Número de empreendedores negros cresce 47% no país

Irmãs fizeram pesquisa antes de alcançarem o sucesso empresarial em um ateliê de bonecas

As irmãs Antônia Joyce, Lúcia e Maria Cristina Venâncio são as fundadoras do projeto “Preta Pretinha”, um ateliê de bonecas que visa a diversidade e inclusão. Joyce conta que, antes de abrirem o negócio em São Paulo, fizeram uma ampla pesquisa de mercado para conhecerem o público da região. As empreeendedoras perceberam que as pessoas das classes C, D e E dão muito valor para bonecas de vinil, ou seja, emborrachadas e industrializadas, pois é um modo de mostrar poder aquisitivo e ostentação. Já as pessoas das classes A e B preferem as bonecas de pano, pois simbolizam a arte manual e o empenho do artesão.

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Segundo Joyce, houve muitos obstáculos para prosseguir com o projeto: “Muitas pessoas diziam que não conseguiríamos vender bonecas negras e as apelidavam de ‘bruxinhas’, ‘negas malucas’ e outros nomes pejorativos”. Hoje, elas não só vendem bonecas negras, mas todas que representam a figura humana, como orientais, ruivas, africanas, com nanismo, com orelha de abano, cadeirantes, com Síndrome de Down, albinas, entre outras.

“Nós mulheres negras não precisamos provar só duas vezes, mas cinco vezes que nós somos boas para aquilo que escolhemos para profissão, temos que dar o nosso melhor” – Joyce Venâncio

PIONEIRISMO

A ideia inicial aconteceu no ano 2000, devido à perda do emprego de Joyce. Hoje elas vendem cerca de 1.000 a 1.800 bonecas por mês e vivem um sonho de infância. “Queria me sentir representada, queria ter uma boneca para levar para os passeios na escola e não tinha. Quando encontrávamos eram bonecos estereotipados e isso nos fazia muito mal, as roupas eram inferiores”. As irmãs, que são pioneiras no empreendedorismo negro, se dizem orgulhosas de fazerem parte de um projeto tão significativo para a sociedade. Elas enfatizam que as mulheres estão cada vez mais ocupando lugares de líderes, empresárias e educadoras. “Nós mulheres negras não precisamos provar só duas vezes, mas cinco vezes que nós somos boas para aquilo que escolhemos para profissão, temos que dar o nosso melhor”, afirma Joyce.

Ela também relata como é a recepção das pessoas quando encontram o projeto: “Há pessoas que choram e se emocionam, tem uns que voltam para contar suas histórias em relação às bonecas”. Elas acreditam que a crise afetou a população em geral, mas que estão conseguindo driblar, pois o empreendedor sempre precisa inovar seus produtos, criando novas opções para o consumidor.

A equipe é composta por oito mulheres e dois homens. Mas, dependendo da necessidade, precisam de reforços. Dizem, também, que não existem projetos como o delas, pois possuem um conceito forte que adquiriram na família. “Trabalhamos com diversidade, inclusão, nunca vimos um projeto assim e isso nos orgulha muito, fazemos pesquisas e falamos com profissionais para desenvolvermos nossas bonecas sem estereótipos”.

A loja “Preta Pretinha” localizada na vila Madalena, em São Paulo, ainda não tem outras filiais. Elas realizam palestras e oficinas de como fazer bonecas em seu espaço, que é considerado um dos pontos de cultura da cidade. A boneca já se transformou, inclusive, em livro. “As aventuras de Preta Pretinha cuidando do planeta Terra” conta como a união faz a força. Incluindo uma diversidade de personagens, como pessoas com deficiência, a história chama a atenção de muitos leitores. As redes sociais são consideradas um bom meio de divulgação das bonecas. Elas possuem Facebook e Instagram (Preta Pretinha Bonecas) além do site (https://pretaprettinha.wordpress.com/instituto/).

DONAS DO NEGÓCIO

As irmãs Venâncio são um exemplo da pesquisa feita pelo SEBRAE, com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada entre 2001 a 2014. Segundo os dados houve crescimento de 47% no número de donos de negócio negros no País, passando de 8,7 milhões para 12,8 milhões de pessoas. Essa forte expansão acontece em associação ao crescente orgulho de se declarar negro.

A pesquisa mostra que as mulheres negras também estão virando donas de seus próprios negócios. Entre 2001 e 2014, a proporção de mulheres passou de 27% para 31%. E a participação dos homens chegou a 69% no grupo dos negros.

Em relação à idade, o grupo “Donos de Negócio” negros tem mais jovens, quando comparado aos brancos, apresentando média de 43,8 anos e 45,6 respectivamente.

Nas três categorias analisadas, predominam os negócios de pessoas que trabalham por “Conta Própria”. A proporção da categoria “Conta Própria” no grupo dos negros é a mais alta, chega a 91%, contra 79% no grupo de brancos e 76% no grupo outros.

Comparativamente, os negros respondem por 51% dos “Donos de Negócio” do País, têm proporcionalmente menos anos de estudo (6,7 anos), são mais jovens, recebem um rendimento médio mensal que equivale a menos da metade do recebido pelos donos de negócio brancos, tem a maior proporção de pessoas que começou a trabalhar até 17 anos, estão há menos tempo no trabalho atual, trabalham menos horas por semana no negócio (38 horas/semana), têm menos acesso aos recursos de telefonia e informática, menor proporção de pessoas cobertas por algum sistema de previdência, menor proporção de pessoas que trabalham em local fixo urbano, maior percentual de indivíduos que trabalham na construção e a maior concentração no Nordeste do país.

Os brancos respondem por 48% dos “Donos de Negócio”, em média, têm 46 anos, recebem um rendimento médio mensal que equivale ao dobro do recebido pelo grupo dos negros, têm mais acesso aos recursos de telefonia e informática, maior proporção de pessoas cobertas por algum sistema de previdência, a maior parcela de indivíduos que trabalha em local fixo urbano, o menor percentual dos que trabalham no setor agrícola e a maior concentração no Sudeste do país.

A categoria outros, que responde por apenas 1% dos “Donos de Negócio” do País, é composta predominantemente por amarelos, têm proporcionalmente mais anos de estudo (9,2 anos em média) e a maior proporção de indivíduos com superior (incompleto ou mais), têm a maior parcela de indivíduos com mais de 65 anos (13%), começaram a trabalhar mais tarde, estão há mais tempo no trabalho atual, são os que trabalham mais horas por semana no negócio (42 horas/semana) e têm as maiores proporções identificadas nos setores industrial e agrícola. Além disso, verifica-se forte concentração em termos regionais. Apenas três estados (São Paulo, Paraná e Pará) detém mais da metade dos donos de negócio desta categoria.

O APOIO AOS NEGROS EMPREENDEDORES

O Inova Capital é um programa de apoio a empreendedores Afro-Brasileiros e tem como objetivo identificar negócios inovadores e com alto potencial de crescimento, buscando capacitar, dar visibilidade e se conectar com investidores além de estimular a diversidade nos investimentos.

De acordo com o site do Inova Capital, houve crescimento de 41% na escolaridade dos afro-empreendedores de 2007 até o ano de 2017 e o rendimento mensal também aumentou em 70% nos últimos dez anos. O crescimento do rendimento mensal ampliou em 37% e 17% em relação ao crescimento de escolaridade se comparado com outros empreendedores. As pessoas negras que trabalham com empreendedorismo cresceram 52% e os negros empregadores 29%.

Ainda segundo o site “O acesso a financiamento e as capacidades de gerir um negócio sem dúvida persistem como importantes barreiras ao crescimento de todas as empresas, contudo os empreendedores afrodescendentes muitas vezes enfrentam barreiras adicionais em decorrência de arranjos discriminatórios históricos além de que as empresas de afrodescendentes são importantes para a sustentabilidade do desenvolvimento econômico e social. Investir em afro-empreendedores oferece aos investidores uma opção de diversificação da carteira de investimentos com retorno econômico e impacto social. ”

“(…) pedi demissão para recomeçar tudo. ” –  Diego Alves

Apoiado pelo Inova Capital, Diego Alves Barbosa, de 32 anos, formado em Tecnologia da Informação, é empreendedor há dois anos, e a falta de oportunidade de atuar na área de formação foi o que o motivou a montar a empresa. “O meu antigo emprego estava afetando minha saúde emocional porque eu não amava o que fazia, trabalhava como assistente técnico para auditoria ISO. Em um momento de muita instabilidade emocional pedi demissão para recomeçar tudo”. Ele diz que o primeiro ano foi muito difícil por não conseguir manter o padrão financeiro que tinha anteriormente. Na empresa que constituiu, para que conseguisse espaço no mercado, investiu bastante e adquiriu muitas despesas, pois não tinha obtido capital de terceiros.

SONHO

“A SLZ7 tem como visão ser reconhecida em 2018 como uma das melhores agências digitais do Estado do Maranhão. ” A frase dita pelo por Diego empreendedor demonstra o desejo e empenho dos quatro funcionários da empresa SLZ7, dois que trabalham em tempo integral, um estagiário e um sócio, cujo objetivo é elaborar estratégias eficazes de marketing na Internet com resultados mensuráveis em longo prazo. Segundo ele, os primeiros obstáculos encontrados dizem respeito à aceitação do negócio no mercado de forma economicamente viável; qualificação da mão de obra; dificuldade de obtenção de financiamento de capital para a empresa, e definição de uma política de preço dos serviços a serem prestados à sociedade. Observa, ainda, o empreendedor que os obstáculos não mais existem, afirmando: “Hoje foram superados, mas ainda é um desafio quanto ao relacionamento com os bancos para disponibilidade de serviços”.

Diego afirma que, nos anos de 2014 e 2015, tiveram muitos problemas no desenvolvimento da empresa: de ordem financeira, com a gestão de processos, falta de uma melhor organização e controle de definição de preço para situações específicas de clientes, o que possibilitou um crescimento de apenas 10%. Em 2016, após a validação do plano de negócio e uma nova cultura organizacional, com a qualificação e a segmentação do cliente, em parceria com um curso realizado na Endeavor e consultoria do Sebrae, foi alcançada a meta de crescimento de 40% já no primeiro semestre de 2016 e, no segundo semestre, focaram em uma nova etapa da empresa quanto ao novo modelo de oferecimento de serviços. Já em 2017, focaram na cultura de inovação. “Foi quando novamente sentimos um crescimento e reconhecimento de mercado. O faturamento aumentou em torno de 30% em relação ao ano anterior e desde então estamos focados em soluções que trazem melhorias contínuas e satisfação do cliente”, relata o empreendedor.

“Tenho cada vez mais confiança no empreendedorismo negro. ” – Diego Alves

A ideia do empreendedorismo nasceu com a finalidade de atender demandas de materiais didáticos em 2013, com o crescimento da área tecnológica na região de Paço do Lumiar – MA, optando em segmentar a agência de desenvolvimento de soluções tecnológicas, se tornando desde então a primeira agência de tecnologia do município. No primeiro ano de implantação, foram reconhecidos pela qualidade dos produtos e logo participaram de campanhas de grandes agências de São Luís. Durante este percurso, tiveram também o reconhecimento da Endeavor como um possível negócio de alto impacto. “Atualmente estamos totalmente concentrados no conceito startup, buscando inovar em produtos tecnológicos que resolvam solucionar situações sociais do dia a dia das pessoas. Esperamos lançar nossa ferramenta em junho de 2018.”, ressalta Diego.

O apoio familiar o ajudou na aquisição e estrutura da empresa aberta em março de 2014. As redes sociais, o Facebook (facebook.com/slz7agency) e site (www.slz7.com), também são fundamentais para a expansão do projeto, a estratégia é essencial para o andamento do projeto, tendo em vista que a exposição errada de peças, serviços ou até matérias equivocadas podem influenciar negativamente todo o projeto.


CONFIANÇA EM MEIO À CRISE

A crise não tem afetado diretamente os negócios do empresário, ele diz que é graças ao fato de sempre buscar criar soluções. Acredita que os desafios do empreendedorismo negro ainda são grandes no país, mas tem potencial para se destacar. “Ainda somos um mercado explorado pelos que acreditam que podemos aceitar menos, mas a consciência desta realidade vem aumentando junto ao interesse também do próprio empreendedorismo afro brasileiro em mudar essa realidade e mostrar a potência de geração de valor com igualdade. ”

Segundo ele, o faturamento de sua empresa é variado, podendo chegar a até R$ 8 mil mensais. O melhor período é entre março e setembro.


POR QUE “SLZ7”?

“O nome da empresa SLZ7 é em homenagem à minha cidade, São Luís – MA. O número 7 faz referência ao número da perfeição e é uma abreviatura, pois a maioria das agências digitais utilizam siglas para representarem as marcas”, ressalta Diego.

EMPENHO

Irmãs se arriscaram  em negócio e divulgaram salão por redes sociais

O Salão de Beleza Atitude Fashion, de Brasília, localizado na SCLN 308, Asa Norte, é a concretização do sonho das irmãs Divina Alvarenga e Joana Alvarenga. Divina conta que não encontraram muitas dificuldades para abrir o negócio, que começou em 21 de maio de 2005, pois sempre tiveram muita fé e ajuda da família. Conseguiram parte do dinheiro com uma amiga e o restante obtiveram em um empréstimo parcelado para alcançar o montante que precisavam. Um fator que ela enfatiza foi a falta de capital de giro, mas que foi superada com muita dedicação ao negócio: “Sempre trabalhamos com muito amor e conquistamos a confiança de todos nossos parceiros nessa longa caminhada”.

Na opinião da Divina, o negro já avançou muito no mercado como empreendedor, mas um número significativo de pessoas ainda não aceita ser administrado por ele. O faturamento do salão cresceu consideravelmente desde a abertura, proporcionando receitas suficientes para cobrir as despesas e destinar uma parcela a título de lucro. Em decorrência desse crescimento, atualmente trabalham doze mulheres e dois homens com as empreendedoras, atendendo satisfatoriamente à clientela.

A divulgação do Salão e do trabalho dos profissionais é feita pelo Facebook (Atitude Fashion), Instagram (Atitude Fashion Salão) e pelo site: www.atitudefashion.com.br onde já estão cadastrados mais de 15 mil clientes, sendo, deste modo, possível oferecer pacotes promocionais, visando o crescimento, cada vez maior, do empreendimento.


CRIATIVIDADE

O cientista social Vítor Dell Rey (na foto acima), de 32 anos, criou o aplicativo Kilombu, para ajudar empreendedores negros, há um ano. Hoje, o aplicativo conta com cerca de 2 mil usuários.

A ideia do cientista surgiu com a experiência que teve com diversos empreendedores na época de sua formação acadêmica. Ao ver que a maioria das pessoas atendidas na clínica de formalização de novos negócios na Fundação Getúlio Vargas eram negras, ele pensou em criar uma ferramenta que as ajudasse.

“Pensei em criar uma ferramenta que ajudasse a potencializar o que os mesmos já estavam fazendo e assim poder atrair parcerias para ajudar na formação profissional destes. ”

O aplicativo, que só está disponibilizado para as plataformas Android, funciona como um buscador Google, a pessoa interessada entra e tem acesso, ao que ele chama de “universo Kilombu”. Lá ela pode encontrar produtos e serviços, depois ela tem acesso aos telefones, Facebook, Instagram e WhatsApp dos empreendedores, sendo assim é só fazer o contato e fechar negócios.

Hoje, Vítor trabalha com mais dois amigos, e fala que o retorno dos usuários é bastante emocionante. Ele também não pensa em vender as ações do aplicativo, mas sim que novos acionistas entrem na sociedade. “Quero fazer o aplicativo funcionar como uma Holding, onde o Kilombu é só um produto dentre tantos outros. Hoje eu tenho o A Ponte Para Pretxs, que reúne 10.500 jovens negros à procura de recolocação profissional, e funciona como um grupo no Facebook”.

Por Amanda Christina e Rayssa Brito

Sob supervisão de Vivado de Sousa e Katrine Boaventura

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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