Improviso e sobrevivência: histórias do trabalho informal no DF

A carteira de trabalho não está assinada, mas eles não param. O expediente dura enquanto eles tiverem fôlego ou os fiscais deixarem. Na capital do país, um dos custos de vida mais altos da nação, 349.538 pessoas estão em situação de trabalho informal, o equivalente a 28,74% do total de ocupados, segundo levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).  A taxa é a segunda menor do país, atrás apenas de Santa Catarina (27,84%). Há informalidade por todos os cantos e também no centro do poder. Pessoas que vendem comida, objetos, roupas… dentro de carros, de sacolas, com esperanças e contas para pagar.  Nossos repórteres percorreram quadras do Plano Piloto e também de outras regiões administrativas e conheceram histórias de pessoas que precisam produzir e vender.

De milho

Pedro da Silva Rodrigues, residente do Jardim ABC, Cidade Ocidental, trabalha vendendo pamonhas desde os seus 41 anos. Hoje, com 47, permanece tendo essa como única fonte de renda. Ele conta com a ajuda de seus dois filhos nas vendas. O desemprego e a habilidade na produção de pamonhas motivaram o rapaz a iniciar o seu negócio. Ele conta que se sente realizado, e que sua renda é suficiente para o sustento da família. Pedro lamenta que trabalha desde a infância, e, mesmo assim, conseguiu finalizar o Ensino Médio. Sem interesse em ingressar em uma faculdade, pôde se dedicar ainda mais à venda de pamonhas. Layanne Guimarães, 29 anos, moradora de Santo Antônio do Descoberto, também vende pamonhas e curau na Asa Norte. Geralmente, costuma trabalhar por seis horas todos os dias da semana e aponta as vendas como forma complementar da renda da família e como alternativa para o desemprego.

Guilherme de Lima Martins, de 15 anos, começou cedo com as pamonhas. Ele mora em Santa Maria e trabalha com a venda na Asa Norte, onde foi entrevistado. Estudando durante a manhã, Guilherme começou por vontade de trabalhar para poder ter suas coisas, apesar de morar com familiares que também trabalham e compõem a renda da casa. Já procurou emprego antes das aulas começarem, mas não deu certo. Ele tem a ajuda de um amigo que também vende pamonha e produz o produto de ambos.

 

 

Guilherme Martins vende pamonha na Asa Norte. Foto: Arthur Ribeiro

Pães e frango

Renan do Carmo Marques, 37 anos, morador de Sobradinho e vendedor de pães e cucas artesanais, indica o desemprego como principal causa da sua busca pelo trabalho informal e, além disso, cita o serviço como forma de compor a renda familiar. “Na minha casa mesmo somos eu, minha mãe, minha irmã, um cunhado meu e meu pai. Todos geram renda de alguma forma para ajudar”, afirma Renan. O vendedor, que opera na Asa Norte, não trabalha todos os dias da semana. Entretanto, confirma que a arrecadação é suficiente para pagar as contas.

Hianco Mora Lima, de 20 anos, morador  do Paranoá, vende frango assado em frente ao Condomínio Novo Horizonte para ganhar a vida. Seu principal motivo para trabalhar é o recente nascimento de sua filha. Ele afirma que o que ganha da para se sustentar, mas não é o que ele quer. Ele mora com a mulher, seu pai e irmã e tem ajuda da aposentadoria do seu pai para ajudar a pagar as contas. Ele conta que trabalha das 7h da manhã até às 14h da tarde e ganha 200 reais por final de semana.

Corrida contra o tempo

Francisco de Assis dos Santos, 29 anos de idade, morador do Céu Azul, Valparaíso, começou a trabalhar com a venda de água de coco perto de uma instituição de ensino superior de Brasília, por falta de opção de trabalho. Francisco é tecnólogo de gestão pública superior e arrisca uma nova faculdade para um futuro melhor. Como é o caso de Maicon de Oliveira Santos, 19 anos de idade, mora em Planaltina (GO). Ele é entregador de comida via aplicativo, pois acredita na ideia de ser seu “próprio chefe”. O jovem divide seu tempo de emprego com o curso universitário de educação física. O estudante Guido Ferreiro Barbosa da Costa, 19 anos, morador da Asa Norte, também, fica entre estudos para a faculdade e entregas em serviços de aplicativo para complementar a renda de sua casa.

Elinaldo Alves De Santos Júnior, de 25 anos, morador do Paranoá. Com a  ajuda do cunhado, começou a vender cocos no Varjão. Ele mora com o irmão e ambos são responsáveis pela renda da casa. Parou de estudar no primeiro ano, mas voltou recentemente. Afirma que o maior problema desse trabalho é a chuva constante. Ele ganha 50 reais por dia, trabalhando 11h por dia.

Gabriel de Souza Andrade, morador da Ceilândia P Sul, tem 46 anos, trabalha como vendedor informal há 8 anos nos comércios locais e paradas de ônibus em Brasília. Isqueiros, lâminas de barbear, cola multiuso e escovas de dente são alguns de seus produtos. No trabalho, ele ganha em média de R$ 50 a R$ 100 por dia, sendo esta a única fonte de renda da casa, onde mora com o filho. Para ele o que motivou a escolha desse trabalho foi o desemprego e o difícil acesso ao emprego formal.  Ele afirmou que os comerciantes têm que se unir para entrarem em comum acordo, e assim, dar mais espaço para todos trabalharem e não só haver fiscalização por parte dos órgãos públicos, afinal o governo é muito restrito em relação ao trabalho informal bem como precisa de mais flexibilidade. Maicon de Oliveira Santos, 19 anos de idade, mora em Planaltina (GO), é entregador de aplicativo, pois acredita na ideia de ser seu “próprio chefe”. O jovem divide seu tempo de emprego com o curso de educação física, da faculdade.

Fernando Pereira Santos, de 31 anos, morador de Valparaíso e também é entregador de aplicativo por influência de amigos. Ele tem como sua única fonte de renda esse meio de trabalho e diz que dá para se sustentar dividindo a renda da casa com a esposa. Fernando trabalha 12 horas por dia e diz que é desgastante e que falta garantia contra acidentes, porém não procura emprego fichado há 8 meses. Marcos Willian de Oliveira Lima (36), morador de São Sebastião, começou a trabalhar com a rede por saber que a renda é maior que no emprego formal que trabalhava antes.

Marcos trabalha 11 horas por dia incluindo fins de semana e, já que mora sozinho, é a única renda da casa. Também reclamou do desgaste desta forma de trabalho e comentou que a chuva atrapalha as entregas, assim como erros na localização pelo aplicativo e a desatenção dos clientes. Davidson de Souza Borges, de 32, residente em Sobradinho, é entregador de comida por aplicativo pelo Ifood, e afirma que seu trabalho é a única fonte de renda da casa. O que motivou a trabalhar nesse ramo foi o desemprego, mas que continua buscando emprego com carteira assinada. “Desgastante. Não tem apoio aos entregadores como: alimentação, banheiro e descanso”, disse ele sobre as condições de trabalho.

Por encomenda

Rosina Martins, 49 anos e moradora de Planaltina-GO, é diarista e seu trabalho é a renda exclusiva da família. “A minha filha mora comigo e ela depende de mim e o que eu ganho, graças a Deus, dá para a gente viver bem”, comenta Rosina. Além disso, a diarista explica que boa parte do retorno financeiro vem dos clientes fixos. “Porque eu não tenho estudo, né? e é uma coisa que eu sei fazer e gosto de fazer”. Genesiano era pescador profissional até que uma condição impossibilitou suas mãos, diz que não procurou emprego fichado pois é analfabeto.Começou a trabalhar vendendo frutas há dois meses. A rotina consiste em sair de casa às 6h da manhã e volta às 17h da tarde.

 Keilla Tinoco de Souza Alves, de 40 anos, mora na Candangolândia. Keilla foi entrevistada no Noroeste, seu local de trabalho, onde vende cachorro-quente. Ao ficar desempregada em 2018, aproveitou o acerto com a empresa e investiu no ramo. O local foi escolhido a dedo, pois segundo ela, o bairro não tinha tanta variedade e disponibilidade alimentícia. Formada em gestão de recursos humanos, ela tem no trabalho a ajuda de sua família, “por mais que a gente tente, acabamos sempre ficando no reduto familiar”. A carga horária vária entre oito e nove horas, pois ela começa a produção dos produtos em casa e depois vai para o local. Apesar de ser um bairro tranquilo, Keilla citou as dificuldades em relação ao clima, que por ficarem em um lugar aberto os deixa expostos na época de chuvas.

No sinal

Luiz Fernando Silva de Paula, de 32 anos, mora em Águas Lindas de Goiás, foi entrevistado em um sinal da W3 Norte, local onde vende frutas, panos e sacos de lixo. Incentivado pelo sogro que trabalha no ramo, Luiz visa o sustento de sua mulher e três filhos por meio das vendas. Trabalhando por cerca de 10 horas diárias, ele reitera que se o poder público concedesse melhores condições de iluminação e segurança, poderia ficar ainda mais tempo e aumentar seu lucro. No mesmo lugar há dois anos, ele diz que as pessoas ao redor lhe ajudam muito, cedendo água, banheiro e outras ajudas. Luiz estudou até a oitava série e já trabalhou com esquadro de alumínio, mas desde que a empresa faliu está trabalhando na rua.

Luiz Fernando viaja de Águas Lindas para a Asa Norte e vende pano no sinal. Foto: Arthur Ribeiro

 

Eglison Martins de Oliveira Júnior, 22 anos de idade, residente do Paranoá DF. Trabalha de segunda a sábado como lavador de carros no estacionamento externo do Plaza Shopping, das 7h até as 18h para sustentar a família.

Por Arthur de Andrade Ribeiro, Arthur Vieira, Bernardo Guerra , Gabriel Albuquerque, Gabriela Bernardes, Henrique Guimarães, Lara Oliveira, Miguel de Castro, 

Paula Menezes, Rayssa Loreen e Thiago Quint. 

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção