Anúncio de “massagista para clínica erótica” em jornal tenta atrair jovens para rede de prostituição

–  Olá, eu vi um anúncio de vaga de massagista no jornal e queria saber mais.                                       

–  Não, aqui, na verdade, é para prostituição. ARTE MARI.jpg

 

A resposta surge sem meias palavras ou camuflagens. No caderno de Classificados do jornal, a vaga exige “ensino básico: Massagista para clínica erótica, com ou sem experiência”. Após o contato da reportagem com o número de telefone exposto, a atendente que se identifica apenas como Juliana traz as regras e, nesse primeiro contato, pouco pergunta sobre o perfil da pessoa do outro lado da linha. Nessa tentativa de atrair mulheres para fazer programa, a “contratante” afirma que quer ajudar e que a relação será por um site: “50% fica para você e 50% para a gente”. Disfarçada de vaga de trabalho, a exposição do anúncio revela o método de quem pratica crime de cafetinagem por um caminho cruel: explorar pessoas desesperadas por um emprego. 

Confira especial: “Crônicas de exploração anunciadas”

A conversa de Juliana com a repórter acontece como em uma entrevista de emprego. Ela se certificou três vezes se a “interessada” já havia trabalhado com isso.“Você já fez atendimento como acompanhante? Então você nunca atendeu né? Não, né?”, questiona. Então, ela conta como funciona o serviço e informa que metade do valor arrecadado com a prostituição, fica com ela.  Os valores ainda precisavam ser tratados pessoalmente de acordo com a avaliação das fotografias da moça interessada na vaga, o que nunca foi enviado.

Apesar de nos classificados anunciar que o trabalho é em uma clínica erótica, Juliana diz que o serviço é feito em um apartamento cedido por ela. “É em um apartamento, não é em uma clínica, localizado próximo ao centro de Brasília. É um apartamento de três quartos e, nele, atendem cerca de três a seis meninas”. De acordo com ela, o local é disponibilizado das 9h às 19h de segunda à sexta e, nos sábados, de 9 às 16h, para a prática da prostituição das garotas.

Ela explicou que, para atrair cliente,  fotos íntimas das garotas são publicadas em três ou quatro sites de divulgação com informações pessoais e um número disponível para contato. Um dos sites citados pela Juliana é o www.socinquenta.com.br, onde seria cobrado ainda R$ 200 reais, por mês, para a manutenção do perfil das profissionais da região do Distrito Federal.

Juliana contou que o cliente deve agendar diretamente com a garota. Os programas (encontros) demoram, geralmente, de trinta minutos a uma hora. O atendimento pode ser realizado no apartamento disponibilizado, em um motel ou hotel, cujos valores precisam ser tratados com antecipação.

De acordo com Juliana, os valores pagos correspondem ao tipo do atendimento realizado. “O preço depende da forma que você fala com o cliente no telefone, como você é atenciosa (…) Olha, uma coisa que ganha muito ponto com o cliente é fazer (sexo) oral sem camisinha”. Juliana disse que as meninas que trabalham com ela costumam arrecadar entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por semana. O Ministério da Saúde, nas campanhas de prevenção a infecções sexualmente transmissíveis, salienta que sexo oral pode causar a transmissão do vírus HIV (causador da Aids), hepatites virais e sífilis.

De acordo com a Juliana, a metade do valor recebido por programa cobriria gasto que ela possui com a manutenção do apartamento e das fotos no site, além de  disponibilizar produtos e material de limpeza, lençóis e toalha. “A gente divide o programa meio a meio. Eu tenho um gasto com você né? Com tudo isso que eu disse e você tem o seu gasto né e, lógico, precisa ganhar a sua grana né?”, explica. Ela acrescentou que esse valor não cobre os gastos da profissional com alimentação e passagem.

No dia seguinte, a repórter voltou a entrar em contato com o mesmo número, explicou para Juliana que se tratava de um trabalho jornalístico. Desta vez, questionada sobre a vaga, ela negou oferecer o emprego na clínica erótica, afirmou não ter anúncio no jornal e que ligaria para o Correio Braziliense para questionar a divulgação.

“Para cobrir férias”

Nas páginas do jornal, anúncios como esse estão em sequência. Outra vaga de massagista para clínica erótica. Desta vez, na cidade de Valparaíso de Goiás (GO), a 30 km de Brasília. A pessoa que atendeu se identificou como Paula e ao ser questionada pela vaga, ela assumiu que o trabalho era de garota de programa.

De acordo com ela, o apartamento é localizado na cidade Jardins, onde trabalhariam quatro moças. As regras são semelhantes: também é cobrada a metade do valor recebido no serviço. “O cachê do ambiente é R$ 100. Cinquenta reais da menina e 50 da casa. Aqui a menina não paga diária, nem material de limpeza nem o site.  Quem paga o site aqui na casa sou eu. Ai você vem pra cá só pra atender os clientes”, explica. Paula contou que não cobre despesas adicionais como preservativos e roupas íntimas. Além do site “só cinquenta”, a Paula também usa o site “Gatas da Capital” para fazer o trabalho de divulgação das garotas.

De acordo com ela, o valor arrecadado depende da beleza da profissional que atua.  “Quanto mais bonita a menina for e mais eficiente, mais dinheiro ela vai ganhar “

Segundo Paula, tudo acontece de forma camuflada. “Aqui o negócio é discreto. Aqui não tem placa, não tem droga, não tem bebida, não tem nada disso não. Aqui as meninas são tranquilas, o ambiente é limpinho, arrumadinho. Aqui a gente coloca você e o cliente no apartamento e só”. Ela informou que a necessidade de divulgar a oferta de emprego nos classificados do Correio Braziliense é para substituir uma outra profissional que vai tirar férias. 

Ouça o diálogo com Paula aqui.

Ao retornar o contato com a Paula e se apresentar como reportagem, ela confirmou que a vaga é para a prostituição, mas não quis comentar sobre o assunto.

Identificada no site “Só Cinquenta”, Renata*** trabalha com prostituição há um ano e oito meses. Segundo Renata, no início, por falta de informações, ela começou em uma casa onde passava 50% do valor recebido no programa. Após um ano trabalhando dessa forma, os clientes começaram a alertá-la e falar sobre outras formas de trabalhar com a prostituição.

“Eu fiquei um ano lá porque eu não conhecia. Geralmente a gente começa no 50% por não saber. Quando você trabalha na vaga, você que dá o seu valor. Quando é no 50%, a dona praticamente manda em você, são elas que dão o valor”.

De acordo com Renata, no 50% ela lucrava em média de R$ 3 mil por mês. Atualmente, ela mantém seu perfil no site ‘só cinquenta” e seu faturamento, trabalhando por conta própria, ultrapassa os R$ 6 mil.   

 

“Envelope para motoboy”

Ela indicou duas “zonas” (casas de prostituição), onde também é repassado metade do valor do programa. Essa casas estão localizadas em Taguatinga Norte. Segundo Renata, no apartamento 104, há um local de prostituição gerenciado por uma pessoa chamada Miriam, onde trabalham oito meninas.  De acordo com ela, Miriam controla os valores e só paga as garotas ao fim do dia. Além disso, não há colaboração com despesas adicionais. “Elas não dão nada! Não dão almoço e nem passagem. Além disso, as meninas precisam se juntar para pagar os produtos de limpeza. A gente tem que comprar tudo”.

No apartamento 101, três garotas trabalham em um prostíbulo controlado por uma pessoa identificada como Andréia. Todas as fotos das meninas são divulgadas no site “só cinquenta”.

 

O dono do site (o cafetão principal, que atenderia pelo nome de Damião) receberia os rendimentos das novas empregadas por um intermédio de envelope a ser entregue a motoboy. “Assim ninguém se vê pessoalmente”. É tudo virtual.

 

 

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Transporte para MG

 

Com o número para contato de DDD de Minas Gerais, outra oferta de emprego estampa os classificados do jornal, divulga uma oferta de emprego para “Atendente e Massagista Erótica”. Ao contatar o número, a atendente identificou-se como Bruna e informou que o trabalho é em uma casa noturna chamada Grutas Bar, em Santa Vitória, cidade de 19 mil habitantes no interior de Minas Gerais. A boate funciona todos os dias das 20 às 2h da manhã.

 

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A oferta de emprego é para trabalhar como prostituta e receber R$ 150 por programa. Além disso, as profissionais precisam fazer o cliente gastar dinheiro com bebidas, na casa. De acordo com a Bruna, as garotas faturam cerca de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil por semana.  A atendente ainda disponibilizou custear as despesas para com transporte e moradia para trabalhar lá. “Se você quiser trabalhar aqui, eu pago a sua passagem e eu te busco quando você chegar”.

Ao identificar como reportagem, Bruna confirmou a vaga e disse que o anúncio está explícito no jornal. Quando questionada sobre a ilicitude do ato, ela disse que não engana as garotas e não as obriga a trabalhar.

Pessoas supostamente envolvidas na rede de prostituição não foram encontradas para comentar as denúncias. O jornal Correio Braziliense, por sua vez, foi contactado para explicar por que esses anúncios são publicados em suas edições impressas ou eletrônicas, mas não respondeu as questões até o fechamento da reportagem

Crime

O procurador regional do Ministério Público do Trabalho (MPT), Cristiano Paixão, explicou que a atividade da prostituição  em si não é crime, mas as atividades ligadas à sua exploração são. Isso vai depender se há a exploração e quais são as condições desse trabalho.  De acordo com o Artigo 228, do Código Penal,  induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone, é configurado como crime. Segundo o advogado Cláudio Santos, não há como julgar do ponto de vista trabalhista, pois a atividade é ilícita. Dessa forma, não há como estabelecer uma relação de emprego.

Pelo Artigo 229, é considerado ainda crime manter, “por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente”. A pena seria de prisão, de dois a cinco anos, e multa. De acordo com o artigo 230, é crime de rufianismo tirar proveito de prostituição alheia, e a pessoa está sujeita a ficar até quatro anos presa. A punição se agrava se a vítima da exploração sexual for alguém menor de idade.

 

  • Nome foi alterado para preservar a privacidade da vítima de exploração sexual

 

 

Por Mariana Fraga. Com Paula Beatriz e Ana Paula Teixeira

 

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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