Projeto gratuito de patinação ajuda crianças no Lago Oeste

Projeto de patinação gratuita ajuda comunidade no Lago Oeste, tira crianças da rua e faz de uma quadra do lugar a “pista dos sonhos”   

 

Ao aviso da professora, todos correm para a sala, é um alívio. Depois de aquecer, eles finalmente podem colocar os patins. Saem da sala cada um com um par na mão. O calçados cobertos de poeira, pois a quadra é aberta, e fica na zona rural do Lago Oeste, em Sobradinho, a 15 km do Plano Piloto de Brasília. As costas dos entusiasmados patinadores estão sujas, depois de sentar no chão para ouvir as recomendações da professora. E assim eles se sentam para entrelaçar os complicados cadarços. “Tia, me ajuda?”. Grita uma criança no canto da quadra, que depois de várias tentativas de ir e vir com o cadarço, depois de cruzá-los de todas as maneiras, quase desiste. A professora se abaixa e  amarra os pequenos patins. A menina tem apenas 5 anos de idade, e apesar da dificuldade de amarrar, levanta sem medo algum, e desliza rápido pela quadra da comunidade. É possível avistar também um grupo de crianças atrasadas vindo da escola. Debaixo do sol de um pouco mais de meio-dia, elas se abrigam ao chegar na quadra. Felizes, pegam a caixa de som e colocam no lugar, tiram as mochilas das costas, e já vestem os patins. Parece até que essas crianças já nasceram com rodinhas nos pés. Mas não foi sempre assim. Um projeto social mudou a vida delas.

 

A quadra é da Associação de Produtores do Núcleo Rural do Lago Oeste (Asproeste) e fica do lado do Centro Educacional Professor Carlos Ramos Mota. O espaço foi concedido para o projeto “Salte Brasília” gratuitamente, pois se trata de algo que beneficia a comunidade (pelo menos 80 crianças fazem parte dessa turma)  Boa parte da população local é formada por pequenos produtores que praticam a agricultura familiar ou plantam apenas para própria sobrevivência. As crianças do lugar não teriam condições de praticar o esporte se não fosse a iniciativa de professores.

Campeã: “tiramos as crianças da rua”

No começo do projeto, somente dois alunos faziam parte. Uma das pioneiras foi Luziene Cardoso.  “Quando começou, só tinha eu e um amigo” relata. Agora ela dá aula de patinação no Lago Oeste, e comprou seu primeiro patins com o dinheiro que juntou ensinando o esporte. Esse ano, foi campeã brasileira de sua categoria. Sem o projeto, ela entende que nunca teria conseguido realizar esse sonho que nem ela sabia que tinha.

 

Luziene também fala das mudanças na vida dos participantes. “A patinação ajuda em muita coisa. Além do preparo físico, aqui no projeto a gente tira as crianças da rua”. Os pequeninos da comunidade não tem muito entretenimento. “Ou elas ficam em casa vendo TV, ou ficam brincando na rua, sujeitos a muita coisa”, a atleta relatou também que tiveram casos de crianças perseguidas enquanto brincavam na rua. Além da cobrança nas quadras, a professora cobra que as crianças tenham boas notas na escola para poder continuar no projeto.

 

Assim Henrique teve que fazer uma campanha para arrecadar patins. “Recebi várias doações de pessoas que não os usavam mais”. Porém, com a evolução dos alunos, surgiu mais um desafio, conseguir uma roupa para competir.

 

Quando todos já estão devidamente calçados, o sorriso fica estampado no rosto de cada um. As crianças brincam de se o desafiar a fazerem  saltos diferentes e até acrobacias antes que a professora os chamassem para começar a aula. Logo, a brincadeira fica mais séria. Eles começam a patinar em volta da quadra. O cenário é tão aberto, que aparece um cachorro que também brinca com os  os alunos. Mas não tem problema. Se antes eles corriam, agora patinam. Sem chance para o cãozinho. O bicho é criado por Maria Eduarda, de 13 anos que voltava aos treinos depois de um tempo sem poder participar. Suor escorre no rosto da meninada depois de apenas três minutos de aula. Quando  é uma hora da tarde, o sol toma conta de parte da quadra.

“Antes eu acordava 11h, comia, me arrumava e ia para a escola. Agora eu acordo cedo, faço meus deveres e venho para a patinação. Minha disposição melhorou muito!”, recorda a adolescente Maria Eduarda, que já tem discurso e pose de patinadora.

Atualmente mais de 80 crianças e adolescentes participam do projeto Salte Brasília. Henrique Pamplona Fontoura, dono de uma academia de patinação Artística foi quem resolveu criar um projeto assistencial para colaborar com a comunidade do Lago Oeste. “Eu queria ajudar alguém fazendo o que eu faço de melhor, que é dar aula de patinação”.

Em 2012, Pamplona resolveu pegar a quadra da associação do Lago Oeste  e transformá-la em um rink (a pista) de patinação. O piso já era apropriado. Só faltavam os patins e os alunos. Assim ele declarou que estavam abertas as aulas ali, para quem quisesse, gratuita. E levou alguns patins da sua academia, para emprestar às pessoas que quisessem patinar. Mas, com o tempo, o projeto foi crescendo, a notícia foi se espalhando pela comunidade, e os patins ficaram poucos para o número de alunos. Assim Henrique teve que fazer uma campanha para arrecadar patins. “Recebi várias doações de pessoas que não os usavam mais”. Porém, com a evolução dos alunos, surgiu mais um desafio, conseguir uma roupa para competir.

 

O esporte não é dos mais baratos. “Um par de patins para iniciante custa cerca de R$ 500 e um profissional pode ultrapassar os R$ 5 mil. Se quiser competir, uma roupa adequada pode chegar a R$ 1.500”, pondera Henrique. E não é uma prática que gera retorno financeiro. Não é por dinheiro que ninguém patina nessa história.

Paixão que vem de casa

 

A família de Henrique respira patinação há cerca de 20 anos. Irmã dele, Bárbara também patina desde pequena e coleciona vários collants desde a infância. “Minha irmã empresta seus collants antigos para as meninas e eu, as roupas para os meninos”, complementa Henrique.

 

Mais de 400 alunos passaram pelo projeto. E todos usaram patins emprestados, pelo menos no começo. Todos que quiseram competir ou apresentar, tiveram roupas emprestadas, e caronas na hora de ir para os respectivos locais. Hoje o projeto conta com três professores e dois monitores. Todos pagos pela academia de Henrique. “Às vezes um rolamento estraga, uma roda quebra, e é preciso de manutenção. Tudo também pago pela academia.”

 

Contra depressão

 

Além dos benefícios expostos pela campeã Luziene, a monitora Naíza Barbosa, de 21 anos, diz que a patinação deu rodas aos pés, mas ajudou a mente. Ela sofreu de depressão. “A patinação tem me ajudado a tirar toda a energia que eu colocava nas coisas negativas e focar no esporte”.

As aulas gratuitas são de segunda à quinta, de manhã e à tarde, cerca de cinco turmas por dia, divididas por níveis, iniciantes e avançados. No final de ano, a academia se prepara para a apresentação que acontece anualmente. Então os alunos tem ensaio também às sextas e sábados.

 

A professora, Alice Machado, conta que os meninos reclamam de preconceito. Logan, por exemplo, é um menino de 14 anos que começou o esporte esse ano. “A maioria me chama de viado por estar patinando, e eu sempre falo que não é isso, que patinação é pra homem e mulher”. Alice contou ainda que por esse preconceito “Só tinham dois meninos no começo, hoje já são 18 meninos patinando”.

 

Mais um dia chega ao fim. As crianças vão juntas pegar o ônibus em meio à poeira e à beira da pista da DF 001. Vão andando, mas com a memória nas rodinhas. Como se deslizassem. “Mudou muita coisa na minha vida depois que eu comecei a patinar”, diz Vinícius, de oito anos. Ele observa se o ônibus vai chegar, mas não vê a hora de calçar de novo os patins.

 

Aula de graça

 

 

A academia do Henrique Pamplona (Espaart) trabalha especificamente com patinação artística.  Mas ainda no mundo das rodas e rolamentos, há a Nação Bsb Patina, criada por Iran Sotero. Um pouco diferente do projeto “Salte Brasília”, a Nação aceita todos os tipos de patins, mas não empresta os equipamentos. São aulas semanais, aos sábados, em parques de Brasília, às vezes no bosque do Sudoeste, e às vezes no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, na época de chuva, as aulas são em um clube na Asa Sul.

 

É gratuito para participar e não há limite de idade. “A criança mais nova que eu tive foi 3 anos e a pessoa mais velha, 68”, relata Iran. Para fazer parte da aula, é preciso levar o próprio par de seu patins, e equipamentos de segurança – joelheira, cotoveleira, munhequeira e capacete. O Nação foca em iniciantes, eles ensinam o básico.

A primeira aula de qualquer pessoa é a aula de queda, para que o aluno aprenda a cair sem se machucar. Depois é ensinado a fazer zigue-zague, algumas posições, e ter mais liberdade para se divertir em cima do patins. Nas aulas, os alunos não são treinados para competição, quando chega no ponto do aluno escolher uma modalidade, seja ela a patinação artística ou de velocidade, ele é indicado para academias específicas.

 

Com mais de cinco anos de existência, a Nação BSB Patina começou por causa da filha de Iran “A gente foi para a Espanha, fui fazer uma pós graduação lá, fiquei por um ano. Nesse período a gente tinha um horário vago, aí eu decidi fazer alguma atividade com ela. E fomos para o Madrid Patina.”

Ao voltar para Brasília, alguns amigos insistiam que ele os ensinasse a patinar, ofereceram até pagar pelas aulas, mas ele decidiu ensiná-los de graça. “Peguei meus três amigos e fui para a quadra do sudoeste, eles aprenderam muito rápido, um dia apareceram duas, três pessoas e perguntaram se eu dava aula e tal, eu falei que dava, aí perguntaram ‘e quanto você cobra?’ eu falei que não cobrava nada, e falei pra eles virem, mas com todas as proteções” e  o número de pessoas foi crescendo, então, inspirado no projeto espanhol, ele criou o Nação.

Hoje eles contam com quatro monitores, todos fazem o trabalho voluntário, e nas aulas, as pessoas que patinam a mais tempo são incentivadas a ajudarem os iniciantes. Os monitores são pessoas que nas palavras do Iran “É como se eu saísse daqui e ficasse outro eu.” Já passaram mais de 400 alunos pela Nação e hoje tem cerca de 60 alunos.

Por Laura Neiva

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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