Educação sexual é tema para ser tratado na escola, defende pesquisador

As questões de gênero e de educação sexual precisam ser discutidas em sala de aula. Essa é a opinião do  pedagogo Fabrício Santos Dias de Abreu, pesquisador em educação e psicologia e professor da educação especial do Distrito Federal. “São questões que atravessam a experiência sócio-afetiva dos alunos. No Brasil, temos índices cada vez maiores de extermínio de mulheres e pessoas que não são heterossexuais ou optam pela transição de gênero. É uma realidade assustadora, justamente por não educarmos nossos alunos para o respeito e aceitação da diversidade”, afirma.  

Para Abreu, as pessoas entendem, de maneira errada, que sexo (ato) é sinônimo de sexualidade, sendo vinculado a reprodução e fatores puramente biológicos, mas está além disso. Em literatura científica, como em Freud, ela envolve fatores como a afetividade, o conhecimento de si, do corpo. Por isso, também, é fundamental que a educação sexual seja tratada também em sala de aula. “É necessário que o professor fique atento às demandas e trabalhe essas questões com os alunos, atrelado às necessidades de acordo com a idade”.

Professor Fabrício Abreu. Arquivo pessoal

Na visão do pesquisador, as escolas possuem dificuldades em abordar a temática com os alunos, tratando apenas pelo viés biológico e vinculado à reprodução. “É preciso ensinar a se portarem de maneira mais respeitosa e acolher ao outro, a respeitar os seus corpos e os dos outros. Infelizmente, o resultado disso é o aumento nos crimes relacionados a sexualidade e gênero.

Sexualidade e deficiência

Fabrício Abreu entende que falar de sexualidade e deficiência, ao mesmo tempo, é um tabu. Uma das críticas que ele faz é que as escolas enxergam os alunos com deficiência como infantilizados e incapazes de serem sexuados. “A falta de uma educação em sexualidade adequada e fatores como a condição social que essas pessoas ocupam na sociedade, os tornam um público vulnerável sexualmente”. Como exemplo, uma pesquisa realizada pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde mostrou que, em cada 10 vítimas de estupro, uma apresentava algum tipo de deficiência. “As escolas e as famílias devem auxiliá-los em relação a essas dinâmicas, pois como qualquer pessoa, eles sentem a necessidade de serem amados e demonstrarem afeto”, afirmou Fabrício.

Possíveis efeitos

Quanto à abordagem realizada pelas escolas, o pedagogo explicou que há a necessidade de incluir as questões de gêneros em planejamentos, discussões e atividades, com o objetivo de eliminar as hierarquias de que o feminino precisa se submeter ao masculino. Ele defende que os professores devem mostrar para as meninas que elas podem ser o que desejarem, seja jogadora de futebol ou astronauta, por exemplo. Com os meninos, seria necessário trabalhar a questão do afeto. “Dessa forma, retiramos dos nossos alunos todo o peso imposto pelos padrões de gênero e contribuímos para uma sociedade muito mais acolhedora e pautada em princípios de liberdade da experiência humana.”

Na questão da sexualidade, Abreu explica que é necessário fazer uma educação para além dos aspectos técnicos e biológicos, que possa atender as demandas reais dos alunos. “Deve ser trabalhado além da questão biológico-preventiva, ensinando os alunos que o afeto e os sentimentos os constituem enquanto sujeitos no mundo”.

No olhar de Fabrício, os efeitos das abordagens quanto a esses temas seriam o empoderamento dos indivíduos, a possibilidade de conhecer os seus corpos e experiências da sexualidade muito mais sadias. Caso os trabalhos sejam realizados com foco na diversidade, de expressões de gênero e de sexualidade, o resultado são sujeitos mais atentos e acolhedores aos sofrimentos do outro.

Experiência na Ceilândia

Professora Viviane Silva trabalha na Ceilândia. Foto: Arquivo pessoal

A professora Viviane Silva aponta que uma experiência bem sucedida ocorreu no CED 7 de Ceilândia. No período em que lecionou para alunos do ensino fundamental, na faixa de 11 a 14 anos, no CEF 26 de Ceilândia, ela recorda que  eles costumavam trazer questões sobre sexualidade e gênero  e demonstravam muita curiosidade.

“Na época, eu sabia que isso os inquietava, mas não me sentia muito à vontade para tratar do tema, pois não queria invadir a educação e os princípios familiares. Julgava que talvez eles fossem muito jovens para falarmos de certos temas que ainda eram tabus na sociedade.”

No período em que foi lecionar para alunos do ensino médio, no CED 7, de Ceilândia, com faixa etária de 15 a 18 anos, a professora de espanhol percebeu que as inquietações eram parecidas com as dos estudantes do ensino fundamental. “Percebi que as angústias eram semelhantes, mas agravadas por questões relativas às inseguranças da própria adolescência”, pondera.

O grupo resolveu abordar o tema visando à redução das desigualdades, com o objetivo de promover a reflexão. “ Os jovens devem pensar nos papéis sociais desenvolvidos em função dos gêneros conforme expectativas da sociedade”, explicou Viviane Silva.

A abordagem sobre essas questões de gênero e sexualidade foi realizada através de discussões, com vídeos como “Acorda, Raimundo, Acorda” e “As melhores coisas do mundo” e debates que trouxessem a reflexão. Em uma das atividades, a professora relatou que foi colocado uma lista para que os alunos pudessem classificar os itens de acordo com o gênero. Após a classificação, foi perguntado se eles concordavam com aquela distribuição e então iniciaram um debate se há diferença entre “coisas de meninos” e “coisas de meninas”. O debate levou à reflexão de que, na verdade, os estigmas são construções sociais.

Professora Gina Vieira é idealizadora do “Mulheres Inspiradoras”

Na escola, uma discussão de gênero ganhou espaço com  o projeto Mulheres Inspiradoras, idealizado pela professora Gina Vieira.  “Esse projeto foi muito enriquecedor por mesclar literatura e produção de texto bem como reflexões acerca de gênero e a mulher na sociedade contemporânea”.  

A professora avaliou que a maioria recebeu de forma positiva, mas ainda ouviram comentários machistas e homofóbicos, que foram mediados pelas próprias turmas. Na visão de Viviane, as questões de gênero e sexualidade devem ser tratadas em sala de aula, no momento em que o professor se sentir apto e notar que os alunos possuem a demanda. “Acredito que o tema deve ser abordado, mas o professor precisa ter uma sensibilidade e conexão com o grupo”.

Visão dos alunos

O estudante do CED 7 de Ceilândia, João Victor Soares, 17 anos, considera importante a abordagem das questões de gênero e sexualidade em sala de aula. “Aprender sobre identidade de gênero e sexualidade é algo que trará consciência para você e respeito a quem está dentro desse meio”.

Ele acha “magnífica” a abordagem porque professores trazem o tema, por meio de eventos, de forma a conscientizar os alunos. Ele entende que isso refletiu no ambiente escolar, pois houve a inclusão e a compreensão por parte de quem tinha uma postura mais conservadora para esses assuntos. “Muitos alunos, a maioria homens, não entendiam o que é ser uma mulher trans/homem trans, por exemplo. Depois de todo esse processo, boa parte destes alunos começam a ter uma visão diferente e mais sensata sobre o assunto”

João Victor afirma que entendeu mais sobre  identidade de gênero. O aluno do 2º ano do ensino médio acha que aprofundar mais no assunto traria uma taxa de conscientização seria maior.

Produzida por Ana Luísa França

 

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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