Médium no Gama registra curas em cartório e diz que nunca vai “enricar”, assista a vídeo

“Sou um eterno agradecido/ por tudo quanto é verdade/pelo milagre da cura/no caminho da cura/Do caminho percorrido/pela bondade da cura/Que o sentimento enobrece”. Os versos saíram fáceis das mãos do poeta e acadêmico Fagundes de Oliveira, hoje aos 83 anos de idade. A poesia “Gratidão” relembra uma das passagens mais difíceis da vida dele: um problema sério na coluna e depois a descoberta do câncer na próstata. A novidade não veio de um consultório tradicional. Ele garante ter se curado após uma cirurgia espiritual no “Recinto de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes” do médium Valentim Ribeiro. A esperança e a gratidão, que motivaram os versos de Oliveira, são sentimentos que levam pelo menos três vezes por semana cerca de mil pessoas por dia a fazerem fila em volta dessa casa no Gama, região administrativa do Distrito Federal. A fila pode ficar maior depois do escândalo do caso João de Deus, médium de Abadiânia, preso acusado de abuso sexual. Mais de 500 mulheres foram ao Ministério Público relatar assédio e abusos. Esta reportagem com Seu Valentim foi produzida antes das denúncias contra João de Deus.

Na casa de Valentim, os atendimentos acontecem às segundas, quartas e sábados. São romeiros de Brasília, de outros estados e até de fora do país. As senhas começam a ser distribuídas a partir das 7h. Na casa, são esperadas cerca de mil pessoas. Em cena, pessoas de todas as idades e crenças. Pacientes que vêm ao local pela primeira vez, retornos e os que vão retirar os “pontos” das cirurgias realizadas. Um vai e vem de cadeiras de rodas acontece na rampa que dá acesso à sala de atendimento. Os semblantes carregados dos cadeirantes, tanto dos que chegam e dos que saem, são fidedignos daqueles que estão ali em busca desesperada da cura de seus males do corpo e da alma, que vão do alcoolismo e depressão até o câncer na fase terminal.

 

Entre uma multidão que ali se encontra, sentado na varanda da casa está “também” o empresário capixaba Nilton Alves, 65 anos, diz não ter religião, mas acredita em Deus, e que viajou 1.840 quilômetros de Vitória (ES) para chegar ao Gama. Operado de um câncer de próstata há uma semana, ele está ali para retirar os pontos. Ele diz ainda que poderia ter ido embora. Bastava deixar o nome em uma caixinha, mas preferiu ser atendido pessoalmente. “Além da fé que eu trouxe na bagagem levo de volta a esperança de cura”, profetiza Nilton.

Um calor desconcertante é sentido no ambiente; o termômetro beira a 30 graus. Ninguém arreda o pé. Agora é a vez de uma leva de mulheres enfileiradas, com crianças de colo visivelmente suadas, aguardando o momento tão esperado da consulta. Não há mais cadeiras disponíveis, cada um se acomoda como pode. Quanto ao calor infernal, o jeito é buscar refúgio na sombra mais próxima.

Moradora de Águas Lindas, a faxineira Laura de Souza Erasmo, 64, frequenta o recinto há mais de trinta anos, e conta que vem toda a semana. Diz que já recebeu muitas graças de cura, na casa. E tem conhecimento de pessoas que não acreditam nas curas espirituais e explica, “são pessoas que não entendem o que é o espiritualismo, quer vir aqui um dia e ficar bom, não é assim, a doença espiritual demora mais ser curada”. E completa “O senhor Valentim é um fazedor de caridade”, constata Laura.

São 30 voluntários que auxiliam nos trabalhos do recinto, mas a que mais chama a atenção nas salas de atendimento é uma mulher loira, que organiza as demandas. O cabelo está amarrado num coque, exibe vistosos brincos, anéis e pulseiras, num tom azul escuro, usa um jaleco branco, por cima de um vestindo longo, também na cor azul, combinando com os acessórios. Ela é Cherifa Mohamed, que na verdade é uma médica cirurgiã plástica, que em outros dias, atende no próprio consultório. Cherifa que há 26 anos auxilia voluntariamente Valentim no acolhimento aos que ali chegam, comanda os trabalhos da casa e desempenha um papel como uma xerifa mesmo (com x).

“Aqui na casa nos somos ciência, porque se trata de medicina espiritual, o indivíduo aqui não precisa cortar ninguém, para que a pessoa fique boa. Aqui tem uma diversidade, nós somos ecumênicos, a gente não prega nenhuma religião, explicou Cherifa. Com desenvoltura , a médica inicia uma palestra com sabedoria e conhecimento de causa, pois foi uma paciente curada, pelo médium. Desde então a médica passou a ser uma das voluntárias da casa de caridade.

Os tratamentos espirituais não têm nenhum custo, o recinto vive de doações dos frequentadores. Para custear as despesas, o paciente que quiser e puder colaborar com qualquer quantia em dinheiro ou roupas para serem vendidas no bazar, são bem-vindos. A casa possui uma simples cantina e um bazar de roupas usadas e possui livros publicados que são vendidos lá.

“A gente paga com a mesma moeda que a gente recebeu, que é a cura. Muitos aqui são curados, vão embora, sempre voltam para agradecer, fazer uma revisão e sempre traz alguém que está precisando de ajuda, esse é o pagamento”, lembrou a voluntária. Numa das salas clara, mas abafada e, sem ventilador, Cherifa fala ao microfone com eloquência, por quase uma hora e conta a história de vida de Valentim, em detalhes. Quando não se recorda de algum fato ou data, solta um sonoro grito, indagando Valentim, que se encontra em outra sala. No meio tempo, interagi com os pacientes que aguardam atendimento, divididos em duas salas. Quando aborda o assunto charlatanismo, a médica é enfática em salientar. “Existem os falsos profetas, e as pessoas na hora do desespero fazem coisas que vocês nem imaginam. Não podemos ser emocionais totalmente, porque senão a gente entra no fanatismo”.

Curas espirituais

No caso de Oliveira, que iniciou a matéria a história é incrível. Tudo começou em 1986, quando padecia com dor na coluna. Foi quando um amigo lhe perguntou? “ Você acredita em espiritismo?” Fagundes disse sim. “Então vou te levar num espírita lá no Gama”. No dia seguinte, Oliveira chegou lá de madrugada. Frente à frente com o médium que falava numa linguagem estranha. “Ele me pegou pelos ombros me deu uma sacudida, a sensação que tive é que minha coluna tinha se deslocado inteira”, conta Fagundes, que saiu dali sem nenhuma dor, e voltou às atividades. “O Valentim pra mim é um homem abençoado por Deus, o que ele tem feito para a humanidade é de um valor que não tem preço”.

Tesoura no ar

O médium pernambucano Valentim Ribeiro de Souza, também atende por seu Valentim, doutor Valentim, mestre, atua como médico espiritual e conta ter mais de 4 mil cartas autenticadas em cartório, que documenta os relatos de cura de pacientes. As cirurgias são invisíveis, realizadas sem cortes. Em qualquer circunstância, seja para operar ou retirar pontos, os instrumentos usados por Valentim nos procedimentos cirúrgicos são uma tesoura gasta, uma pinça, iodo e álcool. O que se ouve na sala são os sons dos golpes da tesoura no ar, que encosta nos corpos dos pacientes, sem causar nenhum ferimento, nem dor. Quando se trata da cura de “cobreiro”, uma faca é o instrumento usado por Valentim, da mesma forma que a tesoura.

Viúvo, pai de três filhas, Valentim 78 anos é um homem moreno e franzino, analfabeto e de poucas palavras, ele é o responsável pelas cirurgias espirituais, realizadas no Recinto de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, desde 1965, e opera sempre incorporado pelos espíritos dos doutores Bezerra de Menezes e Aguiar Freitas, entre outros.

Valentim nos recebe, sentado ao lado de uma jovem médica recém formada em medicina, que é também voluntária da casa. O médium usa um par de tênis, traja calça moletom cinza e camisa azul clara, Valentim vai explicando, enquanto dá sequência nos atendimentos. Nesse cenário iniciamos nossa conversa com o médium. A primeira frase pronunciada é “aqui a senhora não vê sangue, nem corte, fazer o que eu faço, ninguém no mundo faz. E sobre fazer diagnósticos de uma eventual doença é categórico em afirmar que, “para desenganar uma pessoa é dentro de dois minutos, duvido alguém curar, não tem médico, não tem ninguém, desenganei acabou. Semana passada eu botei a mão por “riba” de um médico, falei pra ele doutor pode ir embora, você vai morrer em casa, você não tem cura, e ele morreu em seguida, eu sou dessa medida”, assegura Valentim.

Sobre a fama explica que “não tem um país que eu não atendo, e de todo canto do Brasil. Não tem um país do mundo que não tenha meu retrato. Não tô aqui para enricar, pra enganar ninguém,era pra eu estar bilionário, se eu cobrasse da humanidade”, desabafa o médium. Com relação à política, Valentim é incrédulo em afirmar que “a tendência é piorar, não tem candidato que vai levantar este país. O Brasil já acabou, não vai melhorar nunca, não espera isso”, desabafa Valentim.

Quando indago sobre sua saúde, Valentim responde com resignação. É como Deus quer, num dia estou bom, no outro estou ruim, noutro feio, noutro bonito. Diz que quando sai de casa pede proteção a Deus e pronto, e acrescenta “eu nunca esmoreci na minha vida, eu toco o barco”. Diz também que não é contra a medicina, nem médico, nem hospital. Bem humorado faz brincadeiras, com uma paciente que reclama com problemas na perna, aí ele diz “ vai morrer com ela”, caçoa Valentim..

O médium declara que não vai deixar nenhum substituto para assumir a casa, quando desencarnar. “Quando for pra ir embora, eu vou e acabou não vou ficar debilitado. O recinto vai fechar, não quero mentira aqui dentro e também ninguém quer meu sofrimento”, confessa. Nesse momento se aproxima uma moça morena, que lhe entrega uma carteira profissional e pede ajuda para arrumar emprego, Valentim manuseia a carteira abre ao meio e fica com a mão espalmada alguns segundos sobre o documento, fecha e devolve para a moça.

O que dizem os espíritas

O diretor Pedro Botelho explica que a Federação Espírita, não tem autoridade para julgar ação individual de cada médium. Mas que reconhecem o fenômeno, e o trabalho de cura de Valentim Ribeiro. “Não temos nenhum reparo a fazer quanto a sua conduta. A ação e o resultado da cura é uma concepção individual”. Botelho diz ainda que os médiuns se dedicam a aliviar o sofrimento de quem busca ajuda, destaca o diretor.

O que dizem os especialistas

Ciência médica

O Professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora, fundador e diretor do NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) Alexander Moreira explica que “apesar de uma origem tão antiga, as curas espirituais persistem ainda em nossos dias quase que completamente ignoradas do ponto de vista científico. Um importante fator para o desconhecimento científico das cirurgias espirituais é a omissão dos pesquisadores, muitas vezes fruto de um intransigente cepticismo”, constata o psiquiatra.

Sensatez

Para o escritor e professor com referência em temática em espiritualidade, Bruno Gimenes “algumas pessoas, já desesperadas pela busca de uma cura verdadeira, transferem completamente a responsabilidade de sua saúde para os médiuns e curadores. Temos que ter discernimento suficiente para entender que o equilíbrio é o melhor caminho. Devemos dosar a ação das terapias alternativas, dos médiuns e curadores espirituais, assim como da medicina alopática em proporções saudáveis”, explica Gimenes.

Crença

Segundo Dalton Campos Roque, escritor e pesquisador espiritualista, “a fé independe de religião, de doutrina, de filosofia, de nível cultural, financeiro ou intelectual. Sem querer ou poder concluir nada, deixo o sentido da palavra “fé” em aberto, tendo a certeza de que é de foro íntimo, e intransferível”, subentende o pesquisador.

Legislação

Havendo reações contrárias ao tratamento proposto pelos espíritas, curandeiros e charlatões, pode-se desencadear reclamações e denúncias. As providências penais estão previstas no Código Penal Brasileiro, segundo os artigos 282 (exercício ilegal da medicina) condena a prática ainda que gratuito o 283 (charlatanismo) condena anúncios de cura por método secreto ou infalível. O 284 prevê condenação ao curandeirismo (fazer diagnóstico). O autores dessas infrações estão sujeitos a detenção.

Por Leonice Rezende

 

 

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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