atleta de Parabadminton, acredita que o adiamento das olimpíadas de Tóquio para 2021 foi a melhor decisão possível, pois a saúde está em primeiro lugar. Mesmo inicialmente desanimada para treinar em casa, Daniele resolveu treinar com os amigos por chamada de vídeo e vem tentando manter o foco para que após esse período não seja ainda mais complicado se recuperar. Por motivos pessoais, a atleta não estava na corrida para Tóquio, mas pretende participar do ciclo olímpico de 2024 em Paris e acredita que até lá é possível fazer uma boa preparação.

Daniele Souza. Foto: Alexandre Schneider/EXEMPLUS/CPB

Por Arthur Ribeiro, Arthur Vieira, Ravenna Alves e Rayssa Loreen.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção