Do agrotóxico à agroecologia

“Desde os 7 anos, eu estava com enxada na mão”, lembra Ceso de Souza, 58, trabalhador rural na cidade de Vidal Ramos (SC). Nascido e criado na roça, acompanhava o pai na colheita do milho. “A roça pra mim é tudo. É paz”. Mas, a vida virou de ponta cabeça, no dia em que foi acometido por uma constante sonolência acompanhada de dores de cabeça quase todos os dias. Após uma série de exames veio o ultimato, Ceso teria que se mudar para cidade e arrumar outro ofício. Estava muito intoxicado por agrotóxicos, disse o médico.

No país em que o agronegócio chega a ser tratado como motor principal do desenvolvimento, agrotóxicos recebem o apelido de produtos fitossanitários, na verdade, um eufemismo que esconde os riscos por trás do uso exacerbado desses produtos. Pesquisas científicas mostram a relação entre os agrotóxicos com 107.535 mil casos de intoxicação entre 2007 e 2017, levando ao resultado de 3.452 mortes, no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde.

Ceso conta que quando plantava tabaco, usava muito agrotóxico. Toda semana tinha que fazer aplicação. Até que começou a sentir muitas dores de cabeça e uma sonolência constante de sentar e dormir ali mesmo na roça. “Começou a me dar preguiça”, conta o homem acostumado ao trabalho duro desde muito jovem. Sair da roça não era uma opção para ele, que tinha se criado na terra. O jeito foi se renovar, reinventar a própria rotina. Anos atrás começou a transição. Foi trabalhar com a agricultura familiar. Abandonou os venenos do modo convencional de plantar, substituiu o tabaco pelas verduras e abriu as porteiras para a agroecologia.

“No início foi difícil. Eu não tinha conhecimento nenhum de produção orgânica. Os bichos comiam tudo. Não tinha o que comprar. Fui plantando, fui inventando”, conta que começou a experimentar misturas caseiras. Descobriu aos poucos que os “venenos” eram dispensáveis. Uma simples mistura com extrato de pimenta das fortes, álcool e água resolveram os problemas das pragas.

Ele afirma que tem sido melhor com orgânico. Tem produção o ano inteiro, diferente da monocultura onde se planta e se colhe uma vez ao ano. “E a saúde?”, perguntei. Num tom risonho ele responde “o farmacêutico quase não me conhece mais”. Ele explica que a mudança no modo de produção consistiu numa completa mudança de hábitos da família inteira. A alimentação mudou. A saúde melhorou. Satisfeito afirma “eu tenho 58 e faço meus exames todo ano e até os médicos ficam assustados porque eu não tenho nada”.

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“VIDA DIGNA”

De uma geração mais jovem de agricultores, Bruno Freitas, 27. Vive em Ibirité, em Minas Gerais. Neto e filho de agricultores. Deixa claro que escolheu ser agricultor “não foi por falta de opção como muita gente acredita”. Ele afirma ainda que, enquanto for possível, não pretende sair da roça. Para ele, a roça representa vida digna e qualidade de vida. Há três anos iniciou o processo transição, começou a produzir orgânico e deixou de usar os agrotóxicos na sua plantação. Ao ver muitos de seus companheiros adoecendo por conta do uso desses produtos. Em busca de um estilo de vida mais saudável, ele escolheu mudar o modo de produção, mesmo sem ser acometido por algum problema de saúde.

Ele relata que observou muita gente tendo dor de cabeça, náuseas, aumento de pessoas com câncer entre outras doenças devido ao uso exacerbado de agrotóxicos. “É impressionante o número de pessoas com os mesmos sintomas”. Ele afirma que, em muitos casos, não há uma investigação a fundo, por parte dos médicos, para se descobrir essa relação que é observada pelos trabalhadores da terra. Então, começou a produzir orgânico. Ele afirma que deixar de produzir no modo convencional é uma construção, passa por um processo de transição. Nesse caminho, o agricultor precisa ter orientação para descobrir soluções que substituam os produtos químicos. Ele afirma que essa transição é muito bem aceita pelos produtores da região. Mas, a falta de acompanhamento técnico em alguns lugares, a pouca valorização do produto no mercado e a morosidade no processo de registro de reconhecimento da produção orgânica são as principais dificuldades enfrentadas.

INTOXICAÇÕES

Filha de agricultores Dulciane Allein Schlickman, 38, escolheu fazer faculdade de ecologia. Ela afirma que observa, a cada ano, o crescimento do uso do agrotóxico e o aumento das intoxicações e dos casos de câncer entre trabalhadores na sua região, Imbuia (SC). A relação entre câncer e agrotóxico é tratada como uma mera coincidência na maioria dos casos, explica. Acreditando na possibilidade de uma produção orgânica e sustentável levou a ideia ao pai incrédulo no início.

“Desde os quatro anos pego em enxada, naquele tempo era assim”, lembra Adenísio Allein, pai de Dulciane, 62, morador e produtor no município de Imbuia. “Minha filha insistiu para mudar (…) hoje voltei no tempo antigo em que me criei, antes não tinha adubo, não tinha veneno, não tinha nada, era tudo na base da enxada”.

No início, o grande receio era a falta de mercado. Há oito anos quando começou a transição para o orgânico a procura pelos produtos era bem menor. O medo de começar e não ter rendimento era a primeira barreira para os produtores convencionais. Dulciane conta “existem relatos de pessoas que investiram em produção orgânica, como não encontraram mercado acabaram desistindo”. Para atender à necessidade, os agricultores recorrem à Associação de Agroecologia, Desenvolvimento e Educação Ambiental (Agrodea) para orientar estimular agricultores da região.

Então, depois de dois anos participando de reuniões da associação para conhecer melhor sobre a produção orgânica, Adenísio decidiu experimentar. Separou uma área pequena e começou a plantar orgânico. Aos poucos os resultados apareceram. Dulciane conta que, ao entrar na associação, o produtor, em cinco anos, tem que ter convertido toda a propriedade para o orgânico. “Meu pai dizia: ‘então se eu tiver que começar o orgânico e em cinco anos não ser mais produtor convencional, então não vou nem começar. Porque não vou converter a propriedade em 100% para a produção orgânica’”.

Perguntei ao agricultor se ele pensa em voltar para a produção convencional. A resposta veio sem titubear: “Nem no sonho!”. Segundo ele, apesar de precisar de mais mão de obra, o lucro é maior do que na produção convencional, hoje a venda é bem tranquila. Toda semana tem colheita. Toda semana saem entregas para Florianópolis. A mudança melhorou também a saúde. Com a agricultura convencional, trabalhando com veneno as dores de cabeça eram presentes no seu dia a dia. “Hoje trabalho o dia inteiro e não sinto nada”, relata.

Satisfeito com o modo de produção tratou de convencer o filho caçula. A semente plantada por Dulciane cresceu, floresceu e deu frutos. Hoje além do pai, o irmão mais novo Dione Eleumar Allein, 31, explica que a produção também foi convertida totalmente para o orgânico. “No começo, não conseguia vender muito produto, no início era difícil investir numa coisa sem garantia de futuro”. Ela recorda que ficou quatro anos apenas participando das reuniões. “Quando começou a melhorar as vendas na capital, comecei a plantar um pouco mais”. Hoje são dois anos de produção orgânica.

A agroecologia tem sido apontada por pesquisadores como uma das possíveis soluções para manter a produtividade de forma sustentável e orgânica. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a agroecologia pode ser a chave para erradicar a fome na América Latina e Caribe.

Outro ponto para se evitar o uso indiscriminado dos agrotóxicos seria um fortalecimento das leis reguladoras e dos órgãos avaliadores, como apontado por pesquisadores, manter a autonomia de órgãos como Ibama e a Anvisa em conjunto com o Ministério da Agricultura podem garantir maior segurança no uso dos pesticidas sem afetar a produtividade.

O pesquisador da Fiocruz Guilherme Franco Netto defende também instituição da Política Nacional de Redução de Agrotóxico (PNARA), PL 6.670, que visa a aumentar a fiscalização e defende a ampliação do uso de insumos de origens biológicas e naturais, como uma solução possível ao abuso do agrotóxico, no Brasil e dos seus efeitos colaterais.

 

Foto: Instituto Cooruja

 

Pelo Brasil, têm surgido associações cujo objetivo principal é orientar e estimular a produção orgânica. Essas iniciativas têm rompido com a dependência dos agricultores aos produtos agropecuários além de quebrar a crença que se estabeleceu de que sem agrotóxico não se colhe. “A primeira coisa, tem que ser equilibrar o solo. Se a gente der a vida de volta a ele restabelecer os minerais de que a planta necessita, com certeza, a gente colhe e melhor do que na agricultura convencional” explica Dulciane Allein, que atua na Associação de Agroecologia (Agrodea), Desenvolvimento e Educação Ambiental como representante da Secretaria Municipal de indústria Comércio e Meio Ambiente, fora do expediente continua atuando no projeto como voluntária.

Outra iniciativa que cresce como uma rede de apoio entre agricultores, fazendo uma ponte como mercado consumidor é o Instituto Cooruja em Itapuranga, Goiás, que completou quatro anos em 2018. O presidente do projeto, Mauro Pereira, explica que dois motivos têm sido norteadores para que produtores iniciem o processo de transição: a saúde e a melhoria dos rendimentos. “Muitos agricultores passaram a ter uma melhor qualidade de vida porque passaram a se alimentar bem a consumir um alimento saudável”. Ele explica que a produção de base ecológica vai pensar muito além da produção. Toda a propriedade recebe atenção e isso se reflete na qualidade de vida dos produtores. Mauro Pereira explica que o rendimento aumenta pelo fato que tudo passa a ser produzido e aproveitado na propriedade. “Se ele [o produtor] passa a aproveitar tudo que tem na propriedade dele, ele deixa de consumir os produtos nas lojas agropecuárias, ele quebra o sistema. Eles deixaram de transferir grande parte da renda deles para esse sistema”, relata.

A agroecologia proporciona mais autonomia no processo de produção sem depender de produtos químicos. “Da mesma forma a gente tira o intermediário do meio do caminho e faz venda direta do produto orgânico para o consumidor”, explica Dulciane Allein sobre a iniciativa das células de consumo que fazem parcerias entre produtores consumidores para melhorar a entrega sem a necessidade de intermediários, isso torna possível a venda de produtos orgânicos pelo mesmo valor do produto convencional.

LEI É AMEAÇA AMEAÇA A CONQUISTAS CONQUISTAS

O Projeto de Lei 6.299, conhecido como PL do Veneno, que não havia sido votado no Senado até o fechamento desta edição, propõe mudar o nome e flexibilizar o uso dos produtos fitossanitários, produtos químicos utilizados para controle de pragas nas plantações, tornando o Ministério da Agricultura e da Pecuária (MAPA) o principal fiscalizador do veneno, diminuindo a função da Anvisa, que mede e divulga o nível de toxidade do produto para a saúde humana, e do Ibama, que mede impactos do seu uso para o meio ambiente. A função do Ministério da Agricultura e Pecuária, segundo a Fiocruz, seria analisar a eficácia econômica.

Para a pesquisadora Eloísa Caldas, o projeto de lei seria uma tentativa de atualizar a Lei do Agrotóxico criada em 1989. “Na época, o contexto era muito diferente, a maioria dos produtos eram muito mais tóxicos que os produtos atuais. Então, o que o PL está fazendo de alguma maneira é alterar a lei para que ela possa fazer frente aos produtos que estão hoje no mercado”. Segundo ela entende, o Brasil é um dos países que mais custam a realizar o registro de pesticidas no mundo, podendo demorar de 8 a 10 anos.

Em plenos jogos da copa do mundo, quando o sonho do hexa prendia as atenções de grande parte da população, o Congresso votou a portas fechadas. A pesquisadora também pontua que o problema do novo projeto de lei está na diminuição do protagonismo da Anvisa no processo de registro dos agrotóxicos, concentrando a fiscalização no Ministério da Agricultura. “O Mapa que está muito preocupado com a produção agrícola, quanto mais pesticida melhor, porque maior a produtividade agrícola, maior são as exportações”, pontua sobre a necessidade de uma avaliação criteriosa. A celeridade, no processo de registro, não deve, segundo avalia, impacta o meio ambiente e a saúde da população.

A nova regra pode vir a flexibilizar também o que seriam os chamados “riscos inaceitáveis para os seres humanos”, no novo texto não vem explicitado quais seriam esses riscos. No texto original proíbe “o registro de agrotóxicos, seus componentes e afins, que revelem características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, de acordo com os resultados atualizados de experiências da comunidade científica”.

Pesquisas da Fiocruz e dados levantados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) são bastante severos no que diz respeito às flexibilizações trazidas pelo novo texto. Segundo dados da OMS (2017), 200 mil mortes por ano estariam associadas ao uso indiscriminado de agrotóxico, 90% destes casos em países em desenvolvimento. Segundo o organismo da ONU, isso acontece porque nesses países as leis de regulamentação de saúde, segurança e proteção do meio ambiente costumam ser bastante frágeis. Em 2017, a organização mundial pediu um novo tratado global que regulamente e elimine gradualmente o uso dos pesticidas perigosos na agricultura.

NA CONTRAMÃO

Segundo o pesquisador e especialista em saúde e meio ambiente da Fiocruz, Guilherme Franco Netto, essa flexibilização do registro de agrotóxico pode afetar as exportações brasileiras já que nos produtos em questão teriam substâncias, que a União Européia já vem proibindo. “A União Européia está tomando uma série de medidas de restrição em relação ao agrotóxico, porque a sociedade européia cada vez mais se torna consciente do perigo que é hoje estar exposto a esse tipo de questão. Esse PL visa atender às necessidades do mercado ”. Segundo dados da Fiocruz, 30% dos agrotóxicos permitidos no território nacional são proibidos na União Européia, sendo 80% destes proibidos há mais de dez anos.

De acordo com o pesquisador da Fiocruz, a iniciativa do PL teria como centro das atenções flexibilizar a redução dos custos do setor produtivo para fornecedores do agrotóxico, desconsiderando os riscos à saúde. “O texto desconsidera ou minimiza de maneira muito significativa os impactos para saúde, meio ambiente e a própria economia do país. O que nós temos do ponto de vista de informação, nós temos uma carga de doenças informado pela OMS muito relevante relacionada a envenenamento por agrotóxico”.

Segundo a professora Eloísa Caldas, os efeitos dos agrotóxicos são gerados a partir de dosagens muito altas, colocando como população vulnerável os trabalhadores do meio rural. “A gente trabalha na avaliação de que risco zero não existe. A gente constata que os benefícios do consumo dos vegetais que contêm pesticidas são muito maiores, do que qualquer risco que possa existir pela presença dessa substância. Ninguém deve parar de comer frutas e vegetais por causa disso”, afirma.

A pesquisadora explica que grande parte do agrotóxico existente nos alimentos desaparece quando se ferve o alimento. “Hoje, os pesticidas que são utilizados na agricultura, na grande maioria deles, são metabolizados rapidamente no organismo nas plantas e no meio ambiente, então eles não se acumulam no organismo”.

O pesquisador da Fiocruz também aponta o trabalhador de agricultura familiar como o grupo de maior risco à intoxicações. “Esses pequenos produtores são os principais produtores de alimento do Brasil”. Ele explica que, nas grandes produções, nos desertos verdes a maior parte do trabalho é feito por máquinas ou trabalhadores muito bem equipados que correm pouco risco à intoxicação e essa produção é direcionada para as exportações. “Não fica nada aqui a não ser o veneno. O veneno fica aqui na terra, depois vai para água e depois a gente consome. Tudo que sai a soja, o milho e o trigo é vendido a preço muito baixo para ser competitivo no mercado”, isso faz com que pessoas que vivem nas redondezas desse tipo de produção tornem-se também um grupo de alto risco à intoxicações.

Ele explica que os agrotóxicos agem de forma distinta no organismo, dependendo da classe e do grupo. Para o pesquisador da Fiocruz, há possibilidade de eles se acumularem afetarem o funcionamento de determinados órgãos. “No Brasil, nós temos alguns estudos relacionados a acidentes químicos em que os trabalhadores desenvolveram um aumento bem acima da média com relação a problemas de tireóide. A partir da exposição aquele órgão não consegue voltar a funcionar no normal dele, mesmo você parando a exposição daquele agrotóxico”.

 

Por Larissa Mota Calixto

Matéria publicada, em dezembro de 2018, na Revista Esquina.

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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