Imprensa e população resistiram ao AI-5, diz Lage

Em 13 de dezembro de 1968, Nilson Lage, aos 32 anos de idade, era redator-chefe da Revista Manchete, empresa que ele havia ingressado no ano anterior, vindo de “A última hora”. Em plena ditadura militar, ele pôde constatar o impacto que a instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5) teria para a imprensa e sociedade.   Ele assistiu pela TV ao que já se rodava entre conversas na redação.  “Na época, já se previa que viria algo do tipo”. Em entrevista, o professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), de extensa produção bibliográfica para a área de comunicação, e um dos principais pensadores vivos do jornalismo brasileiro, relembra como ajudou Alberto Cury, da Agência Nacional, a retomar a vida após ler aquela lei que representaria um retrocesso na vida dos brasileiros. Lage também retoma que o ato foi recebido com muita resistência tanto por parte da imprensa como da sociedade organizada. O professor ainda critica a postura atual das empresas jornalísticas diante de casos de opressão.  “Nós temos uma situação pior do que naquela época”. Leia mais abaixo

 

Como o senhor ficou sabendo do AI-5? Acompanhou pela TV?

Antes da decretação do ato na televisão a gente soube. Um pouco antes.

Qual foi a reação da redação?

Na época, já se previa que viria algo do tipo. Naturalmente, foi um pouco mais intenso do que se pensava. Foi lido pelo Alberto Cury, uma voz estrondosa. Coitado do Alberto, ficou marcado durante anos por isso. Ele era o locutor de plantão na Agência Nacional e mandaram ele ler um documento. Ele nem viu o documento. Quando ele abriu, era o AI-5, aí ele já estava lendo.  Ele era plantonista na Agência Nacional na época. Era funcionário. Recuperei essa rapaz 10 anos depois, na TV educativa. Botei ele pra apresentar programas. Queriam me bater porque era o homem que tinha lido o AI-5. E daí? Ele leu, não escreveu.

Confira abaixo programa da TV Cultura sobre o AI-5

Qual foi o sentimento geral?

Olha, o que se pode esperar de uma ditadura? Foi um sentimento de frustração. Mais ou menos o sentimento que se está tendo agora. Você sabe que praticamente todas as profissões hoje são universitárias. Isso tá fora da realidade, mas do que adianta dizer que tá fora da realidade? O que adianta? É absolutamente inútil. Você tem uma parcela da população imbecilmente convencida de que isso está certo. Tem que deixar correr, é assim… você vai fazer o quê? Vai brigar? Contra quem? Você tem uma parcela da população que realmente acredita que é preciso acabar com o ensino de sociologia e filosofia, que é preciso fazer o professor obedecer à orientação dos pais dos alunos para não dizer nada que os incomode, é preciso submeter o professor ao pai de aluno e não mais à disciplina que ele está ensinando. As pessoas estão convencidas de que é assim. O que você vai fazer? Se fosse alguma coisa assim: o poder autoritário está impondo, é uma coisa, mas quando tem uma parcela enorme da população convencida, você fica quieto. Vai bater a cabeça na parede? Falar por que veículo? Publicar onde? Não vai nada. As formas de luta são outras.

O que o senhor acha que mudou de lá pra cá?

Olha, eu acho o seguinte: nós temos hoje uma situação muito pior do que aquela época. Quando houve o golpe de 1964, a imprensa brasileira era muito diversificada, tinham jornais de todas as tendências e era muito plural. Você tinha uma porção de emissoras de rádio, a televisão ainda era pequena, mas você tinha uma porção de televisões com linhas completamente diferentes. A maioria delas foi fechada. Pra te dar uma ideia, os grandes jornais do Rio de Janeiro eram o Jornal do Brasil, o Correio da Manhã e o Diário de Notícias. Fecharam todos. O Diário de Notícias foi fechado no tapa. O Correio da Manhã prenderam a dona do jornal e a redação inteira. O Correio da Manhã era uma empresa que tinha como redatores, para te dar uma ideia da grandeza da empresa, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos. Não era uma porcaria, era uma empresa que ocupava um prédio de sete andares com um deles só para assistência médica dos empregados. Tinham dois mil empregados. Tinham uma fábrica de papel no Canadá. Não era uma empresa pequena. Eles destruíram. Os militares que assumiram o poder em 64, pelo menos uma fração deles, um grupo, que era do (Humberto) Castelo Branco, depois recuperou o poder com (Ernesto) Geisel, tinha um projeto nacional. Eles recuperaram a política externa independente que Jânio Quadros implantou. 

Desenvolveram várias áreas da indústria, fizeram comércio de petróleo com o Irã e o Iraque, desenvolveram uma política de aproximação com a África, e uma série de projetos. Criaram a Embrapa, a desenvolveram… tinha um projeto nacional. Agora não, agora é um projeto de destruição nacional. Não vai sobrar nada. Tudo que existe no país será destruído em breve. Ponto final. Não vai sobrar nada. Nem um pingo. Vão destruir tudo. Vai Banco do Brasil, vai Caixa Econômica, vão todas as estruturas que permitiram ao Lula dar aquele salto econômico. O Banco do Brasil, a Caixa Econômica, que baixaram os juros e permitiram aquele salto. Isso não vai existir mais. É um problema de terra arrasada. Eu acho que é bem pior. Não houve nenhum atentado tão agressivo aos direitos trabalhistas naquela época. Houve até alguns pequenos avanços em áreas específicas, como por exemplo a transformação do BNDE em BNDES, com a criação de um plano de investimento social, houve até alguns avanços. Violento como agora, não.

A CLT foi mantida, preservada, com a exceção da aposentadoria que foi substituída pelo fundo de garantia, mas o fundo de garantia (FGTS) ao mesmo tempo criou um monte de dinheiro que permitiu um investimento estatal muito pesado de 69 em diante. Quer dizer, a situação hoje é pior. Bem pior. Inevitavelmente pior. Até porque hoje a solidariedade ao governo é muito maior. A época, o AI-5 não foi uma coisa popular. Ele encontrou uma certa resistência silenciosa, mas a população resistia, se sentia mal. Hoje não. Hoje estão satisfeitíssimos. Quanto mais desgraça sai, mais felizes eles ficam.

Qual era o clima que se tinha nas ruas?

Na época, houve, no caso do Rio de Janeiro, uma série de provocações. A última delas foi o assassinato do estudante Edson Luís, no restaurante Calabouço. Os outros estudantes secundaristas pegaram o cadáver e levaram até a Assembleia Legislativa, expuseram o cadáver. Houve uma reação violentíssima na cidade. A Marcha dos Cem Mil, um quebra-quebra terrível, uma coisa impressionante, que nunca se viu. Para te dar uma ideia, eu tinha um conhecido que era escrevente de cartório e ele jogava os livros pela janela. Teve gente que jogou privada em cima de polícia. Era uma coisa muito violenta. Isso aí foi uma preparação. Criou o clima para o AI-5. Houve uma preparação via provocação para forçar um levante e criar o clima para o AI-5. Isso é típico do comportamento de direita. Forçar uma revolução frágil para permitir uma reação forte. Sempre fizeram isso e sempre farão. Provocam e quando as pessoas reagem, vem a repressão e justifica a repressão. Esse é o processo que havia. No Rio de Janeiro, havia uma grande inconformidade. Em São Paulo menos porque São Paulo é um estado onde essa direita tem seu grande quartel, seu grande repertório. Aquela burguesia paulista é muito reacionária e segura um pouco. Mas no Rio e no restante do país havia muita reação e muito inconformismo. O AI-5 vem em cima disso, criando condições, como para o recrudescimento da repressão e das formas mais agudas de repressão, como tortura e etc. Abriu caminho para a escolha do Médici.

Na época, a sucessão do Costa e Silva estava entre o Médici e um oficial nacionalista chamado Albuquerque Lima, que era ministro do Interior e era o provável sucessor do Costa e Silva. O AI-5 e o clima que se criou favoreceram o Médici e prejudicaram o Albuquerque. A corrente do Albuquerque só assumiu o governo anos depois, com Geisel, associada ao pessoal que vinha do tempo do Castelo Branco. Esse pessoal se aliou ao grupo do Albuquerque e fez o Geisel. A política militar, ninguém fala nela, mas existe.

Como o senhor acha que a imprensa se comporta atualmente?

Acho que a imprensa está num processo de auto-extinção porque ela está fazendo um tipo de jornalismo publicitário, com exceção, no momento, até certo ponto, da Folha de São Paulo. O que acontece na Folha? Morreu o Otavinho (Otávio Frias Filho, ex-diretor de redação da Folha e ex-diretor editorial do Grupo Folha) e assumiu a irmã dele, que tem uma visão um pouco diferente. Ela tem uma certa abertura.

O senhor acha que existe uma forma de resistência na imprensa?

A melhor resistência que há na imprensa e jornalismo é a verdade. Se você conseguir emplacar a verdade, meus parabéns. É tudo que se precisa. Ninguém precisa de jornalista dando palpite. Precisam que o jornalismo conte as coisas como são. Contar como são, aprofundar, mostrar como as coisas são. Quando você vai fazer uma matéria assim: “o governo nomeou o senhor Fulano de Tal, representante da empresa X”. Não custa nada você explicar o que é a empresa X, para as pessoas entenderem. Se não vai ficar só o “fulano foi nomeado e trabalhava na X”, acabou. Para um leitor leigo, isso não quer dizer nada. E é assim que essa informação superficial quando convém e profunda quando convém deve ser eliminada. Se contar a verdade já faz um grande negócio. Estão escondendo as coisas. É uma pobreza de informação e eu fico com pena.

Vamos pegar um caso simples. A Globo mandou uma equipe para São Gabriel da Cachoeira para cobrir negócio de vestibular da UniCamp. São Gabriel da Cachoeira é um dos lugares que tem mais notícias no Brasil. É uma cidade que tá na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. Lá tem uma base militar importante. Onde tem comandos de batalhão de Selva pra tudo quanto é lado. É um lugar onde tem seis ou sete nações indígenas. O cara vai lá, faz umas imagens e volta. Uma viagem dessas pra isso? Para cobrir uma prova, bate uma fotografia, bota os índios escrevendo. Para isso você manda uma equipe? Isso é jogar dinheiro fora. É uma viagem cara como o diabo. É uma brincadeira. Virou um jornalismo de piada. Não tem dinheiro pra nada e quando tem faz bobagem.

Onde o senhor acha que foi perdido o senso crítico do jornalismo e da imprensa?

Acho que foi no processo de liquidação da imprensa que aconteceu depois de 1964. Eu acompanhei isso de 1962, quando estava no Jornal do Brasil, até 1975, quando resolvi largar jornal, eu ganhava muito bem, era executivo, e ir para a universidade. Não estava dando para suportar. Quando larguei, fui para a universidade, embora na época não tivesse nem graduação. Foi uma decisão pensada. Eu tinha filho, família, tudo. Vendi bens e fiz medidas para aguentar enquanto fazia mestrado e completava a graduação. Mudei para a universidade porque não aguentava o padrão moral e ético da coisa.

Foi nesse período que se perdeu para a imprensa. Acho que o marco dessa decadência foi a demissão do Alberto Dines do Jornal do Brasil por causa de algumas coisas que ele tentou fazer para dar a notícia da deposição do Allende, essas coisas. (Dines manchetou no jornal o seguinte texto:  “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…”). Em seguida houve um trabalho de destruição. Ofereceram, gratuitos e financiados e viagens, ao pessoal de economia para estudar coisa de banco e virou tudo banqueiro. Você vai para a editoria de economia e todo mundo entende de finanças, ninguém entende de produção. Isso não aconteceu de graça. Foram dadas uma porção de viagens, cursos nos Estados Unidos e o diabo a 4. Isso foi fabricado. Os próprios cursos de comunicação foram feitos para desprecisar, né? Porque eles foram baseados em modelos estruturalistas da época. Pegaram o pessoal do estruturalismo e mudaram o discurso na década de 60. Foram cursos que saíram de manuais da CIA. Os cursos de comunicação da América Latina, todos saíram de manuais da CIA.

Como voltar com o senso crítico do jornalismo?

Primeiro precisaria mexer no próprio meio profissional e nas oportunidades de trabalho que as pessoas têm. Tenho a impressão de que teria que ser repensada essa noção de empresa jornalística. Os investimentos industriais que existiam antes não tem mais sentido. Não precisa montar emissoras, nem máquinas de impressão, nem coisa nenhuma, então isso já elimina uma parte da nossa empresa. A segunda coisa é que o público está extremamente disperso, embora, observe bem, isso eu digo da empresa, não digo da profissão, o que acontece em qualquer desses blogs ou redes sociais. Nenhum deles tem acesso ao príncipe. Quem vai lá perguntar ao príncipe é o jornalista. Ninguém tem acesso a esse tipo de informação, senão alguém que está habilitado para isso. Mesmo na imprensa atual, aparece um jornalista e dá uma informação importante. O trabalho profissional bem feito é um favor ao país. Há um excesso de palpite. Mesmo o palpite progressista é um individualismo meio besta. Que autoridade tem a Miriam Leitão pra dar palpite em economia? Ela não é economista, não entende nada de economia. Tá falando o que outros disseram a ela para falar. Nunca estudou economia na vida. Precisa ter o mínimo de bom senso.

A influência das fake news antigamente teve maior força do que hoje em dia?

Não, as de hoje têm muito mais força. São muito mais espalhadas. Antes atingiam pequenos segmentos da população. Hoje as pessoas estão de tal maneira condicionadas que acreditam em qualquer besteira e não há como desmentir. 

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Por Vitor Mendonça e Vinícius Heck

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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